txt - ficção fast food

December 3, 2008

ADSENSELESS - Parte 5

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4)

 

Macanudo notou que, ultimamente, Júnior já não demonstrava sua habitual paciência. Ou melhor, não demonstrava mais nada, uma vez que não atendia mais as ligações de Macanudo, que começou a desconfiar que insistir na rescisão de seu contrato com a Plex não tinha sido uma jogada muito inteligente.

Nas primeiras vezes, Junior simplesmente tentava dissuadir Macanudo, dizendo que tudo iria passar e que o contrato era por tempo limitado. Bastava que o primeiro esperasse. Mas, para Macanudo, esperar estava fora de cogitação. Ele estava perdendo a mulher que amava, e aquilo poderia deixar sequelas emocionais para o resto da vida.

Quando Macanudo ficou muito incisivo, Junior passou a lembrá-lo de várias cláusulas obscuras do contrato, sendo que nas últimas vezes ele chegou mesmo a perder a compostura, algo incomum numa pessoa treinada para lidar com o público.

Um dia Macanudo recebe uma ligação. É um terapeuta, contratado pela Plex. Ele quer conversar com Macanudo para checar suas condições psicológicas. Macanudo vê uma oportunidade naquilo e capricha. Não que houvesse muita necessidade. A tensão das últimas semanas devastou-o espiritualmente. As sessões, sempre na casa de Macanudo, eram compostas por longos bate-papos, onde o psicólogo se limitava a pontuar a conversa assentindo com a cabeça e tomando notas em seu netbook. Em alguns momentos, o psicólogo parecia mais interessando nos anúncios que a Faixa estava gerando do que na conversa em si.

Alguns dias depois, as sessões terminaram. Macanudo aguardava ansioso pela resposta. Descobriu que teria que passar pelas mãos de outros especialistas, que analisariam outros aspectos do seu quadro clínico.

Então veio a resposta. Ele estava apto a dar continuidade nas suas funções para a Googolplex. Aquilo era apenas tensão, e poderia ser tratada de outras maneiras. Exercícios, e, porque não, uma nova namorada.

Macanudo não concordava, mas quem dizia aquilo eram os médicos, e os médicos eram infalíveis. Só lhe restava derivar pela cidade, trocando sorrisos falsos com pessoas que não estavam mais tão interessadas no que se passava em sua cabeça.

Macanudo não aproveitou o hype. Não tirou vantagem do momento, e agora ele percebia isso vendo que o número de ocorrências que remetiam ao nome dele ou à Faixa de Anúncios caia vertiginosamente. Logo era seria passado, notícia velha, e o peso da sua decisão se tornaria muito maior. Ele falou a respeito disso com Chico, que, inexplicavelmente, não deu muita atenção ao assunto. Logo ele, a primeira, talvez segunda pessoa na fila dos que achincalhariam Macanudo pelo resto da vida quando ele finalmente se desse por vencido. Na verdade, a última conversa que tiveram foi sobre a Faixa. Chico queria saber se os anúncios contextualizados exibiriam conteúdo pornográfico quando Macanudo estivesse tendo relações com Ândrêa - ou com qualquer outra pessoa, embora a segunda opção estivesse muito longe de ser verdade. Macanudo ficou sem saber o que responder, mas disse ao amigo que se lembrava de algo sobre um filtro de conteúdo. Não sabia exatamente como funcionava.

Um dia ele entra em uma loja de sapatos e fica vendo alguns modelos que talvez pudessem agradar Ândrêa. Existia a chance de que um presente normal, vindo de um cara que queria voltar ao normal, fizesse com que ela reconsiderasse tudo. Ele se aproxima de uma vendedora. Ela dá um sorriso, daqueles que as pessoas costumam soltar quando estão frente à frente com celebridades em declínio vertiginoso. Os alemães têm uma palavra para isso. Schadenfreude.

- Oi.

- Olá! Precisa de ajuda, seu Macanudo?

Macanudo já tinha se acostumado com desconhecidos chamando-o pelo nome.

- Preciso sim. Quanto é aquele sapado ali?

A moça pensa em consultar o preço, mas vira-se para ele, sem saber direito o que fazer. Macanudo percebe aquilo. Acha que ela está constrangida.

- Algum problema?

- Olha, seu Macanudo… isso é alguma pegadinha?

- Pegadinha?

- É.

Macanudo não sabe o que dizer. A moça certifica-se que não há ninguém mais ouvindo os dois. Então volta à conversa.

- Isso mesmo. Seu Macanudo, eu sou nova aqui, sabe? Não queria queimar meu filme. Preciso desse emprego. Diz que não é uma pegadinha.

- Mas não é mesmo! Moça, tá tudo bem com você?

- Tá sim. É que sua testa tá mostrando o anúncio de um concorrente. E lá o preço tá menor.

Macanudo pára em frente a uma das vitrines e tenta enxergar o anúncio. Devido ao reflexo, não consegue. Tem que se contentar com a palavra da vendedora, que não teria motivos para mentir. Teria?

