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December 3, 2008

[LIBRA] CAP. 1 - LÍNGUAS MORTAS

Filed under: Ficção, Libra


Márcio Massula Jr.

            - Dona Matilda, não é melhor irmos?

            - Calma, Gládio. Calma. Acho que hoje ainda vamos conseguir ouvir alguém. Vamos continuar.

            - Sim senhora.

            Para Ramiro, na hora do almoço, quando o sol bate inclemente e as pessoas  inundam as ruas, a cidade parece irreal. Ele está há pelo menos quatro horas caminhando atrás de um emprego, de uma oportunidade, de um vislumbre, de pelo menos uma chance de sair do poço que ele mesmo cavou e que fica mais fundo a cada dia. Seus pés doem, sua cabeça lateja, o suor escorre pelo seu corpo, empapando suas roupas, descendo entre os filetes da pasta plástica que contém um punhado de currículos desatualizados e mal-impressos, que provavelmente terão o efeito contrário do esperado por ele, que, aliás, não teve nenhuma participação na elaboração dos mesmos, deixando o trabalho duro a cargo da filha mais velha, que ainda não passou dos treze anos de idade e dá os primeiros passos no mundo do processamento de textos.

            - Quem?

            - Mulher, casa dos trinta, aliança na mão direita, vestida casualmente.

            - Quando?

            - Esquece. Entrou numa loja ali na esquina.

            - Certo. Quem?

            Um mar de gente. Era essa a analogia que sua cabeça inflamada evocava para o turbilhão de pessoas que pipocava nas ruas, descrevendo movimentos que um dia provavelmente seriam equacionados por matemáticos e físicos, mas que agora só podiam ser explicados como isso, um mar de gente, que ia para lá e para cá, rebentando nas fachadas coloridas dos shoppings, dos centros comerciais, dos bancos, dos restaurantes e das agências de empregos.

            - Homem, casa dos quarenta, aliança na mão esquerda. Carregando uma pasta transparente cheia de papéis.

            - Quando?

            - Agora.

            Seu olhar deteve-se numa bunda particularmente redonda e vistosa, e ele quase não viu o paredão formado pelo gigante negro parado à sua frente, acompanhado por uma mulher já madura, que lhe pareceu uma apresentadora de telejornal.

            O homem era, literalmente, do tamanho de um armário. Dos bem grandes. A mulher usava óculos escuros enormes, mas que caíam bem em seu rosto. Era uma mulher pequena, magra, contudo, atraente, e em tempos de vacas gordas, Ramiro certamente dispararia uma cantada chula à queima-roupa. Mas o momento não era dos melhores. E havia o gigante.

            Então, a mulher falou.

            - Senhor, será que podemos nos falar por uns minutos?

            Mesmo com todo ranço exalado pela cidade, era possível sentir o cheiro da mulher, um aroma tênue de… rosas.

            - Olha, dona, agora não vai dar não.

            - Prometo que não vamos tentar vender nada, nem convertê-lo a qualquer religião. É apenas uma pesquisa.

            - Que tipo de pesquisa. É pro governo?

            - Digamos que tenha cunho social.

            - E a opinião do senhor é muito importante para nós. - o gigante pela primeira vez abriu a boca, e disse isso com um trejeito até bonachão, o que, curiosamente, dissipou a atmosfera predatória que o envolvia.

            Ramiro só começou a desconfiar quando já tinha passado da terceira cerveja. Os dois estavam bebendo refrigerantes. Os detalhes já tinham ganhado contornos esfumaçados, e até que estava bom. Os dois realmente não tinham, até aquele momento, tentado vender nada, nem convertê-lo a qualquer religião. Ramiro, com a garganta lubrificada, disparou a falar sobre amenidades, ao passo que os dois, vez ou outra, se entreolhavam, esboçavam sorrisos e teciam algum comentário vago sobre o que quer que estivesse sendo discutido. Quando terminou seu repertório, Ramiro passou a observar os transeuntes, enquanto pensava qual seria o número de garrafas de cerveja necessário para ultrapassar o limite das boas maneiras.

            - É tudo por nossa conta, seu Ramiro. Pode ficar tranquilo, certo? - A mulher, que tinha se apresentado como Matilda, quebrou o silêncio.

            - Não leva a mal não, dona. Mas é que tô achando essa pesquisa meio estranha.

            - Bem, na verdade, estamos tentando quebrar o gelo, porque o assunto sobre o qual iremos falar é, um tanto… como direi? Indigesto.

            Os pêlos da nuca dele se eriçaram.

            - Como assim?

            - Só um momento, Ramiro. Primeiro, vamos às formalidades. O Gládio aqui vai cuidar dos detalhes.

            O assistente de Matilda, todo sorriso, abriu a valise que carregava consigo e tirou um formulário.

            - Gládio?  - e só então Ramiro se deu conta de que ainda não sabia o nome do homem - Desculpa a curiosidade, mas é um nome bem diferente.

            Gládio, que preenchia um dos formulários, respondeu, sem tirar os olhos do papel, mas, mesmo assim, parecendo simpático o suficiente.

            - Na verdade é sobrenome.

            - Ah, tá.

            - Pronto.

            Gládio olhou para Matilda e em seguida apontou sua arcada dentária imaculadamente branca para Ramiro, que já formulava a hipótese de que, se um homem daquele tamanho não estava quebrando costelas e cabeças num ringue de vale-tudo, só podia ser gay.

            - Se o senhor não se importar, claro, vamos necessitar de alguns dos seus dados. Mas nenhum deles é obrigatório, entende. O senhor só vai cedê-los se assim desejar.

            Quase dava vontade de rir ouvindo a mulher falar, com seu português empolado.

            - Escuta dona Matilda. É… eu vou ganhar alguma coisa com isso?

            Gládio se adiantou.

- Pode ser que sim.

            - Mas não prometemos nada, certo? - Matilda finalizou, encarando Gládio. Parecia não ter gostado da interrupção do seu assistente.

            - Profissão, seu Ramiro?

            - Metalúrgico.

            - Casado?

            - Sim.

            - Filhos?

            - Dois. Quer dizer, duas.

            - Formação?

            Ramiro ignorou a última questão. Alguma coisa lhe afligia naquela situação toda e ele ainda não sabia muito bem o quê. Virou-se para Matilda.

            - Escuta dona, não leva a mal, mas essa pesquisa é sobre o quê, afinal? Cês me pegaram na rua, me pagaram uma cerva, a gente tava aqui batendo um papo legal. Só que, quando a esmola é muita, o pobre desconfia, né não?

            Ao invés de responder, Matilda esticou o braço em direção a Gládio e ficou com a mão estendida, esperando algo que ele já tirava de dentro de sua valise. Ramiro percebeu que a desenvoltura dela o assustava. Gládio depositou nas mãos dela uma pasta-arquivo parda, volumosa e meio surrada pelo manuseio constante.

            - Mas o senhor é curioso mesmo, hein? - para Ramiro, o comentário soou mais como um gracejo do que como uma reprimenda, embora a linguagem corporal de Matilda não tenha feito nada para corroborar isso. - Tudo bem. Vamos ao que interessa.

Matilda coloca a pasta na mesa e pousa as duas mãos espalmadas sobre ela.

- Como eu havia dito no caminho até aqui, nossa pesquisa é opinativa. Vamos confrontar o senhor a uma situação… extrema, e, bem, está vendo esta pasta? - Ela deu um tapinha na pasta, para enfatizar a última palavra.

