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August 15, 2006

BIZANGO - CAPÍTULO 6: UM MUNDO MELHOR

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 Márcio Massula Jr.

 
- Certo Francisco. Pode deixar que assumimos daqui.

O MM (meeting mensal) era uma forma da empresa obliterar distâncias hierárquicas e aproximar a alta administração do pessoal que trabalhava no chão-de-fábrica. O objetivo era deixar a diretoria a par dos problemas e soluções levantados pelos analistas e dar a chance da opinião de todos tivesse o mesmo peso. Contudo, com o tempo surgiram as versões revisionistas, e houve quem dissesse que tudo não passava de um mecanismo dissimulado de seleção natural, sendo que os analistas que não apresentassem sugestões MUITO boas num período determinado de tempo – nunca se chegava a um consenso sobre este ponto específico – estavam com os dias contados. No emprego, que fique bem claro.

Francisco chegou à reunião ligeiramente atrasado. Felizmente, o cafezinho preparado por Dona Esmeralda estava especialmente saboroso naquele dia, e os outros nem perceberam que o intervalo – na verdade um prólogo – do café excedeu o horário em alguns minutos. Alguns dos seus colegas notaram que ele não aparentava estar bem. Ele desconversou e deu início à apresentação. Estavam lá Carvalho, o Diretor de Manufatura, Firmo, o gerente da PESQUISAS AVANÇADAS, os gerentes dos setores de Engenharia de Processos, de Manufatura e de Desenvolvimento, mais alguns supervisores técnicos, e claro, os analistas. Francisco, aliás, era um deles. Mas, a despeito de sua timidez natural e da platéia intimidadora, a performance de Francisco foi brilhante. Através de planilhas e gráficos preparados criteriosamente, ele conseguiu provar para toda a cúpula da empresa que suas preocupações tinham fundamentos, que a eliminação de todos os potenciais imbróglios em que a empresa pudesse se meter por causa do chiadinho ultra-sônico justificaria o acréscimo de 0,24% no preço do componente (que, por sua vez, seria retransmitido pelas montadoras aos consumidores como algo na casa dos 2% sobre o preço do veículo), que isso poderia servir de munição ao departamento de marketing, sob a bandeira da responsabilidade social e que, como seres humanos, era obrigação deles tornar o mundo um lugar melhor.

A salva de palmas que se seguiu à ultima palavra de Francisco deu a tudo um ar de comercial veiculado em horário nobre. Ou, talvez, a cena final de um daqueles filmes bem bonitos. Tudo muito plástico, tudo muito legal. Tudo podendo acontecer em qualquer emaranhado quântico de possibilidades. Pena que só aconteceu na cabeça de Francisco.

Sim, ele chegou atrasado. E sim, após explicar em linhas gerais (bem gerais) de que se tratava aquela pilha de memorandos que trazia sob o braço, ele foi interrompido por Firmo, o gerente da PESQUISAS AVANÇADAS com:

- Certo Francisco. Pode deixar que assumimos daqui.

E a história acabou por aí. Francisco olhou em desespero para Ezequiel, o gerente da Engenharia de Processos, que além de chefe, fazia as vezes de conselheiro, mestre jedi e pai postiço. Mas ele não deu sinais de que ia intervir a favor dele, que, a propósito, nem teve oportunidade de sacar do bolso o pen-drive repleto de arquivos de referência, entre eles uma apresentação feita com tanto carinho que derreteria qualquer um dos corações ali presentes, pode apostar.

Na sequênciaa, a atenção de todos derivou para um problema mais urgente, que tinha a ver com uma visita importante e com a cor do piso da fábrica. Aquilo foi o golpe de misericórdia, e as lembranças do pinto-glacial invadiram-lhe a cabeça como um vagalhão. Ele pediu licença aos companheiros e se retirou da sala. Estava bebendo água quando Ezequiel lhe encontrou.

- Olha Chico, desculpe, mas eu não pude fazer nada. Esse pessoal da AVANÇADAS tem muita moral, você sabe.

- Pô, Seu Ezequiel, eu trabalhei nisso tanto tempo…

- É, eu sei.

- Eles nem quiseram me ouvir.

- Na verdade, o Firmo é que não quis ouvir.

- Como assim.

- Já sabe o procedimento.

- O senhor não disse nada.

- Isso. Existe um boato de que todos os setores de engenharia vão passar por um processo de reengenharia, entende?

Francisco não entendeu a piada.