Ele se desculpa e sai apressado da loja. A moça, mais confiante, ainda tenta finalizar a venda. Macanudo não dá ouvidos. A situação não foi especialmente constrangedora, mas foi a gota d’água.

***

Dybbuk Júnior era o executivo que toda empresa sonhava em contratar. Possuía um currículo impecável, um sorriso radiante, quatro por cento de gordura no corpo e a total incapacidade de sentir remorso pelo que quer que fosse.

O acrônimo que definia seu cargo tinha oito letras, sendo seis delas consoantes, o que assemelhava tudo a um palavrão do leste europeu. Por isso as pessoas costumavam referir-se a ele apenas como "O Diretor".

Quando sua secretária lhe comunica pelo interfone que Macanudo Geist estava ameaçando fazer um escândalo em sua ante-sala caso não fosse atendido, ele, no mesmo tom monocórdio que usava quando pedia um café ou quando, por esporte, obliterava a auto-estima de um funcionário, pede para que ela deixe-o entrar. Enquanto ouve os passos se aproximando da porta construída com uma madeira ilegal em onze países, ele respira fundo, pressiona o topo da pirâmide nasal como polegar e o indicador e só consegue pensar em uma coisa: puta que o pariu!

(continua)

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September 24, 2008

ADSENSELESS - Parte 4

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1, Parte 2 e Parte 3)

Todos se esqueceram de avisar a Macanudo que ter a cabeça bombardeada por microondas o dia inteiro faria ela esquentar. E muito. Quando ele estava na Googolplex, isso não acontecia. Mas a Faixa de Anúncios também não ficava ligada o dia inteiro.

O resultado disso era uma película de suor, fina, mas perpétua, ao redor do seu rosto. A solução - paliativa - foi providenciar um estoque de toalhinhas de papel e deixá-las sempre à mão.

Devido à temperatura, a cabeça doía. E a dor de cabeça incessante mexia com seu humor.

Os rendimentos não estavam sendo fantásticos, devido, em parte, ao próprio estado melancólico no qual ele se encontrava. Ele não saía muito, e quando saía, não era um dos interlocutores mais simpáticos da face da terra. E, como diz o ditado, se não sabe sorrir, não abra uma loja. Macanudo tinha se tornado uma celebridade menor na cidade. As pessoas ainda vinham em sua direção, pediam para tirar fotos, experimentar a faixa e todas essas coisas, mas ele não fazia a mínima questão de agradar os clientes, atividade para a qual estava sendo pago, aliás. Ele precisava resolver a questão com Ândrêa.

Ela, por sua vez, continuava tocando sua vidinha trabalho-casa-trabalho. Ândrêa era designer de superfícies queratinosas, uma profissão que já teve um nome menor e um salário maior. Vez ou outra ouvia alguma piadinha de uma das colegas de salão, mas o mau-humor com que recebia os gracejos deixou claro às demais que aquele assunto não tinha nenhuma graça. Pelo menos para ela.

Macanudo tinha passado dos limites. Ela não sabia como tratar aquilo. Realmente não sabia. Quando se conheceram, ela até via um certo charme na obsessão de Macanudo por tecnologia. Um quê de excentricidade que ela não tinha encontrado em outros relacionamentos. Macanudo nunca tinha lhe dado uma jóia ou um buquê de flores. Ao invés disso, nas datas comemorativas, era normal ela ser presenteada com alguma traquitana eletrônica que tinha acabado de chegar nas prateleiras de Xangai, Seul ou Nova Deli e que ninguém além dele mesmo sabia para que servia. No começo era bonito. Romântico. Diferente. Um tempero. Mas aquele implante na testa tinha ido além de todos os limites. Ela precisava de um tempo e tentou explicar algumas vezes à Macanudo, que continuava se fazendo de desentendido.

Ela acabou com a última cliente da tarde. Teria algum tempo livre, que gastava, invariavelmente, jogando conversa fora com as outras colegas que ainda estavam trabalhando. Ela sentou-se ao lado da porta. Aproveitou para observar o movimento na rua, enquanto o assunto gravita ao redor da websérie mais nova. Algo a ver com baratas inteligentes, mudança de sexo e sorvete. Ândrêa até se entretia com esse tipo de história, mas sua cabeça estava em outro lugar. Era um belo dia e ela tinha vontade de sair do trabalho e dar uma caminhada. Talvez pegar um trem-bala e ir até o estado vizinho, em alguma estância turística. Respirar um pouco de ar puro, comprar algumas bugigangas, esfregar os pés num gramado, essas coisas.

Então ela vê Macanudo parado em frente à porta, como uma estátua. Ele lhe mostra seu smartphone novo. Depois aponta para a maçaneta e gesticula com o indicador, pedindo permissão para entrar. Como um vampiro. As órbitas de Ândrêa vão de encontro ao teto. Ela inspira e expira. Considera ignorá-lo, mas muda de idéia.

- E aí, Morena?