O garçom coloca mais uma garrafa de cerveja na mesa, em frente a Ramiro, que resmunga:

- Pô, dona, é claro que tô! Tá achando que eu sou… hã… desculpa. Desculpa.

Ela esboçou um sorriso fantasmagórico que durou mais do que Ramiro considerava suficiente.

- Tudo bem. Sem problema. Eu convivo muito bem com a minha cegueira.

Ramiro tratou logo de encher seu copo de cerveja, mais uma vez. Embora não fosse fazer muita diferença, ele evitou olhar para ela. Gládio, como sempre, parecia estar em outro planeta.

- Nessa pasta existe um dossiê completo sobre o caso da pedreira, o senhor se lembra? Passou em todos os jornais…

Ela empurrou a pasta na direção de Ramiro.

- Daquela menininha?

Ele ficou olhando para a pasta, como se ela estivesse contaminada com todo tipo de praga altamente infecciosa conhecida pelo homem.

- Sim, ela mesma.

Ele começa a abrir a pasta, mas hesita.

- Olha dona, eu não sei se quero ver isso não, hein?

- Se não quiser olhar, não precisa, seu Ramiro. Mas seria importante para o nosso trabalho.

Ramiro engole em seco e abre a primeira página. Seus batimentos cardíacos aceleram. Ele havia se preparado para ver a coisa mais horrível de sua vida, e um boletim de ocorrência não era bem o que estava esperando. Sem perceber, ele deixa escapar o ar que tinha prendido devido à tensão, o que arranca uma risadinha de Gládio e um dos outros sorrisos macabros de Matilda.

- Ela ficou em cativeiro por dez dias…

Ramiro vai examinando a pasta, lentamente, compenetrado, tentando atravessar todo o léxico jurídico daqueles documentos e, subconscientemente, evitando encontrar qualquer descrição explícita ao que acontecera com a menina.

- …quando os animais descobriram que a polícia já tinha uma boa pista sobre o caso…

- Minha Virgem Santíssima!!!!

- … fizeram o que presumo que o senhor esteja vendo nesse exato momento.

A foto era bem nítida e estava solta entre as folhas dos relatórios. Havia outras, mas seus olhos se detiveram nessa. Uma menina com não mais de quatro anos jazia sobre um pedaço de lona preta, ao lado de um buraco aberto na terra. Não era possível ver muito do cenário, mas, pela quantidade de vegetação rasteira, era fácil presumir que a foto foi tirada no matagal onde acharam o corpo. Havia uma cratera no que um dia tinha sido o rostinho da menina. Toda a metade direita do crânio estava afundada. Ela foi morta a marretadas. Ramiro não pôde evitar imaginar como os sequestradores tinham feito aquilo. Teriam eles segurado a criança? Ou simplesmente deram-lhe um golpe, sem que ela percebesse? “E na cabecinha dela, meu Deus do Céu!” O que teria se passado? O estômago dele manifestou-se e, num gesto de asco, ele empurrou a pasta em direção à Matilda.

- Como o senhor deve saber, os sequestradores foram pegos, e tiveram vida curta na prisão. Mas o que ninguém sabe é que o verdadeiro culpado ainda está à solta.

- Como assim?

- A foto dele está na última página.

Ramiro puxa para si a pasta e procura a foto, tomando cuidado para não abrir novamente no laudo da perícia.

- Ele era sócio do pai da criança. Foi ele quem planejou o sequestro e também foi ele quem avisou a polícia.

- Mas que linguarudo filha-da… desculpa, dona.

- Não há de quê, ele é realmente isso que você ia falar. Mas agora finalmente chegamos ao ponto, seu Ramiro.

O álcool já lhe embotava o raciocínio, e a única coisa na qual Ramiro conseguia pensar era no que faria se aquilo tivesse acontecido com uma das suas filhas.

- Se o senhor tivesse os recursos e a oportunidade de punir este homem, o que você faria? Esqueça as leis. Eu quero saber o que Ramiro, homem e pai, faria.

- Olha dona, na minha terra a gente ia pegar um infeliz desses e ia arrancar a língua dele, só pra começar. Não é assim que fazem lá nas arábia?

- Acho que a idéia é a mesma. Então era isso o que o senhor faria mesmo? Esta seria a sua decisão?

- Seria dona. Seria sim.

- Sabe, me ocorreu uma coisa interessante agora…

- O quê?

- Só uma curiosidade. A palavra decisão vem do latim de-cidere. Significa separar, cortar.

- Hã?

- É latim. Uma língua morta, seu Ramiro.

- Pô, dona! Eu sei o que é latim. Eu não tinha era entendido o que a senhora tinha falado.

- Bom, então acho que agora é minha vez de pedir desculpas.

Nesse momento, Gládio desceu da estratosfera e se reintegrou à conversa. Pediu licença a Ramiro, puxou a pasta-arquivo e guardou-a em sua valise. Depois, sem se virar para Matilda, disse:

- Vamos?

- Sim. Acho que já acabamos por aqui. Bem, era só isso, seu Ramiro. Agradecemos a sua cooperação.

Os dois se levantaram e Ramiro ficou apreensivo com a possibilidade de ter que arcar com as despesas sozinho, mas Gládio se dirigiu ao interior do bar, de carteira em punho, e Ramiro conseguiu perceber a troca de notas entre o gigante e o caixa do bar. Matilda ficou parada ao lado da mesa, como uma estátua, fitando (metaforicamente, é claro) algum ponto oculto no horizonte. Assim que Gládio se aproximou, Matilda, como se tivesse feito um movimento ensaiado, alinhou-se à ele e começou a andar, em direção ao centro da cidade. Após dar uns poucos passos, ela se virou, apontando as lentes escuras enormes em direção de Ramiro e disse.

- Obrigada, mais uma vez.

E, mais uma vez, a temperatura do sangue dele ficou abaixo de zero. Depois, quando ela estava de costas, Ramiro finalmente conseguiu divisar os contornos de uma bundinha que ainda deveria estar bem firme. E isso foi suficiente para afastar as impressões negativas que veio colecionando ao longo da tarde.

 

 

***

 

Ramiro não tinha comentado com a esposa a entrevista do dia anterior. Pelo menos, não aquela. Na verdade, o acontecimento já tinha sido quase que totalmente eclipsado por necessidades mais urgentes, a saber, um emprego.

Sobre a mesa da sala, havia várias páginas de jornal. Os classificados, obviamente. Havia anúncios circulados em amarelo, outros marcados com um "x" vermelho, outros cobertos de verde, e várias outras combinações possíveis entre as cores e formas, que constituíam a simbologia do desespero desse homem. Com uma caneta pendurada na orelha e alguns pincéis coloridos nas mãos, ele observava tudo da mesma maneira que um general vislumbra o mapa do terreno onde fará seu próximo ataque.

O fato de não ter que pagar aluguel era uma das poucas coisas que mantinha Ramiro a uma distância saudável (mas cada vez menor) de um infarto. Desempregado havia dois anos, ele e Cida viviam dos bicos que ambos faziam. Eles souberam administrar o dinheiro da rescisão de Ramiro e atacavam em duas frentes: Cida era confeiteira competente e nunca ficava sem trabalho. Ele tinha comprado uma Kombi usada e a princípio tinha tentado a sorte no ramo dos transportes ilegais, mas a fiscalização e as máfias foram eficazes em abreviar seu empreendimento. Por fim, ele pregou algumas folhas impressas na velha jato-de-tinta, onde podia-se ler FAZ-SE CARRETO em letras um tanto quanto coloridas, outra das obras de Vivian.  Na verdade, as coisas nem estavam tão ruins, por assim dizer. As contas estavam sob controle (homem que não tem dívida não é homem era um dos seus mantra pessoais), mas a simples perspectiva de que as tudo pudesse dar para trás de uma hora para outra era demais para ele, o que tornava quase religiosa sua obsessão por um emprego fichado.