- Estão dizendo que a PESQUISAS AVANÇADAS vai abocanhar tudo. Processos, Manufatura e Desenvolvimento.

- E?

- Ora! Quem você acha que vai mandar na gente?

- …

- Acho que você ainda não pegou a idéia, moleque. Você não está bem hoje, não é? Está com uma cor estranha. Meio… acinzentado. Tubo bem com você?

- Hã… mais ou menos. Não estou legal. Mas vai passar. Acho. Mas, qual é a idéia?

- A idéia é que o Firmo te cortou não por achar sua idéia dispensável, mas porque gostou dela.

- ?

- Bem, acredito que ele já esteja pensando como futuro chefe de todos nós, e na cabeça dele, esse tipo de trabalho não poderia ter passado despercebido de jeito nenhum, entende? Até o Carvalho ficou assustado com aquela papelada toda! Você causou boa impressão. Agora nós temos que pensar num jeito do Firmo não conseguir levar o crédito sozinho.

- Mas ele não devia levar crédito nenhum!

- Mas vai levar. E eu também. Nós estamos numa empresa e existe uma hierarquia a ser seguida, correto?

- Correto.

- Certo. Bem, agora que você entendeu, a gente tem que pensar numa maneira de botar na bunda desse cara.

Vinda da boca de Ezequiel, uma frase terminada com uma expressão chula era o mesmo que dizer “a casa vai cair”. Restava saber para qual lado.

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August 9, 2006

INDEX BIZANGO

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Bom, já habilitei os sending referers dessa porra de tudo quanto é jeito, mas hoje o blogsome está especialmente chato, e não permite que eu coloque um linkzinho categorizado ali do lado. Que seja. Para driblar essa situação, momentaneamente, criei a categoria INDEX e dela nós poderemos chegar à terra prometida. Por enquanto.

Se liga:

Index BIZANGO.

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August 3, 2006

BIZANGO - CAPÍTULO 5: BIZANGO COMICS

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Márcio Massula Jr.

 

ZUMBÔ era uma HQ estranha. Publicada pela Bizango Comics, uma editora supostamente localizada em um subúrbio de Carrefour, Haiti, era escrita por uma pessoa que assinava Papa Guede e desenhada por outra que atendia por Barão Samedi. Era uma revista independente, impressa numa gráfica secreta só conhecida pelos autores, que temiam represálias por parte de grupos ligados ao governo e ao vodu. Poucas pessoas liam, e menos ainda se davam ao trabalho de conjecturar qualquer coisa a respeito da sua origem. Em 1999, sabe-se lá como, um exemplar caiu nas mãos de um dos últimos soldados americanos que estavam deixando o país após a ocupação de 1994. Este soldado, mesmo sem entender uma palavra de crioulo, o idioma falado pela maioria haitiana, gostou do material e resolveu apresentá-lo a um primo dono de uma pequena editora nos EUA. O tal primo, que tinha uma queda por material non-sense, também ficou impressionado com a revista e tentou entrar em contato com os criadores. Após uma busca cinematográfica, houve um encontro num terreiro vodu em algum país na América Central (Cuba, dizem as más línguas). Os criadores não apareceram, enviando um extravagante advogado que fechou um acordo que, segundo ele, seria vantajoso para todos. A pequena editora americana seria responsável pela distribuição mundial da revista, seriam os licenciadores do título para todo o mundo, com exceção óbvia do Haiti. Uma das exigências dos autores era que as revistas, independente do idioma ou do país onde fossem vendidas, teriam que ser impressas na gráfica secreta haitiana. Embora tenha relutado um pouco, o editor aceitou o acordo, acreditando que aquilo poderia até favorecer o marketing do título, o que de fato aconteceu. Obviamente, boatos começaram a surgir, alguns dizendo que as tintas utilizadas na impressão das revistas continham sangue de vítimas de rituais de sacrifício humano, ou ainda extratos feitos com plantas desconhecidas e outros ingredientes exóticos, outros dizendo que todo o dinheiro proveniente da venda das revistas era utilizado na compra de armamentos de uma facção radical haitiana que planejava um golpe de estado. O título foi um sucesso estrondoso no mercado americano, normalmente avesso a material estrangeiro que tenha sido produzido fora do Japão. Foi questão de tempo até chegar ao Brasil.