Mesmo que Ândrêa tivesse um biotipo praticamente eslavo, Macanudo chamava-a assim. No começo, ela pensava que ele queria lhe imputar alguma característica que ela provavelmente não tinha. Depois de algumas sessões de interrogatório, se convenceu da explicação do noivo, que afirmou te escolhido a palavra somente porque foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça quando combinaram de inventar apelidos carinhosos um para o outro.

O sorriso de Macanudo tem algo de sinistro. Ele aparenta estar mais abatido. E há a camada de suor em sua testa.

Ândrêa pensa em elaborar verbalmente o que estava sentindo, mas consegue resumir tudo que estava represando dentro de si numa única palavra, dita, evidentemente, com a linguagem corporal exata.

- Fala…

Macanudo estende seu smartphone em frente ao rosto de Ândrêa. Todas as mulheres dentro do salão passam, dissimuladamente, a prestar atenção na conversa.

- Não sabe o que é isso?

Ela não faz menção de ler a tela.

- Não e nem sei se quero saber. É mais alguma novidade inclusa no maravilhoso contrato que você fez com a Plex?

- Não, Morena! Olha direito!

O Doktor Fritz definia seu estilo como Espiricore. Beta Cândido era o quinto de uma dinastia de vocalistas que tinham em comum os poderes mediúnicos e as vidas curtas. Apesar da reprovação de uma parte significativa da população, o sucesso da banda crescia dia após dia. Beta e os outros antes dele afirmavam que psicografavam as letras das músicas e recebiam espíritos ilustres, desconhecidos e até dos próprios antecessores durante suas performances.

Ver uma apresentação deles era uma experiência única. Eles nunca eram iguais. Nunca. As músicas sempre eram interrompidas pela chegada das entidades, que faziam suas próprias intervenções, fossem homens santos orientais abençoando a platéia, fossem físicos discursando sobre teorias obscuras, fossem donas de casa falando sobre programas de televisão transmitidos cinquenta anos antes. Tudo, nas maioria das vezes, dito, com pronúncia cristalina, em outros idiomas. Independente do que as entidades fizessem (ou não), o público ficava extasiado, procurando sentido naquilo tudo meses depois.

Se tudo era verdade ou apenas um golpe de marketing muito bem perpetrado, ninguém saberia dizer, mas por essas e por outras as entradas para os shows do Doktor Fritz era disputadíssimas, esgotando-se meses antes dos eventos.

Na tela do smartphone de Macanudo estava a mensagem confirmando a compra de duas entradas para o show mais recente deles.

- Nossa, como você conseguiu?

Macanudo exalava auto-confiança.

- Até que não foi tão difícil assim. Claro, tive que mexer meus pauzinhos, mas agora eu sou uma celebridade, cê esqueceu?

O último comentário teve o efeito de uma bateria anti-aérea alvejando a consciência de Ândrêa, que reassume a expressão carrancuda com a qual havia recebido o ex-noivo.

- Pior é que tinha. E tava melhor assim, viu? Olha, Maca, realmente não sei…

Ela cruza os braços e olha para o lado, distante.

- Me dá uma chance, vai - Macanudo suplica.

- Acho que não. A gente já conversou bastante sobre isso. Você fez a sua escolha, e eu fiz a minha. Dá para entender?

- Mas eu já te expliquei! Eu só fiz isso pra gente ter grana para casar logo!

- Maca, o que há de errado em trabalhar para ganhar dinheiro, como uma pessoa normal? Ia demorar? Talvez. Mas a gente ia conseguir. Você não precisava ter feito isso. E podia ter me avisado…

- Ândrêa, cê sabe que eu te amo.

É possível ver que os olhos de Ândrêa ficam molhados. Macanudo fica esperando que a primeira lágrima escorra, para que possa puxar sua ex-noiva para si e dar-lhe um beijo sôfrego, asfixiante, como nas comédias românticas que costumavam assistir. Tudo ia terminar bem.

Ândrêa dá uma fungada, esfrega as mãos nos olhos e diz:

- Tenho que trabalhar, tá?

- Mas…

Ela apenas balança a cabeça, negativamente, esperando que Macanudo se toque e dê o fora dali.

Ele, por sua vez, não consegue pensar em nada melhor para dizer, então:

- Pô, Morena, sabe quanto custaram essas entradas?

- Quase um mês do meu salário.

- Ué! Como você sabe que elas já tão valendo isso?

- Está escrito na sua testa. Tchau…

Ela fecha a porta, vira as costas, e volta ao trabalho.

Ele se segura, mas as lágrimas que deveriam ter escorrido dos olhos da ex-noiva acabam saindo dos seus. Ândrêa desaparece dentro do salão. Algumas das meninas continuam observando-no, de soslaio, mas nenhuma intervém a seu favor. Ninguém vem em seu socorro. Ficar parado ali não vai adiantar nada. Aquela não era a resposta que Macanudo esperava, mas ele tinha um plano B.