A casa tinha sido projetada e construída por ele mesmo, o que significava que boa parte dos preceitos básicos da arquitetura tinham sido desconsiderados. A luz costumava vir por ângulos estranhos, a chuva se empoçava em locais específicos da laje e as instalações elétricas vez ou outra presenteavam os habitantes com choques na válvula do chuveiro e sabe-se lá mais onde. De qualquer maneira, isso era o que menos lhe importava. A casa própria, erguida contra todas probabilidades, funcionava como uma espécie de talismã auto-afirmativo. Ele costumava pensar que, se pôde fazer aquilo, poderia fazer qualquer coisa.

As duas gestações de Cida tinham deixado sua marca e ela não era mais a mulher esbelta que Ramiro conhecera muitos anos antes. Mas, mesmo depois desse tempo todo, ele continuava achando sua mulher muito atraente, embora nunca verbalizasse isso, nem sob tortura

- E aí, cê acha que vai conseguir alguma coisa logo?

- Vou sim, minha nega, acho que vou sim. Quem sabe hoje eu não consigo alguma coisa?

A campainha tocou.

- Deixa que eu atendo. - ela se dirigiu à porta, enxugando as mãos num pedaço de pano velho. Passados alguns minutos, ela retornou, carregando uma caixa embrulhada em papel pardo.

- Cê encomendou alguma coisa?

- Não. Porquê?

- Essa caixa tá com o seu nome.

- Pra mim? Ué?

- Bonita, né? Quem será que mandou?

Fora o nome e endereço de Ramiro, não havia mais nenhuma indicação na caixa. Ele ficou contemplando o embrulho, tentando puxar da memória quem poderia ter mandado aquilo, ou que data especial poderia ser o dia de hoje. Então lhe ocorreu que poderia ser o prêmio que Matilda disse que talvez ganhasse. Decidiu que não comentaria nada, por enquanto. Cida era uma mulher pacata, mas seu humor poderia se transformar completamente caso ela soubesse que o marido tinha bebido cerveja com uma mulher. Mesmo que a mulher estivesse acompanhada por um dos maiores homens que ele já tinha visto, mesmo que fosse só uma pesquisa (estranha, é verdade), mesmo que a imagem da criança com o rosto esmagado tenha escapado dos recônditos de sua memória como uma erupção vulcânica.

- Cê não vai abrir?

- Vou sim.

Ela trouxe uma faca de manteiga e ele começou a abrir o embrulho. Abaixo do papel de embrulho, havia o papelão em si, muito bem lacrado com fita-adesiva e sem nenhum adereço que indicasse a sua procedência. Ramiro ficou intrigado. A caixa era leve. Ele chacoalhou e percebeu que havia alguma coisa solta lá dentro. Aparentemente, seu prêmio não passaria de um brinde. O que seria? Uma agenda? Um conjunto de canetas? Um calculadora? A espera deixava Cida cada vez mais angustiada e ela rodeava o marido num misto de atração e reverência, como uma mosca ao redor de uma lâmpada incandescente.

Ramiro passou a faca pelo adesivo que mantinha a caixa lacrada e viu o que havia lá dentro antes que o cheiro chegasse às suas narinas.

- Minha Virgem Santíssima!!!

Ele arremessou a caixa num canto da sala, fazendo com que seu conteúdo ficasse esparramado no chão. Cida, ainda movida pela curiosidade, se aproximou do objeto, mas desviou a rota assim que percebeu do que se tratava, indo vomitar no quintal.

Ramiro ficou estático, tremendo. Não sabia o que fazer. Ouvia sua mulher devolver a comida e teve vontade de lhe perguntar o que acontecia, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Ela voltou, meio receosa, como se o que quer que estivesse dentro da caixa fosse criar vida e sair correndo atrás dela. Ambos se aproximaram, bem devagar, protegendo as narinas.

- Quê que é isso, Miro?

- Acho que é uma… língua.

 

P.S.: Para os curiosos, as palavras em azul marcam os trechos que estão com comentários no arquivo original.

 


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ADSENSELESS - Parte 5

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Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4)

 

Macanudo notou que, ultimamente, Júnior já não demonstrava sua habitual paciência. Ou melhor, não demonstrava mais nada, uma vez que não atendia mais as ligações de Macanudo, que começou a desconfiar que insistir na rescisão de seu contrato com a Plex não tinha sido uma jogada muito inteligente.

Nas primeiras vezes, Junior simplesmente tentava dissuadir Macanudo, dizendo que tudo iria passar e que o contrato era por tempo limitado. Bastava que o primeiro esperasse. Mas, para Macanudo, esperar estava fora de cogitação. Ele estava perdendo a mulher que amava, e aquilo poderia deixar sequelas emocionais para o resto da vida.

Quando Macanudo ficou muito incisivo, Junior passou a lembrá-lo de várias cláusulas obscuras do contrato, sendo que nas últimas vezes ele chegou mesmo a perder a compostura, algo incomum numa pessoa treinada para lidar com o público.

Um dia Macanudo recebe uma ligação. É um terapeuta, contratado pela Plex. Ele quer conversar com Macanudo para checar suas condições psicológicas. Macanudo vê uma oportunidade naquilo e capricha. Não que houvesse muita necessidade. A tensão das últimas semanas devastou-o espiritualmente. As sessões, sempre na casa de Macanudo, eram compostas por longos bate-papos, onde o psicólogo se limitava a pontuar a conversa assentindo com a cabeça e tomando notas em seu netbook. Em alguns momentos, o psicólogo parecia mais interessando nos anúncios que a Faixa estava gerando do que na conversa em si.

Alguns dias depois, as sessões terminaram. Macanudo aguardava ansioso pela resposta. Descobriu que teria que passar pelas mãos de outros especialistas, que analisariam outros aspectos do seu quadro clínico.

Então veio a resposta. Ele estava apto a dar continuidade nas suas funções para a Googolplex. Aquilo era apenas tensão, e poderia ser tratada de outras maneiras. Exercícios, e, porque não, uma nova namorada.

Macanudo não concordava, mas quem dizia aquilo eram os médicos, e os médicos eram infalíveis. Só lhe restava derivar pela cidade, trocando sorrisos falsos com pessoas que não estavam mais tão interessadas no que se passava em sua cabeça.

Macanudo não aproveitou o hype. Não tirou vantagem do momento, e agora ele percebia isso vendo que o número de ocorrências que remetiam ao nome dele ou à Faixa de Anúncios caia vertiginosamente. Logo era seria passado, notícia velha, e o peso da sua decisão se tornaria muito maior. Ele falou a respeito disso com Chico, que, inexplicavelmente, não deu muita atenção ao assunto. Logo ele, a primeira, talvez segunda pessoa na fila dos que achincalhariam Macanudo pelo resto da vida quando ele finalmente se desse por vencido. Na verdade, a última conversa que tiveram foi sobre a Faixa. Chico queria saber se os anúncios contextualizados exibiriam conteúdo pornográfico quando Macanudo estivesse tendo relações com Ândrêa - ou com qualquer outra pessoa, embora a segunda opção estivesse muito longe de ser verdade. Macanudo ficou sem saber o que responder, mas disse ao amigo que se lembrava de algo sobre um filtro de conteúdo. Não sabia exatamente como funcionava.