Zumbô (Zumbot, no original) era uma consciência eletromagnética rediviva, uma inteligência artificial deletada injustamente, mas que por um acidente tecnológico, fora recuperada do campo magnético da terra - o verdadeiro paraíso, segundo os autores. O lugar para onde todas as almas, artificiais ou não, iam - e carregada num corpo robótico sucateado, reativado pelo clamor da vingança. Um verdadeiro épico da ficção especulativa, passeava por temas tão diversos como a vida após a morte e analogias referentes a geopolítica haitiana. Tudo regado por um verniz tecnológico contaminado com uma versão muito particular da ideologia vodu. Contrariando todas as regras do meio, a revista, publicada ininterruptamente havia mais de seis anos, não se esgotava. Zumbô já tinha sido enviado a outros planetas, outras dimensões, ao mundo subatômico, ao mundo submarino, tinha voltado ao campo eletromagnético, depois tivera uma breve excursão pelas versões futuristas de alguns países, incluindo o Brasil, transformara-se em ator, em político, teve a memória atacada por um vírus e passou meses (em tempo real) como um mendigo robótico. Depois desenvolvera certa predileção por cpus alheias, o que lhe custou uma temporada num presídio em algum lugar da Sibéria, e atualmente era um ativista pelos direitos dos animais (embora não exitasse em sacrificar alguns para realizar seus protocolos místicos).

Francisco, mesmo atrasado, parou para comprar a edição da revista que acompanhava religiosamente todos esses anos. Era uma das histórias mais aguardadas, AGORA OU NUNCA. Seu Joca já tinha lhe reservado um exemplar como de costume, e ao ver o cliente, sacou o produto com a destreza de um jornaleiro querendo impressionar.

- Tudo bem Seu Joca?

- Opa, tudo Francisco. E você, está bem?

- To meio…passado hoje. Deve ter sido algo que comi ontem.

- Bem, agora que você falou, dá pra perceber que você está meio abatido. Vai pro trabalho assim  mesmo? Por que não tira um dia de folga e vai pra casa ler sua revista sossegado?

- Não, Seu Joca, hoje é um dia muito importante pra mim. Não dá pra faltar. E por falar nisso tô atrasado. Valeu Seu Joca. A gente acerta no dia combinado, beleza?

- Tá bom, meu filho. Vai com Deus então. E boa sorte lá no seu trabalho.

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August 2, 2006

BIZANGO - CAPÍTULO 4: NEM DOEU

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Márcio Massula Jr.

Que Francisco se lembrasse, tinha ficado em estado de choque apenas uma vez, logo na infância, ao ter um pedaço do dedão arrancado por errar um chute quando jogava futebol descalço na rua onde morava. Não foi propriamente a dor, mas o sangue. O espaço delimitado como o campinho tinha marcas de sangue por toda parte, uma versão macabra daquelas marcações estratégicas que os técnicos faziam antigamente para orientar os jogadores.

Dessa vez não havia sangue.

Existia um buraco no meio das suas pernas, e o que costuma ocupar o lugar estava em sua mão esquerda, subvertendo a ordem natural das coisas. De qualquer uma delas. Era engraçado ter a piroca na mão, mas fora do lugar. Entre todas as associações feitas por sua mente no momento, consolo foi a que quase lhe arrancou um sorriso. Quase. Uma pessoa, um homem melhor dizendo, não deveria achar nenhuma graça numa situação desta. Devia sim ligar para o resgate (ou bombeiros, ou polícia, ou o que fosse) e rezar para que chegassem a tempo de salvá-lo antes que morresse de hemorragia. Mas era aí que morava o problema. Não havia sangue.

Francisco tocava-se, apalpando o cotoco que restara em sua virilha. Era possível ver, na medida do possível, seus corpos cavernosos, sua uretra, suas artérias e todos aqueles outros tubinhos que até pouco tempo atrás iam dar em algum lugar próximo à sua glande. Não havia sangue. A carne era de um vermelho escuro, plúmbeo, como se tivesse acabado de sair das mãos de um açougueiro.

Ele não conseguia se decidir. A parte racional de sua mente mandava que ligasse para algum dos números de emergência estampados na primeira página do catálogo telefônico, mas apenas cogitar todas as explicações que teria que dar sobre o que ocorrera antes do sinistro já era constrangedor demais. Dirigir-se a um hospital também não melhoraria muito a situação.

- Veja doutor, tive um pequeno contratempo, um pequeno acidente doméstico, se é que podemos dizer assim, mas segui todos os procedimentos e trouxe devidamente conservada a causa do problema.