(continua)

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July 21, 2008

ADSENSELESS - Parte 3

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1 e Parte 2)

O naco dentro da boca de Chico tem calorias suficientes para sustentar uma criança por uma semana. Mesmo assim, a maçaroca de pão, carne sintética, legumes transgênicos e condimentos desaparece garganta abaixo antes que suas papilas gustativas tenham notícia do sabor daquilo tudo. Ao que parece, para Chico mastigar a comida é apenas uma formalidade, que ele não faz muita questão de cumprir.

Apesar de já se terem passado alguns dias, Macanudo ainda chama atenção. Vez ou outra algum dos clientes da lanchonete pára e pergunta: “Ei, você não é aquele cara da Googolplex?”. Nas primeiras vezes, ele respondia com convicção, fazia valer o treinamento, mas esse não era um momento. Tratava de um assunto importante, e quando uma menina pediu para tirar uma foto ao seu lado, o máximo que consegui produzir foi um esgar com o cantos dos lábios. Um arremedo de sorriso. Ele está preocupado.

- Chico, ela disse que não quer falar comigo!

Chico ainda está concentrado em sua comida. Ele vasculha o interior do sanduíche com a ponta do dedo indicador, como se procurasse encontrar algo que não deveria estar lá.

- Cara, ela abriu uma comunidade no TRUKO, sabia? “Eu odeio a Googolplex!”. E eu, como fico nessa, cara?

O indicador de Chico continua a prospectar o sanduíche.

- Maca, não acredito que você fez isso. Sério mesmo. Seu pai era um lóki, sua avô também, e, cá pra nós, sempre te achei meio esquisitinho. Mas gosto de você assim mesmo, cê sabe, né? Eu até me empolguei quando um carinha lá da Plex comentou sobre o programa comigo, mas nunca ia imaginar que meu melhor amigo ia se meter nessa. Não mesmo.

Chico tira uma fatia de picles e coloca sobre a mesa. Em seguida abocanha mais uma parte do sanduíche.

- Ué! Mas, de todo mundo, você é o que mais deveria estar feliz com o que eu fiz!

- Maca, eu sou um Tecnólogo, não um tecnófilo pervertido como você. E feliz não é exatamente a palavra. Curioso, talvez. Mas uma coisa é o fato de eu gostar de tecnologia. Outra é o fato de gostar de você estar servindo de cobaia pra testar tecnologia, percebe?

- Ok. Mas isso ainda não resolve meu problema. Eu fiz isso para me casar com ela. E ela nem quer me ver!

- Bom, talvez as coisas estivessem melhores se você tivesse avisado que ia implantar um dispositivo de publicidade semântica na testa ao invés de ter dito que ia pescar. E comigo!

- Foi mal, cara. Mas eu tinha que fazer isso. Se dissesse que ia participar do programa, ela ia protestar, com certeza.

- E você achou que aparecer com a testa cintilando preços de panelas e cursos de pós-graduação ia mudar a opinião dela, né?

- Achei que ela fosse entender…

- Não entendeu.

- Pois é…

- Isso aí é por tempo limitado, né?

- É.

- Quanto?

- Não posso comentar. Está no contrato.

- Presumo que seja muito tempo, então…

- Em virtude das circunstâncias, acho que agora é. Temos que resolver isso, Chico?

- Você e a Ândrêa, né?

- Não, cara! Eu e você!

- Fala baixo, viado! Tá querendo me comprometer? E que história é essa de eu e você?

- Ué? Você não vai me ajudar a resolver essa parada?

- Eu?

- Pô, Chico! Você é meu melhor amigo. Pra quem eu posso pedir ajuda?

- Pro seu bom-senso, talvez?

- Tá bom. Pode pisar em cima. Mas pense aí num jeito de me dar uma força, vai.

Uma jovem com feições asiáticas, na casa dos vinte e poucos, senta-se ao lado de Macanudo, sem ao menos ter a preocupação de se apresentar. Ela tem os cabelos pintados num tom de vermelho que é uma declaração de guerra à visão de qualquer pessoa dentro do recinto. Suas roupas são volumosas, e de cores tão berrantes quanto a do cabelo. Ela parece saída de algum anime. Macanudo fica surpreso, enquanto Chico tenta divisar alguma das curvas do seu corpo, bem escondidas sobre toda aquela quantidade de tecido.

Do outro lado do restaurante, outra moça, com roupas igualmente exóticas, bate uma sequência de fotos com um smartphone, enquanto a menina dos cabelos vermelhos estica o indicador e o dedo-médio em V. Antes que Macanudo possa formular algum protesto, ela agradece, se levanta, cruza o restaurante, pega o celular que estava na mão de uma amiga, confere as fotos, dá umas risadinhas, pressiona algumas teclas e ambas saem pela porta.

Chico começa a rir.

- Se acostume, cara. Agora você é uma celebridade.

- Pior é que não vou receber nenhum centavo por essa publicidade.

As risadas de Chico se transformam em gargalhadas.

- Maca, só você mesmo pra pensar numa coisa dessas. Cê é um figura mesmo.