Um dia ele entra em uma loja de sapatos e fica vendo alguns modelos que talvez pudessem agradar Ândrêa. Existia a chance de que um presente normal, vindo de um cara que queria voltar ao normal, fizesse com que ela reconsiderasse tudo. Ele se aproxima de uma vendedora. Ela dá um sorriso, daqueles que as pessoas costumam soltar quando estão frente à frente com celebridades em declínio vertiginoso. Os alemães têm uma palavra para isso. Schadenfreude.

- Oi.

- Olá! Precisa de ajuda, seu Macanudo?

Macanudo já tinha se acostumado com desconhecidos chamando-o pelo nome.

- Preciso sim. Quanto é aquele sapado ali?

A moça pensa em consultar o preço, mas vira-se para ele, sem saber direito o que fazer. Macanudo percebe aquilo. Acha que ela está constrangida.

- Algum problema?

- Olha, seu Macanudo… isso é alguma pegadinha?

- Pegadinha?

- É.

Macanudo não sabe o que dizer. A moça certifica-se que não há ninguém mais ouvindo os dois. Então volta à conversa.

- Isso mesmo. Seu Macanudo, eu sou nova aqui, sabe? Não queria queimar meu filme. Preciso desse emprego. Diz que não é uma pegadinha.

- Mas não é mesmo! Moça, tá tudo bem com você?

- Tá sim. É que sua testa tá mostrando o anúncio de um concorrente. E lá o preço tá menor.

Macanudo pára em frente a uma das vitrines e tenta enxergar o anúncio. Devido ao reflexo, não consegue. Tem que se contentar com a palavra da vendedora, que não teria motivos para mentir. Teria?

Ele se desculpa e sai apressado da loja. A moça, mais confiante, ainda tenta finalizar a venda. Macanudo não dá ouvidos. A situação não foi especialmente constrangedora, mas foi a gota d’água.

***

Dybbuk Júnior era o executivo que toda empresa sonhava em contratar. Possuía um currículo impecável, um sorriso radiante, quatro por cento de gordura no corpo e a total incapacidade de sentir remorso pelo que quer que fosse.

O acrônimo que definia seu cargo tinha oito letras, sendo seis delas consoantes, o que assemelhava tudo a um palavrão do leste europeu. Por isso as pessoas costumavam referir-se a ele apenas como "O Diretor".

Quando sua secretária lhe comunica pelo interfone que Macanudo Geist estava ameaçando fazer um escândalo em sua ante-sala caso não fosse atendido, ele, no mesmo tom monocórdio que usava quando pedia um café ou quando, por esporte, obliterava a auto-estima de um funcionário, pede para que ela deixe-o entrar. Enquanto ouve os passos se aproximando da porta construída com uma madeira ilegal em onze países, ele respira fundo, pressiona o topo da pirâmide nasal como polegar e o indicador e só consegue pensar em uma coisa: puta que o pariu!

(continua)

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November 1, 2008

MIDRAXE

Filed under: Ficção, Midraxe, Velharia


Era mais uma daquelas tardes monótonas de terça. Meu aparelho de ar-condicionado urrava pedindo clemência, mas o calor senegalesco tornava-me um verdadeiro tirano com as utilidades do lar.

Embora, claro, eu não estivesse em meu lar.

Passava a maior parte do dia (e às vezes a noite também) ali, mas aquele escritório, de maneira nenhuma, poderia ser chamado de lar.

Ou poderia?

Meu escritório nunca foi muito agitado. Sempre tive uma clientela fixa, que compensava seu tamanho reduzido com uma grande fidelidade.

E pagava bem.

Eu conhecia meus clientes pelos nomes. Não fazia a mínima idéia sobre a idoneidade desses nomes, e nunca tive muito interesse em investigá-los. Outros do meu ramo costumam fazer isso, mas eu não. O simples fato das pessoas perderem alguns minutos elaborando um nome falso me deixava feliz. Queria dizer que elas achavam que eu merecia um pouco de respeito. Só um pouco, acho.

Então, alguém bateu à porta, interrompendo minhas divagações.

Eu detesto ser interrompido.

Mesmo assim, fui atender.

 

*****

Sim, era verdade.

*****

 

Ele era velho. Bem velho. Por volta dos 70 e poucos. Eu nunca gostei de velhos, e a idéia de necessitar da boa-vontade de alguém para limpar a bunda me assombrava. Com sorte, vou antes dos 50. Ficou ali, parado, me encarando, tentando esboçar um sorriso, ser simpático. Tinha batido na porta certa?

- Pois não?

      - Senhor Romano, presumo. – disse, estendendo a mão enrugada pra mim. Não pude deixar de notar o anel. Um grande anel prateado com um emblema que não consegui enxergar direito naquele momento. Devia ser um maçom ou algo assim.

- Eu mesmo. Como me encontrou? – não retribuí a cortesia. Ainda não era hora. Tinha que interpretar meu papel.

- O senhor me foi indicado. Por esta pessoa. O senhor deve saber de quem se trata. – com a mesma mão que estivera estendida a mim poucos segundos antes, ele pegou um pedaço de papel no bolso do terno. Um cartão. Muito bem cuidado. Caríssimo. Eu teria que trabalhar muito pra ter um daqueles. Não gostei do sarcasmo. Mas dinheiro é dinheiro, sabem como é. E eu conhecia o nome. Sendo verdadeiro ou não.

- Conheço sim. Tenha a bondade. – saí do caminho, deixando o velho entrar em minha sala.

Modéstia à parte, eu cuidava bem do meu ambiente de trabalho. Uma sala simples, discreta, num prédio conhecido, mas não muito frequentado. Agora era minha vez de fingir simpatia. Estendi a mão.

- Peço que o senhor me desculpe pelos modos pouco amistosos, mas sabe como é. Nesse ramo nós fazemos muitas inimizades. Temos que nos precaver. Sente-se, por favor.

Ele sentou-se, ereto, na cadeira semi-nova que eu mantinha em frente à minha mesa. Quase todos os meus negócios eram tratados fora do escritório. Na verdade eu mantinha minha “agência” mais por capricho do que por necessidade.

- O senhor nos foi muito bem recomendado, senhor Romano, e…

- Pode me chamar apenas de Romano, por favor. – sempre interrompa os clientes. Isso lhes tira a sensação de poder. Intimida. Além de fazer você parecer mais esperto. No fundo eles gostam disso. Pensam que será um dinheiro bem investido. O que, no meu caso, não passa da mais pura e simples verdade.

- Ah, sim. Pois não, Romano. Como ia dizendo, o senho…, aham…desculpe,  foi muito bem recomendado. Por isso mesmo vou direto ao ponto.

- Que seria?

- Diga-me, o senhor costuma acessar muito a internet?

- Ocasionalmente. Uso para fazer pesquisas e me considero entendido, mas nunca fui um entusiasta. Sou um dos que trabalha à moda antiga.

- Claro, claro. Como eu. – riu, talvez imaginando que eu tivesse entendido a piadinha implícita em sua observação. Eu entendi. Mas fingi não entender. Não gosto de velhos, já disse.

- Bem, mesmo sendo um usuário eventual é provável que já tenha ouvido falar disso aqui. – e sacou da sua valise um livreto, cuidadosamente encadernado, com pouco mais de 40 páginas. A capa trazia impressa, em letras garrafais, apenas uma exclamação: MUDE!