O doutor abre o embrulho, examina o conteúdo, e extremamente clínico diz:

- Oh! Não tema, Sr. Francisco. O senhor veio até nós em tempo hábil. Acho que podemos fazer alguma coisa e vai ser questão de meses, poucos anos no máximo, até que as coisas voltem a ser como eram antes, me entende?

Não, definitivamente, não. Mas seu camarada de poucas e boas não poderia ficar ao relento.

Fracisco lembrou-se de vários casos que vira na televisão, onde vítimas de acidentes que resultaram em amputação conseguiram que o reimplante fosse feito por terem tomado alguns cuidados com as partes seccionadas, como, por exemplo, acondicioná-las em saquinhos com gelo. Ele foi à cozinha, abriu a geladeira, tirou a fôrma de gelo, pegou um saco plástico - tudo sem soltar o falo - e quando tentou iniciar os preparativos para a criogenia do próprio bigolin, constatou que teriam que se separar. Aquilo lhe provocou certa angústia, um aperto no coração, como se o fato de deixá-lo ali, à revelia em cima da pia de mármore barato, fosse de alguma maneira decretar o fim do relacionamento que já durava havia quase uma vida. Titubeou, mas vendo que não tinha alternativa, deixou o instrumento em cima da pia e pôs-se a trabalhar. Enquanto enchia o saco com gelo, pensava em todas aquelas pessoas que pagavam fortunas para que seus corpos fossem partidos em pedaços e congelados, na esperança de serem revividos num futuro melhor. Seria aquele o destino dele? Seria seu pinto o legado que deixaria para a humanidade?

Francisco percebeu que estava com fome, e não pôde deixar de notar a semelhança do próprio órgão com uma salsicha. Uma salsicha das mais esquisitas, como aquelas alemãs, é bem verdade, mas ainda sim uma salsicha. Ele pegou o antigo anexo e começou a apalpá-lo, aproximou-o do nariz e inspirou profundamente aquele aroma, que seu cérebro decodificou como bastante agradável. Suas papilas gustativas imploraram em coro para que ele tirasse um naco daquilo com os dentes, e para dar o toque final, sua boca fez o favor de encher-se de saliva, como num daqueles belos comerciais de produtos alimentícios.

Foi só quando seus dentes tocaram na carne fria é que Francisco se deu conta do que estava fazendo. A manhã já tinha sido estranha demais, e não precisava terminar sendo coroada com uma atitude daquelas. Ele lançou o moribundo dentro do saco plástico, lacrou-o e colocou o embrulho no congelador, a partir de agora um esquife doméstico. Francisco precisava se acalmar e aquele não era o melhor momento para tomar uma decisão relativa ao antigo companheiro. Aparentemente a separação dos dois não tinha apresentado nenhuma consequência funesta, como era de se esperar, e aquilo teve um efeito extremamente libertador sobre ele. O que tinha esperado até agora poderia esperar até mais tarde. Havia a reunião, havia pessoas esperando por ele e havia uma revolução a ser feita. Ele tinha que ir.

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August 1, 2006

BIZANGO - CAPÍTULO 3: PESQUISAS AVANÇADAS

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Márcio Massula Jr.

O curso de Engenharia da Administração era relativamente novo. Visava "preparar profissionais para o futuro, aguçando-lhes a visão e as faculdades mentais para que, de maneira inovadora, atuassem na resolução de problemas, ou melhor, na Engenharia de soluções, Administrando assim, de maneira vanguardista, o capital e os recursos humanos". Ou pelo menos era o que estava escrito no panfleto, que, diga-se de passagem, deve ter surtido efeito, visto que as primeiras turmas foram concorridíssimas. Nada a ver com os preços também "competitivos" da universidade, em média 80% mais barata que as outras. Francisco foi um dos primeiros a se inscrever, e por isso mesmo conseguiu se formar antes que o Ministério da Educação fechasse a escola, abolindo de uma vez por todas o tal curso de vanguarda. Um curso não reconhecido pelo MEC era uma mancha indelével no currículo, mas Francisco tratou de abastecer o seu com muitos cursos oblíquos, seminários, palestras, pós-graduações relâmpago e MBAs tropicais, criando assim uma verdadeira cortina de fumaça letiva ao redor das suas qualificações superiores, artifício muito eficiente na hora de confundir entrevistadores.