- Não sei porque, mas algo me diz que cometi uma burrada ao entrar nessa.

- Só agora você percebeu?

- Valeu mesmo, Chico.

Chico ameaça fazer mais um comentário espirituoso, mas detém a fala. Ele olha fixamente para Macanudo, que estranha a fixação súbita do amigo.

- Maca, essa parada tá gravando a nossa conversa?

- Sim.

- E tá filmando meu rosto?

- Também.

- Ou seja, como se eles já não tivessem bastante informação, a Plex está coletando mais dados a meu respeito. E sem a minha permissão.

Macanudo assume um ar grave.

- Não! Nada disso! Esses dados são coletados apenas para filtrar os anúncios. Eles nunca vão usar isso. Os dados são apagados após 30 segundos após o fim da conversa. Está no manul.

Chico se aproxima mais. Chama Macanudo com o indicador. Olha para os lados e certifica-se que ninguém está prestando atenção.

- Isso é o que eles querem que você pense - diz, num sussurro.

- Sério mesmo?

Chico dá um tapa de leve no queixo de Macanudo, que não esperava por essa reação do amigo e reage de maneira desproporcional, atirando-se para trás e derrubando seu copo de refrigerante.

- Claro que não, seu mané! Tava parafraseando um filme das antigas que gosto muito. Cê não sabe o quanto eu esperei pra poder dizer isso.

- Olha a bagunça que você fez.

- Que você fez, Maca. Mas, peraí…

Chico levanta-se e segura a cabeça do amigo com as duas mãos. Seu olhar é severo. Não parece estar brincando agora. Analisa a tarja por alguns segundos. Resolve falar, por fim.

- Caralho, olhas os preços disso!

(continua)

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June 1, 2008

OPEN THE SOURCE

É fato que as pessoas - pelo menos as que lêem - tem certo interesse, algumas até fascínio, pelo que se convencionou chamar de “processo criativo” dos escritores. Mas estávamos falando de escritores. O que dizer dos beletristas?

Embora eu ache que exista pouca gente querendo saber em que sentido giram as engrenagens na minha cachola, acho que a tentativa de verbalizar o que se passa durante o processo de concepção de uma narrativa me ajuda a colocar as coisas em perspectiva. A olhar de longe e pensar no que pode ser melhorado no futuro. Mas fiquem tranquilos. Não vou tentar explicar a piada.

Pode parecer meio prematura tentar falar das entranhas de um conto - ADSENSELESS - que ainda está em sua segunda parte. Parte esta, aliás, que foi publicada com um atraso de pelo menos três meses (uma vez que estabeleci uma deadline pessoal de trinta dias entre um capítulo e outro).

Lá em cima, utilizei a palavra beletrista sem falsa modéstia ou intenção de ser engraçado. Embora a palavra tenha uma carga pejorativa indelével a essa altura do campeonato, beletrismo, segundo o Houaiss, também pode significar, entre outras coisas, “atividade literária diletante ou puramente recreativa”. Acho que é o meu caso.

Eu, literalmente, escrevo quando dá. Embora esteja numa relação quase simbiótica com um laptop, um smartphone com tecladinho QWERTY e um bloquinho, a escrita - pelo menos a de ficção, essa que me dá prazer - ocorre aos poucos, em doses homeopáticas. Acredito que parte disso se deva ao fato de eu passar uma boa parte do dia macetando as teclinhas de plástico do Dellzão. Não ter uma rotina - meus horários de trabalho costumam variar bastante - também pesa. Às vezes, contudo, escrevo no trabalho. Me considero, aliás, o Alt + Tab mais rápido do Oeste.

A idéia de ADSENSELESS veio quando eu estudava mais sobre o Google Adsense. Comecei a tomar notas para o que seria um continho, quase uma anedota, sobre a publicidade nesse começo de século XXI. Quem surgiu primeiro foi, claro, Macanudo.

Quando publiquei a primeira parte, a segunda já estava praticamente escrita. Só que não gostei do texto e resolvi deixá-lo cozinhando. Enquanto isso, no mundo real, muita coisa aconteceu, e acabei deixando o texto meio de lado. Voltei à segunda parte dias atrás. Mexi aqui, ali, e, embora tenha achado o resultado satisfatório, penso que talvez ele não tenha transmitido todas as idéias que planejei. Paciência.

O “processo” varia. Neste caso, para cada parte do conto, crio um arquivo separado. Fica mais fácil manipular o texto. Também criei um outro arquivo, onde despejo tudo quanto é tipo de informação que julgo interessante: links, trechos de diálogos, notas e por aí vai. Nesse mesmo arquivo há pequenas bios dos personagens que apareceram e ainda vão aparecer, assim como um roteirinho dos 6 capítulos originalmente planejados.

O capítulo 3 nem foi iniciado ainda. Com exceção de quarenta e sete palavras no arquivo de notas que descrevem em linhas bem gerais o que vai acontecer, não há mais nada.

A parte 4, por sua vez, já tem pouco mais de 100 palavras, além daquelas no arquivo de notas.