Folheei desinteressadamente o documento. Pelos tópicos, presumi que se tratasse de algo na linha de auto-ajuda. Nunca gostei desse tipo de literatura. Pelo menos não publicamente. Coloquei a apostila sobre minha mesa, na esperança de que ele me desse ou esquecesse ali. Fiquei curioso pra saber o que tinha dentro.

- Conhece?

- É a primeira vez que vejo. O que é? Um livro de auto-ajuda?

- Sim, poderíamos dizer que sim. Esse documento tem sido distribuído pela internet gratuitamente há cerca de cinco semanas. O site original foi tirado do ar, mas algumas centenas de pessoas já tinham copiado e lido, e surgiram várias páginas disponibilizando esse arquivo. O resto foi efeito dominó. Mais pessoas liam, copiavam e disponibilizavam, o que tornou virtualmente (e esboçou um pequeno sorriso imaginando que talvez eu atentasse para esse trocadilho horrendo) impossível a eliminação disso in loco. Ontem saiu o segundo capítulo. Ao que parece, serão cinco.

- E?

- Já tivemos notícias de que o texto foi traduzido para o inglês, espanhol, alemão, italiano, francês, chinês e árabe. E incrivelmente, parecem não existir incorreções ou modificações sobre o original. Ninguém ousou alterar seu conteúdo.

 

*****

Eu só queria saber onde estava me metendo. Ele não suava, não tremia, não aparentava medo ou intimidação alguma. Só me olhava, com aqueles grandes olhos negros.

*****

 

- Mas o que tem esse texto de tão especial?

- O senhor deve ser um homem extremamente reservado, estou certo? Não deve gostar muito de televisão, não é?

- Não gosto mesmo. Mas leio meu jornal todas as manhãs, se quer saber. – velho irritante.

- Já ouviu falar dos Renascidos? Da Igreja dos Recém-desvelados? Desde que esse manifesto foi publicado, catalogamos aproximadamente 86 novas religiões e seitas. Ah!, me esqueci dos Acólitos do Pdf. Isso pra não falar das micro-repúblicas…

- E esse manifesto tem algo a ver com essa história toda, estou certo?

- Certíssimo! – ele disse. Eu não podia deixar de observar aquele imenso anel em seu dedo anular esquerdo. Consegui entender o que era o tal emblema. Uma cruz, sobreposta a outro símbolo que não consegui identificar. Evitei ficar olhando muito.

- Tá, mas onde eu entro nessa história toda?

- É muito simples, queremos que você encontre o autor desse texto.

 

*****

O velho tinha me dito para não ler. Mas eu li. Merda.

*****

 

Ao contrário dos meus colegas de profissão, minha experiência tinha parcas raízes acadêmicas, contrastando com o empirismo selvagem presente na esmagadora maioria dos meus conhecidos. Não cheguei a me formar, mas não escondo que alimentei a esperança de ver o meu nome estampado na capa de um livro. Eu era jovem, e tudo o que veio depois em minha vida, inclusive a “guinada” na escolha da minha futura carreira, só veio a comprovar o quão errado estava. De qualquer forma, eu trouxe comigo coisas boas daquele período. O hábito de pesquisar, por exemplo.

O autor do texto assinava como Y.H. E completava “um homem como todos”. Seu estilo era leve, simples. Nada de palavras rebuscadas nem de arabescos verbais. Nenhuma novidade, pra ser sincero. Nada que os livros de auto-ajuda já não viessem borrifando nas mentes das pessoas durante anos e anos. O que notei, que talvez fizesse a diferença, era a disposição dessas informações. Tudo parecia fácil e possível. O texto era quase uma obra de engenharia. Todas as palavras e idéias pareciam ter sido calculadas para surtir o efeito máximo. A mensagem era clara, objetiva, direta. E muito eficaz, pelo visto. Começou no país, se alastrando pelo mundo logo em seguida. O opúsculo, apenas um volume de uma obra maior, fora responsável pela mudança na vida de pessoas por todo o planeta. Executivos bem sucedidos simplesmente desligavam-se de suas empresas em busca de um maior conhecimento de “si próprios”. Programadores abandonavam seus códigos em troca do cultivo de alimentos hidropônicos em pequenos pedaços de terra nos rincões do país. Generais renunciavam à pátria e à farda para aproveitarem suas tardes compondo haiku. Operários deixavam as máquinas de lado e se dedicavam aos animais sem dono. A sociedade capitalista estava a três passos do colapso, embora ainda não tivesse se dado conta disso.

Funcionava mais rápido com alguns. Com outros, a transformação ocorria paulatinamente, mas ninguém ficava indiferente ao seu conteúdo. Ninguém.

Contudo, chegava a ser engraçado. A mídia e os governos encaravam a situação como um surto coletivo de excentricidade. Nada mais.

A questão agora era: como encontrar um homem sem rosto e sem nome? Isso, partindo do princípio que ele realmente existisse. Uma dupla de iniciais era algo muito vago para me basear, e em tempos de coletivos artísticos, a possibilidade de que aquilo pudesse ter sido escrito por mais de uma pessoa era muito grande. De qualquer maneira, alguém escreveu, e era meu trabalho encontrá-lo.

Embora a internet não fosse o lugar (se é que fosse um lugar) mais apropriado para encontrar informações precisas sobre algo, decidi começar por lá. Questão de comodidade. Cada vez que eu apontava meu buscador para alguma das combinações possíveis das palavras MUDE, Y.H., auto-ajuda e felicidade, o número de ocorrências aumentava. Exponencialmente. Na última vez que olhei, estava ultrapassando a casa dos milhões. Confesso que fiquei surpreso (medo seria a palavra certa, mas eu não diria assim de jeito nenhum. Tenho uma reputação a zelar, sabem como é). Ficava cada vez mais difícil separar o joio do trigo. Tudo o que estava acontecendo era um típico fenômeno do século 21. Informação espalhada à revelia, com penetração maciça. Mas aquela informação era diferente. Era capaz de quebrar convicções sedimentadas durante anos como se fossem gravetos.

 

*****

Não havia medo em seus olhos. Não havia rancor. Não havia desespero. Não havia confusão.

 

Só havia - e sei que parece engraçado dito assim – amor.

*****

 

A dificuldade em encontrar alguém é diretamente proporcional ao preço do serviço. Eu não contava com todo esse trabalho na hora de fazer meu orçamento. Obviamente, o velho teria que reavaliar os meus dividendos.

A procura pelo sujeito, depois de algumas horas em frente ao computador, mostrou-se infrutífera. Decidi que talvez fosse melhor começar devagar, comendo as beiradas, como diriam na minha terra. No país já havia dezenas de seitas, igrejas, grupos de estudos, fã-clubes e quejandos, fundadas em reverência a Y.H. A coisa ia do anarquismo homeopático da Igreja do Não-Trabalho - que pregava o ócio construtivo, através do uso extensivo de conexão, assim como provisões e demais recursos pagos pelos empregadores, na busca da iluminação pessoal - ao non-sense total dos Pequenos Schopenhauers. Nunca entendi quem realmente queria dominar o mundo. Separei alguns que me pareceram mais objetivos e iniciei minha busca.

 

*****

No seu pescoço há uma tatuagem de uma cobra mordendo o próprio rabo. Já vi isso em algum lugar, embora o significado exato não me ocorra agora.

*****

 

Infrutíferas, todas as tentativas. Sempre que perguntava sobre o autor daquelas palavras, eu via o abanar de apostilas e encadernações mal feitas do primeiro capítulo de MUDE! “Ele está aqui”, diziam alguns.