De qualquer maneira, após percorrer boa parte da estrada trilhada por todos os jovens sonhadores recém-formados, ele conseguiu um bom emprego numa empresa multinacional, o que, no frigir dos ovos, não lhe deixava menos tenso, já que sua farsa poderia vir à tona a qualquer momento.

E pra piorar tudo, aquele seria o dia da reunião, o dia que daria início à ascensão meteórica de Francisco - se tudo desse certo.

A Backspace Componentes Automotivos era pioneira no seu ramo. Fabricava uma gama imensa daqueles componentes obscuros sobre os quais mesmo os mecânicos mais experientes pouco sabem. Insonorizantes laterais, suportes refratários, parafusos de ajuste helicoidais bipartidos, coxins sazonais, etc. A Backspace também mantinha um curioso recorde, que foi tema de revistas corporativas várias vezes: havia mais de dois anos que nenhuma sugestão do Programa de Geração de Idéias era aprovada. Como todos os outros milhares de programas deste tipo, o da Backspace promovia a premiação dos funcionários em dinheiro, em valores que variavam conforme a economia proporcionada pela sugestão. Mas o nível de excelência era tão alto que praticamente todas as boas possibilidades haviam se esgotado. Era uma empresa perfeita, tanto em termos de qualidade do produto como do desempenho.

A Backspace era tão metódica e obcecada com a performance de seus produtos que criou uma seção, a PESQUISAS AVANÇADAS, apenas para colher dados precisos a respeito do impacto dos seus produtos nos usuários finais. Não era estranho encontrar relatórios que falavam sobre a "os efeitos da deflexão de radiação UV solar nos puxadores dos isqueiros, em dias ensolarados, no globo ocular humano", ou ainda "parâmetros otimizados para escolha de texturas conforme amostragem realizada no baixo Jequitinhonha". Francisco, embora não trabalhasse lá, tinha certo apreço pelo trabalho daqueles homens e procurava se manter informado sobre os rumos e as novas descobertas da PESQUISAS AVANÇADAS. E um daqueles documentos lhe chamou a atenção certo dia. Falava sobre um ruído provocado por uma guarnição de plástico que era montada entre o acoplamento da transmissão de certos veículos populares. O tal ruído, provocado pelo atrito entre o plástico e os metais, era imperceptível ao ouvido humano, contudo transformava-se num verdadeiro tormento quando era ouvido pelos cães ou pelos infelizes portadores da síndrome de Lynn-Miller.

Essa doença, que durante muitos anos foi confundida com o mal de Frank-Varley e depois com a DPAC, era uma típica cria do século XXI. Não havia estudos sólidos até aquele momento - sendo que a doença em si tinha sido descoberta poucos anos atrás - mas as principais correntes apregoavam que aquela era apenas a ponta do iceberg, apenas a primeira de muitas doenças estranhas surgidas em tempos de poluição eletromagnética, efeito estufa, excesso de informação, comida gordurosa, abduções, sexo seguro e cerveja sem álcool. Os portadores dessa síndrome - em sua grande maioria jovens na casa dos vinte - nasciam com o ouvido interno hipertrofiado, podendo ouvir sons emitidos numa frequência muito maior do que os usuais 20 Khz captados por um ouvido humano normal, o que significava dizer que sua audição poderia chegar perto da de um cão. O problema era que o cortéx auditivo dessas pessoas não vinha preparado com os milhões de receptores neurais extras que seriam necessários para que essa nova gama de sons pudesse ser interpretada de maneira satisfatória. Ruídos em frequência ultra-sônica, para essas pessoas, era o mesmo que, nas palavras de um portador, "ter a cabeça atravessada por uma agulha de tricô".

Até o momento, não tinha chegado à PESQUISAS AVANÇADAS nenhuma notícia de reclamações de clientes (tanto as montadoras para as quais a Backspace fornecia quanto os clientes finais) referentes a tal guarnição. Mas existia um estudo que afirmava que a população de portadores da Lynn-Miller duplicaria num espaço de cinco anos, e as projeções mais otimistas mostravam um número seis vezes maior nos dez anos subsequentes. Foram aquelas histórias que comoveram Francisco, e seria uma pequena mas significativa melhoria na qualidade de vida daquelas pessoas o seu estandarte, o núcleo do projeto no qual ficaria imerso nos próximos seis meses da sua vida. E se alguém lhe dissesse que a Lynn-Miller ocorria em apenas uma entre quinze milhões de pessoas, ele delicadamente diria "foda-se". Mas não com essas palavras.

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