A parte 5, vejam vocês, já passou das 1000, e provavelmente terá que ser dividida, o que aumentará o número de partes para um cabalístico 7.

E, por fim, a parte 6 (que provavelmente será a 7, note) também não existe, a não ser por uma frase que define o que será o clímax da história.

Não considero ADSENSELESS ficção-científica, propriamente dita. Não que não goste do gênero, muito pelo contrário. Mas acho que para chamar minha ficção de científica, terei que comer mais um pouco de feijão. Sim, há technobubble, infodump e essas coisas, mas é mais uma maneira de extravasar minha tecnofilice do que qualquer outra coisa. O que me interessa na ficção, de qualquer gênero, são as possibilidades.

Ok, eu sei que o Ellis já fazia isso há dez anos, mas mesmo assim, vamos lá: ouça, no talo, Release, do disco A Fine Day To Exit, da banda britânica Anathema. Leia Kafka à beira-mar, de Haruki Murakami, que eu ainda não finalizei, mas, até o momento, compensa cada página.

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May 20, 2008

ADSENSELESS - Parte 2

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1)

Idosos são, em sua grande maioria, neoludditas.

Mas sempre existem as exceções à regra. E, neste caso, a exceção era bem simpática, contudo, devido a sua estatura, obrigava Macanudo a se curvar num ângulo que dentro em breve faria com que caísse e cravasse a cabeça no concreto.

***

Você vai chamar atenção por onde for. Esse é o objetivo. Nunca desvie os olhos de quem estiver olhando para você. Seja simpático. Sorria. Cative as pessoas.

Macanudo não se lembrava em qual momento do treinamento este tópico tinha vindo à tona, mas as palavras do instrutor ribombavam em seu crânio exatamente como no dia em que ele as ouviu.

Após uma semana entre os odores anódinos do Centro de Recuperação da Googolplex, ter as narinas incendiadas pela mistura quase alquímica de sudorese e gás carbônico do mundo real era como tomar um murro no meio do rosto. E foi assim que Macanudo iniciou sua jornada pelo centro da cidade. Desorientado, com medo e sentindo dores em lugares bem estranhos.

Era estranho ser o centro das atenções. Ele tentava, na medida em que podia, dar um sorriso bem grande, daqueles capazes de buscar a reciprocidade dos cafundós das personalidades apressadas dos transeuntes. Mesmo assim, a maioria das pessoas simplesmente virava o rosto. O desejo de chegar logo em casa aumentava a cada pedestre que passava direto – o que não era bom para os negócios – até que a exceção estacou-se em sua frente, tombou a cabeça um pouco de lado num gesto de curiosidade, e deixou escapar o mais bonito – e único – sorriso que Macanudo vira naquela manhã.

A exceção, uma senhora que já tinha passado há muito dos sessenta, fez um pequeno sinal com o indicador minúsculo, na direção da testa de Macanudo.

- O que é isto?

Era a deixa. E Macanudo praticamente vomitou o texto que havia decorado durante o curso de preparação na Googolplex.

***

- Olha só os preços disso!

- Disso o quê?

- Meu Deus do céu!

A mulher estende o dedo em direção à tarja de Macanudo, que, sem saber exatamente o que fazer, permanece parado. Ela detém a falange a poucos centímetros da testa de Macanudo.

- Posso?

- Bem…acho que pode sim.

- Você pode se abaixar só um pouco?

Macanudo não sabe o que pensar. Por que a mulher quer tocar sua testa? Ele até entende que há uma curiosidade natural pela novidade, e até esperava esse comportamento de uma criança, mas, bem, isso era estranho. A velha deslizava os dedos por sua testa, talvez experimentando a textura. Inclinado daquela maneira, Macanudo, para amenizar um pouco o constrangimento, fixou os olhos nos sapatos da mulher, duas pecinhas muito delicadas que já haviam saído de moda havia um bom tempo, e, mesmo assim, continuavam impecavelmente bonitos. A mulher dava pequenos toques em sua testa, como se estivesse manipulando um dispositivo touch-screen. E, até onde Macanudo sabia, a tarja não era touch-screen.

- Você não tem um teclado?

- Como?

- Um teclado virtual.

- Hã…presumo que não, senhora.

- Ah!

- O quê?

- Tem sim!

- Tenho?

- Tem. Ele apareceu aqui. Espere só um pouco.

E seguiu-se mais uma sequência de toques na testa. Às vezes a mulher parecia esquecer que atrás daquela tela havia uma cabeça e pressionava tão forte que Macanudo ficava a ponto de perder o equilíbrio. Depois ele se preocuparia com a funcionalidade que desconhecia. O que importava agora era agradar a cliente. Momentos depois, a mulher se deu por satisfeita.

- Obrigado.

- A senhora, hããã…encontrou todos os dados que procurava?

- Bem, na verdade eu estava verificando meus e-mails. Esqueci meu smartphone no escritório. Sabe como é…

- A senhora viu seus emails na minha testa?