Passei duas semanas freqüentando os cultos escalafobéticos da Panspermia Metempsicótica para descobrir que o grande segredo revelado apenas aos iniciados – e nem precisei me tornar um deles - era a teoria de que todos somos esporos alienígenas que chegaram à Terra em um meteoro e desde então entraram num ciclo infinito de reencarnações que só será quebrado com a publicação do quinto volume de MUDE! Sem falar na tortuosa correspondência eletrônica que mantive com o fundador (e único membro, desconfio) do Reverso da Fortuna, um grupo de estudos que afirma que o real objetivo do livro era que as pessoas não mudassem. Enfim, loucura para todos os gostos.

Algo que notei em minhas investigações era a dissolução da idéia original, conforme o tempo ia passando. (Mas não é assim com todas as idéias?). No princípio todas as pessoas pareciam ter entendido a mensagem do livro de maneira relativamente parecida. Mas foi questão de semanas até que começassem a surgir dissidências e interpretações menos ortodoxas. Nem preciso dizer que isso só dificultou minha vida.

Meses se passaram sem que eu tivesse conseguido arranhar ao menos a superfície de toda aquela história. As pessoas, as lendas, os fatos, os boatos, tudo se multiplicava numa velocidade assustadora. Era como nadar em areia movediça. Sem saber nadar. Gastei uma pequena fortuna viajando a todos os cantos do país à cata de alguma informação, nome, dica ou o que fosse. Felizmente, meus empregadores eram pessoas de recursos, muitos recursos. Eu continuava minha busca movido pela inércia. Não fazia sentido. De qualquer maneira, o dinheiro continuava entrando em minha conta.

Em todo esse tempo, eu já havia me tornado um verdadeiro especialista no assunto. Cadastrei-me em várias listas de discussão, afiliei-me a várias congregações que aceitavam inscrições por correspondência, frequentei reuniões e cheguei mesmo a cogitar a criação de um site, blog (depois de todo esse tempo fiquei íntimo o suficiente da internet para me permitir tal façanha) ou algo semelhante sobre o assunto. Acho que isso criou algum tipo de imunidade à palavra. Quanto mais o tempo passava, mais ridícula eu achava aquela situação.

 

Até que um dia, a sorte sorriu pra mim.

 

*****

Ou não, dependendo do ponto de vista.

*****

 

Estava me barbeando quando o telefone tocou. Poucas pessoas tinham o meu número e eu não costumava receber ligações sociais. Atendi, a contragosto.

- Alô?

- Romano?

- Quem fala?

- Sou eu. Y.H. Aquele a quem procura.

Titubeei, não escondo. Meu cérebro funcionava à toda na tentativa de optar entre a descrença ou o crédito àquela identificação.

- Que história é essa? Não sei do que está falando.

- Sabe sim. Sabia que você é um péssimo mentiroso? A entonação em sua voz, o tempo que demorou para responder. A pausa entre as palavras…

O número já estava no meu identificador de chamadas. Era da cidade. Além de mim, apenas meu(s) empregador(es) sabia(m) do trabalho. Não poderia ser uma piada ou armadilha. Ou poderia? Paranóia é um pré-requisito nesse ramo.

- Acredite no que digo. Sei da história toda, do velho com anel esquisito e da sua busca fracassada. Creio que você deva ter um identificador de chamadas aí. Mas não se preocupe em encontrar o número. Vou lhe dar meu endereço atual. Fica mais fácil e assim acabamos com essa história de uma vez por todas. Ou, pelo menos, dessa vez.

Era uma voz melódica. De alguma maneira fazia com que eu me sentisse confuso. Tenso. Péssimo pra minha profissão.

Anotei o endereço. Era uma chácara na região metropolitana da cidade. Eu já conhecia o lugar. Um amigo também tinha uma chácara ali.

 

*****

Nunca me faltou tanta convicção quanto agora. E ele ali, apontando para as costelas…

*****

 

Marcamos para o outro dia, na hora do almoço.

Cheguei na chácara duas horas antes. Poderia, e provavelmente seria, uma armadilha. Porque, eu não saberia dizer. Da mesma maneira como eu não conseguiria responder com certeza porque eu estava ali. Era tudo muito óbvio, muito clichê, se querem saber. Parei o carro bem antes e segui os últimos quinhentos metros a pé. Estava me arriscando ao deixar o carro assim tão longe, mas toda aquela vegetação ajudaria no caso de uma fuga. Minha maior preocupação era toda aquela poeira em minha roupa. Fui beirando a estradinha de terra que levava até a casa. Quando cheguei ao portão, avaliei o terreno. Nenhum carro, nenhum cachorro, ninguém. Entrei devagar. Tirei a arma do coldre e deixei-a presa na minha cintura, na parte de trás da calça. O silêncio ali chegava a ser lúgubre. A casa em si era humilde. Nova, mas humilde. Uma varanda com uma rede pendurada, uma mesa e algumas cadeiras de jardim que há muito não deveriam ser usadas. Não havia rastros recentes de carros ou motos. Se houvesse alguém ali, teria que ter vindo a pé. Como eu. Uma piscina mal-feita ao lado da casa aparentava não ter sido limpa nos últimos meses. Mais próximo do lugar, eu reparei, a própria casa não recebia qualquer tipo de manutenção há tempos. Folhas secas criavam um tapete natural em frente à porta principal. O termo “natureza morta” me veio à mente. Contornei a casa em busca de uma entrada alternativa. Encontrei.

 

*****

Agora eu começava a compreender tudo. Talvez, a crença no livro - e apenas nele - fosse apenas um mecanismo de auto-defesa, de proteção. Num nível subconsciente, as pessoas deviam perceber a verdade. Mas descartavam-na. Era melhor. E não fazia diferença.

*****

 

O som das teclas era frenético. Ele digitava sem olhar para o teclado, era como se tivesse feito aquilo a vida toda. Só parava para ajustar os óculos que insistiam em escorregar para a ponta do nariz. Estava curvado sobre o velho monitor. Havia manchas de suor em sua camiseta desbotada, e seus pés estavam cruzados embaixo da cadeira. Relaxado. Concentrado. Não tinha percebido minha presença. E parecia inofensivo.

Entrei no pequeno quarto, com a arma em punho. Ele me viu, e não pareceu nem um pouco surpreso. Com certeza, esse não era meu estado de espírito.

- Ah! Você veio. Um pouco adiantado, não? – disse, enquanto consultava seu relógio de pulso barato.

- Só uma pergunta: você sabe quem eu sou? – a verdade é que não consegui pensar em nada melhor pra dizer.

- Espero que seja uma pergunta retórica – disse, dando uma piscadela. - Claro que sei quem é você. Eu te liguei, não liguei?

- Então, pela ordem natural das coisas, essa conversa não deveria estar acontecendo, não é verdade? Você deveria estar fugindo ou se escondendo.

- Hmmmm…faz sentido, faz sentido. Mas já devo lhe avisar (algo que seus empregadores não devem ter feito, certamente) que a ordem natural das coisas não seria o termo mais correto a se aplicar aqui.

- E por quê?

- Veja Romano… – ele se moveu na cadeira, cruzando as pernas como quem vai dar uma entrevista. Um pequeno movimento com minha arma foi claro o suficiente para ele entender que eu não gostava dos seus movimentos. Ele levantou as mãos, pedindo calma. Achei seguro continuar mantendo distância. - …você sabe quem realmente está pagando o seu salário?

- Espero que seja uma pergunta retórica – eu disse, dando uma piscadela.

- Touché! Perguntas não são algo muito bem-vindo no seu ramo, acredito. De qualquer maneira, vou continuar meu raciocínio. A pessoa que lhe procurou usava um anel como esse? – e mostrou a mão esquerda, com um anel semelhante ao do velho.

- Tinha, e daí?

- Sabe o que significa esse símbolo?

- Não, e não quero saber. Nem sei o que estou fazendo aqui, conversando com você.

- Calma, calma! – disse, ainda com as mãos para cima.  – Precisamos conversar mais um pouco. Depois, você faz o que tem que fazer. Não vou fugir, me entreguei, lembra? Sei do meu destino. Mas talvez você não saiba do seu…

- …

- Deixe eu lhe contar uma história. Tudo começou há muito tempo atrás. Sabe o que é midraxe?

- …não..

- Esse termo – que acho maravilhoso, se me permite fazer esse aparte – vem do hebraico. É o nome que os teólogos deram a um artifício narrativo utilizado há muito tempo. Eles dizem que é uma narração de fundo histórico, ornamentada pelo autor sagrado para servir à instrução teológica. O autor conta o fato de modo a destacar o valor ou o significado religioso deste fato. Sua intenção não é a de um cronista, mas a de um catequista ou teólogo. Vi essa definição num site um dia desses. Embora seja deliciosa em seu cinismo, o termo também pode ser entendido como uma história baseada num modelo anterior. Um eufemismo para plágio, se assim preferir.

- E?

- Histórias superpostas sobre camadas de outras histórias, por sua vez superpostas sobre camadas de outras histórias. Qual terá sido a primeira mensagem? Qual terá sido a primeira informação? Isso não te lembra nada?

- Não.

O desgraçado era bom. Eu estava prestando atenção. Em cada palavra.

- Eu fui um garoto normal. Ao contrário de tudo o que disseram até hoje. Curioso, mas normal. A coisa toda descambou mesmo quando resolvi fazer uma viagem. Uma longa viagem. Está me acompanhando?

Preferi não responder, mas minha expressão era óbvia.

- Então, digamos que nessa viagem eu tenha aprendido alguns…truques. Mas o que eu considero ter sido realmente valioso foi um princípio. Um ideal. 

- Que seria?

- A implosão, embora esse termo não existisse na época, de um conceito. Simples.

- Que conceito?

- Autoridade.

- Como assim?

- Autoridade. Nunca gostei dela. Ninguém precisa disso.

- Amigo, pouco me importa o que você acha ou deixou de achar sobre esse assunto. Você sabe muito bem o que eu vim fazer aqui, não sabe?

- Sei. Claro. Mas o assunto te interessa sim. Se não você já teria puxado o gatilho. Deixe-me terminar minha história, está bem? Depois você faz o que veio fazer e nós dois ficamos felizes. Como eu estava dizendo antes de você me interromper, voltei do Oriente disposto a realizar aquilo que antes só passava pela minha cabeça. Banir totalmente o conceito. E que laboratório melhor para testar isso do que um território sob o julgo de um império estrangeiro? Mas aí a coisa toda tomou proporções inesperadas, e a mensagem se deturpou. É por isso que estou fazendo esse livro. Já tive muito tempo para estudar PNL, memética, e cá pra nós, a palavra impressa tende a se conservar mais do que a falada. Escreveram coisas que disseram que eu disse, e eu não disse. Agora eu mesmo digo o que quero através do que escrevo. Sem intermediários, sem atravessadores. Na verdade houve certa negligência da minha parte. Se eu tivesse me empenhado mais, as coisas não teriam tomado esse rumo, teria sido apenas um fenômeno localizado, de curta duração, uma curiosidade histórica, apenas isso. Só que fiquei curioso pra ver onde ia dar aquilo tudo, e simplesmente me afastei. Deixei rolar, como dizem.

- Mas se deturpou como? – eu já tinha me perdido na metade da sua história e não consegui pensar em nada melhor para dizer.

- Saulo.

- Quem?

- Saulo. Eles acreditaram que tinham me matado, mas eu, como já disse antes, dominava alguns truques e consegui enganá-los. Algum tempo depois, Saulo me viu – ele, ao contrário do que a história diz, presenciou minha suposta morte – e achou tratar-se de um milagre. E a confusão só aumentou quando ele conseguiu localizar meus antigos seguidores. Converteu-se à doutrina supostamente fundada por mim. Mudou de nome, inclusive, e tornou-se um dos maiores divulgadores dos meus “ideais”. Tentei abrir seus olhos e atentá-lo para o engano que cometia, mas já era tarde demais. Estava cego pela história que sua própria mente criou. Ele me tomou pelo demônio e fundou uma ordem, só para me caçar.

- Ordem?

- Sim. Hoje em dia não passa de uma agremiação de idosos excêntricos e abastados tentando conquistar algum tipo de respeito através de conhecimentos ocultos. – fez um gesto caricato, imitando um monstro, um bicho-papão. - Mas alguns ainda acreditam. E tem os registros. Costumam usar indefectíveis anéis de prata. Viu algum nos últimos dias?

- Então o velho…

 

- Sim, o velho. E eu também. “Mantenha seus inimigos por perto”. Conseguiram colocar as mãos em mim uma vez. Na idade média. Claro, consegui escapar. Do meu jeito. O engraçado é que, contei esse episódio a um escritor certa vez, quando estávamos presos em um gulag, assim, como se fosse uma piada, e isso acabou virando o trecho mais famoso de um dos seus livros mais famosos. Quase uma anedota.

Não entendi. Talvez ele tenha percebido. Talvez não. Fantasia demais. Ou, talvez não. O que poderia acontecer comigo se eu perguntasse?

- Peraí, se entendi bem, você afirma ser bem mais velho do que aparenta, certo?

- Certo.

- E estaria fugindo dessa ordem há quanto tempo, exatamente?

- Há longos dois mil anos…

- O quê? Tudo bem, você é escritor, mas não acha que está forçando a barra não?

- Bem, acreditar é um problema único e exclusivo seu. A palavra é: metempsicose. Também gosto dela. Sabe o que é?

- Você vai me contar de qualquer jeito, não é?

- É.

- Então vamos lá. Eu tenho tempo e sou curioso. E você realmente não vai me dar trabalho.

- Metempsicose, Romano, a perpetuação da alma em corpos diferentes. Ou melhor, a conservação da alma.

- ???

- Minha…alma…vem pulando de corpos todos esses anos…sim, é verdade. Existem complicadores. Nós conseguimos vagas, mas temos que nos contentar com o corpo que recebemos. Acredite, é difícil fazer qualquer tipo de protesto enquanto se está sendo polinizado por uma abelha ou perseguido por uma matilha de lobos. Antigamente era mais fácil, eu dominava algumas técnicas que prolongavam a…hmmm…vida útil de um corpo. Infelizmente a memória torna-se traiçoeira com a idade e temo que se tentasse algo do tipo hoje os efeitos seriam bem diferentes. Melhor ser uma roseira do que não ser nada. Mas até que dei sorte. No cômputo geral, consegui habitar um corpo humano um número satisfatório de vezes.

- …

- O que significa que, mesmo crivando meu corpo com as balas dessa arma, dentro em breve você poderá ter notícias minhas. Ou não. Sei lá…estou cansado, de saco cheio. Preciso, sair de cena, de novas férias. Por isso te chamei.