- Vi sim. Você não sabia que fazia isso?

- Ah, claro! Sabia sim. É que, bem, os usuários não costumam dar muita bola para esse recurso, sabe? - Macanudo tentou disfarçar com um sorrisinho cambeta.

- Certo, certo. Muito obrigado, então. Tchau!

O mulher dá alguns passos e depois vira-se.

- Gostei da novidade!

Esse episódio foi como uma injeção de ânimo. Macanudo passou a sentir-se mais seguro, o que, de certa forma, passou a mesmerizar as pessoas. No restante do caminho - que incluiu uma viagem de metrô - ele seguiu à risca os procedimentos indicados no manual. As pessoas olhavam umas para as outras, paravam e sempre havia aquele mais extrovertido, que acabava tomando a frente da situação e perguntava:

- Mas que porra é essa na sua testa?

***

Obviamente, a primeira coisa que Macanudo fez ao chegar em casa foi ver sua página pessoal na Googolplex para checar quanto tinham lhe rendido as conversas que tivera rua afora. Os créditos ainda não constavam, mas ele sabia que poderia haver um período de vinte e quatro horas até que o saldo do Vetor estivesse devidamente atualizado. Estava no manual. Então ele se lembrou das funcionalidades que desconhecia e ligou para o número que lhe deram.

- Centro de Atendimento ao Vetor. Em que posso ajudá-lo, senhor…Macanudo?

- Como você sabe que sou eu?

- Bom, nós somos o Centro de Atendimento ao Vetor. Este número só é dado aos Vetores. E o senhor é único Vetor, sabe?

- Ahhhh…

- Em que posso ajudá-lo?

- Bom, é meio constrangedor falar isso, mas, bem, me aconteceu uma coisa meio estranha hoje na rua, em minha primeira empreitada, e, bem, vamos lá: eu tenho um browser na minha tarja?

- Tem sim senhor. Assim como um pacote de escritório completo e todo o restante do nosso portfólio. Tudo acessado pelo seu browser, na verdade.

- E porque ninguém me avisou disso?

- É que essa tecnologia foi desenvolvida após sua alta do nosso Centro de Recuperação.

- Mas eu saí de lá faz três horas!

Silêncio no outro lado da linha. Macanudo tem a impressão de ouvir o leve matraquear de um teclado.

- Desculpe, senhor. Isso foi uma coincidência, devo dizer. O senhor não foi notificado?

- Notificado? Como?

- Via email.

- Não, não fui não. Estou com minha caixa de entrada aberta e não há nenhuma mensagem de…

Macanudo se viu obrigado a interromper o comentário quando, repentinamente, surge uma mensagem da Googolplex em seu computador, indicando ter sido enviada quase quatro horas antes.

- Ei, recebi sua mensagem só agora!

- Veja só o senhor. Hoje é mesmo o dia das coincidências, não? Deve ter sido algum problema nos nossos servidores.

- É, deve ter sido mesmo. Tudo bem. Obrigado então. Como é seu nome?

- Pode me chamar de Junior.

- Tá bom, Junior. Acho que ainda vamos nos falar muitas vezes.

- Vamos sim, senhor.

(continua)

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March 8, 2008

PAGO PARA ANUNCIAR EM SEU CORPO

Não poderia ser mais engraçado.

Artigo do Fábio Fernandes, que fala sobre a Língua Patrocinada, que, por sua vez, tem muito a ver com o post aí de baixo.

E mais não digo. 

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February 18, 2008

ADSENSELESS - Parte 1

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

        Macanudo Geist vinha de uma tradicional linhagem de tecnófilos, - o bom-senso do escrivão foi a única coisa a impedir que seu nome do meio fosse Playstation 2 - e todos acharam perfeitamente natural sua decisão de se filiar ao programa de Marketing CorporAltivo da Googolplex.

        Esse nome, aliás, um trocadilho pouco brilhante com palavras de ordem da empresa em questão, foi execrado num dos vários brainstormings feitos pelo filial regional, responsável pela criação e desenvolvimento do programa. Mas um executivo comentou com um subalterno, que comentou com outro, que enviou um email a uma publicação especializada em tecnologia, que lançou o termo no mercado antes mesmo que o serviço fosse anunciado oficialmente.

        O funcionário que deu a idéia não recebeu os créditos, aliás.

        O princípio era muito simples: a Googolplex colocaria anúncios nos corpos das pessoas, mediante um pagamento justo, evidentemente.

        Merchandising em peças de vestuário era algo que vinha sendo feito desde o século passado, portanto essa opção foi a primeira a ser descartada. As primeiras tentativas foram com a utilização de tatuagens UV. O problema era que os anúncios estavam restritos a um nicho muito específico de clientes potenciais – os frequentadores de casas noturnas. Uma evolução foram os pigmentos fotorreativos, que eram ativados de acordo com espectros de luz ambiente pré-programados. Mas, novamente, houve o problema de penetração dos anúncios, uma vez que eles eram definidos de acordo com o perfil do Vetor (o termo que a empresa utilizava para se referir às pessoas que se dignavam a gravar os anúncios em suas peles), e mudanças repentinas de religião, estado civil ou político costumavam por tudo a perder. Havia ainda os Vetores arrependidos - que não eram poucos. Eles renderem muita dor de cabeça aos advogados da empresa, já calejados em enfrentar nos tribunais pessoas que queriam que as tatuagens fossem retiradas antes do término do contrato. Mesmo que houvesse uma cláusula bem definida a respeito da quebra de contrato por parte dos contratados, no caso, os Vetores. Os contratos, aliás, eram verdadeiros labirintos jurídicos, redigidos em estilo quase barroco, expandindo o jargão legal para limites que iam além das capacidades cognitivas de uma pessoa normal. Os candidatos simplesmente desistiam na terceira ou quarta página, pulavam para o final - onde estavam grafados os valores que receberiam - e assinavam. Afinal, qual o problema de se andar com um anúncio estampado em seu próprio corpo por um período determinado de tempo?

        O próximo passo foi o que os técnicos da Googolplex chamaram de "Faixa de Anúncios", um dispositivo composto por uma tela de espessura microscópica, ligada a outros periféricos, que deveriam, por sua vez, ser implantados na caixa craniana dos Vetores. Essa mudança de processo acarretou, como era de se esperar, um aumento substancial nos pagamentos dos Vetores assim como no número de cláusulas e letras pequenas dos contratos de adesão.

        O funcionamento da Faixa de Anúncios, é tecnicamente complexo, mas funcionalmente simples: o dispositivo consiste de uma tarja de papel eletrônico, ultrafina, implantada na testa do usuário. A tarja é alimentada por uma bateria recarregada por movimento pendular ou por luz ambiente. Ela também conta com uma antena que pode captar sinais em qualquer localidade onde haja uma conexão Wi-Max disponível, o que significa - com exceção de umas poucas dezenas de comunidades com restrições religiosas - no mundo inteiro. Há também uma micro-câmera, de definição muito pequena, mas suficiente para captar trejeitos e expressões corporais de qualquer pessoa que conversasse com um Vetor. Ela ainda conta com microfones que captam as palavras-chave trocadas numa conversa e contextualizam os anúncios de acordo com as mesmas. Há ainda a ferramenta de condução, que são dois micromotores nos quais, nas pontas dos eixos, eram soldados pesos excêntricos que, assim como em smartphones e joysticks, ao girarem, provocam vibrações pequenas mas incômodas nas têmporas do Vetor, onde são implantadas. E, por fim, há um complexo sistema de biometria que monitora o estado físico do usuário, e, por exemplo, desliga a tarja ou ainda deixa-a em modo stand-by caso o Vetor não esteja conversando com alguém.

        Pelas cláusulas do contrato, os Vetores receberiam por produção. Isso significava que não era necessário cumprir horários ou metas, mas ficar em casa o dia inteiro não seria nada lucrativo. O contrato também não imputava qualquer tipo de restrição às ocupações pregressas dos Vetores, que poderiam continuar trabalhando e executando quaisquer outras atividades que lhe eram familiares. O sistema de crédito era um tanto obscuro, mas basicamente dependia do Vetor travar uma conversa que desse margem a todo tipo de assunto possível, que, por sua vez, daria margem a todo tipo de anúncio possível. O sistema da Faixa de Anúncios faria uma varredura no interlocutor do Vetor e mediria o interesse deste pelas mensagens e propagandas exibidas na tarja. Quanto maior o interesse, fosse demonstrado verbal ou gestualmente, maior o pagamento.

        A grande questão era que um Vetor, além de ter que ser extremamente desinibido - afinal, andar com uma tela implantada na testa não era tarefa para os mais comedidos - tinha também que ter muita, mas muita lábia. Porque, se para a maioria das pessoas, a oportunidade de entabular conversa com um desconhecido no meio da rua já não gerava boas expectativas, o que dizer de um desconhecido cuja testa cintilava anúncios diferentes a cada segundo? O trabalho do Vetor era prender a atenção de uma pessoa o maior tempo possível, sem se tornar um estorvo. A conversa deveria variar, ir de um lado ao outro, sem que o interlocutor percebesse. Embora houvesse um intenso treinamento, as capacidades inatas dos candidatos contavam muito, e tipos acanhados já eram eliminados logo nos primeiros estágios do processo seletivo. O Vetor deveria ter a capacidade de mudar o tema da conversa sem que o cliente percebesse. Tinha que ser dialético, de um jeito hegeliano. Ou heinsenbergiano. Enfim, tinha que vender o peixe. E bem.

        Ainda sob efeito de sedativos e analgésicos, ofuscado pela luz do sol e com a cabeça prestes a explodir de tanta dor, Macanudo passa pelas portas do centro médico da Googolplex.

        Ele tem que chegar em casa. Mas antes, tem que falar com uma pessoa. Qualquer uma.

        (continua)

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