- Muito interessante essa história toda, mas chega de conversa. Acho melhor você fazer suas preces, se é que me entende.

- Rá! Essa foi boa! Um minuto, sim?

Como se eu não estivesse ali, prestes a matá-lo, ele se vira e faz algo que me parece ser salvar o arquivo no qual estava trabalhando. Continua teclando mais alguns momentos e então me dou conta de que posso ter caído numa armadilha, de que ele está me confundindo para que eu seja surpreendido aqui. Mesmo com meu tiro explodindo o monitor em sua face, ele, ainda assim, parece não se surpreender. Lentamente coloca as mãos para o alto. Tinha uma cara de desapontamento, mas não a de alguém prestes a morrer. Parecia mais uma criança que foi obrigada a interromper uma brincadeira porque estava na hora de tomar banho.

- Certo, certo. Vamos lá então. Você podia pelo menos ter esperado eu terminar, né?

- Um último desejo?

Eu era um profissional, e não podia deixar a peteca cair. Tinha que mostrar que estava no controle, que ainda era capaz de uma simples ironia, que não ia me deixar levar pela conversa de um maluco. Mesmo prestes a apagar a única testemunha daquele breve momento de credulidade pelo qual passei.

 

- Sim. Os disquetes contendo as minhas anotações para os outros fascículos estão ali. Cuide bem deles.

Minhas mãos tremiam e eu suava como um porco. Ele girou a cadeira, ficando de frente para mim. Apontava o indicador esquerdo para as costelas, logo abaixo do coração. Pediu que eu atirasse ali. Força do hábito, disse. Dei um tiro no meio da testa. Só pra garantir.

Eu precisava sair dali rápido, mas minhas pernas tinham virado geléia, e só recobraram a consistência original quando eu olhei para os tais disquetes. Uma pilha deles, uns cinco ou seis, estavam numa outra mesa, repleta de livros e revistas, no canto oposto do aposento. Coloquei-os em meu bolso e parti. Queria dar uma olhada neles. Que mal poderia haver?

 

*****

 

Já faz dois dias que não durmo. Comi apenas o suficiente para não parar. Não posso sair. Tenho muito trabalho. Li todos os textos dele, várias vezes. Como pude ignorar aquilo? Como pude ficar alheio à Mensagem? Tremo só de pensar nas possibilidades, no que ele poderia ter feito. Nas várias faces do mundo que poderiam ter sido esculpidas por esse homem. As pessoas têm que saber. Preparei os textos e estou enviando a Palavra agora, ao maior número possível de pessoas. Fico me perguntando por que eu? Por que fui escolhido? Por que tive essa honra? E a resposta é sempre a mesma: eu fui escolhido porque estava lá. Só isso. O velho está atrás de mim e vai me encontrar a qualquer momento. Tenho muito trabalho. Tenho que espalhar as Boas Novas.

 

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MARCIO MASSULA JR. tem grande apreço por palavras estranhas das quais ele geralmente desconhece o significado. Mas isso não importa. O que importa é que os outros não saibam.

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October 2, 2008

ESCAMBO

Filed under: Ficção

Márcio Massula Jr.

Soares conseguiu uma pechincha das boas no Escambo.com: uma câmera digital cujo zoom ótico não ficava devendo nada ao de uma luneta das boas; que tinha uma capacidade de armazenamento de dados de fazer inveja a muito laptop; que possuía mais de 15 modos de operação e, além de tudo, roubava almas.

Notou então que, uma a uma, as pessoas que fotografou começaram a se comportar de maneira estranha. Paulatinamente, esqueciam das coisas mais elementares, como cumprimentar os outros, responder e-mails, pagar as contas ou articular melhor as idéias. Por fim, esqueciam-se também de respirar, e morriam.

Quando ligou os pontos, Soares queria avisar a todos, destruir a máquina, denunciar o vendedor e acabar com tudo aquilo, contudo as forças lhe faltavam e ficava cada vez mais difícil pensar, tão difícil que o último resquício de atividade cerebral que teve foi a lembrança da última foto que tirou com a máquina.

Uma foto de si mesmo.

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September 24, 2008

ADSENSELESS - Parte 4

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1, Parte 2 e Parte 3)

Todos se esqueceram de avisar a Macanudo que ter a cabeça bombardeada por microondas o dia inteiro faria ela esquentar. E muito. Quando ele estava na Googolplex, isso não acontecia. Mas a Faixa de Anúncios também não ficava ligada o dia inteiro.

O resultado disso era uma película de suor, fina, mas perpétua, ao redor do seu rosto. A solução - paliativa - foi providenciar um estoque de toalhinhas de papel e deixá-las sempre à mão.

Devido à temperatura, a cabeça doía. E a dor de cabeça incessante mexia com seu humor.

Os rendimentos não estavam sendo fantásticos, devido, em parte, ao próprio estado melancólico no qual ele se encontrava. Ele não saía muito, e quando saía, não era um dos interlocutores mais simpáticos da face da terra. E, como diz o ditado, se não sabe sorrir, não abra uma loja. Macanudo tinha se tornado uma celebridade menor na cidade. As pessoas ainda vinham em sua direção, pediam para tirar fotos, experimentar a faixa e todas essas coisas, mas ele não fazia a mínima questão de agradar os clientes, atividade para a qual estava sendo pago, aliás. Ele precisava resolver a questão com Ândrêa.

Ela, por sua vez, continuava tocando sua vidinha trabalho-casa-trabalho. Ândrêa era designer de superfícies queratinosas, uma profissão que já teve um nome menor e um salário maior. Vez ou outra ouvia alguma piadinha de uma das colegas de salão, mas o mau-humor com que recebia os gracejos deixou claro às demais que aquele assunto não tinha nenhuma graça. Pelo menos para ela.

Macanudo tinha passado dos limites. Ela não sabia como tratar aquilo. Realmente não sabia. Quando se conheceram, ela até via um certo charme na obsessão de Macanudo por tecnologia. Um quê de excentricidade que ela não tinha encontrado em outros relacionamentos. Macanudo nunca tinha lhe dado uma jóia ou um buquê de flores. Ao invés disso, nas datas comemorativas, era normal ela ser presenteada com alguma traquitana eletrônica que tinha acabado de chegar nas prateleiras de Xangai, Seul ou Nova Deli e que ninguém além dele mesmo sabia para que servia. No começo era bonito. Romântico. Diferente. Um tempero. Mas aquele implante na testa tinha ido além de todos os limites. Ela precisava de um tempo e tentou explicar algumas vezes à Macanudo, que continuava se fazendo de desentendido.

Ela acabou com a última cliente da tarde. Teria algum tempo livre, que gastava, invariavelmente, jogando conversa fora com as outras colegas que ainda estavam trabalhando. Ela sentou-se ao lado da porta. Aproveitou para observar o movimento na rua, enquanto o assunto gravita ao redor da websérie mais nova. Algo a ver com baratas inteligentes, mudança de sexo e sorvete. Ândrêa até se entretia com esse tipo de história, mas sua cabeça estava em outro lugar. Era um belo dia e ela tinha vontade de sair do trabalho e dar uma caminhada. Talvez pegar um trem-bala e ir até o estado vizinho, em alguma estância turística. Respirar um pouco de ar puro, comprar algumas bugigangas, esfregar os pés num gramado, essas coisas.

Então ela vê Macanudo parado em frente à porta, como uma estátua. Ele lhe mostra seu smartphone novo. Depois aponta para a maçaneta e gesticula com o indicador, pedindo permissão para entrar. Como um vampiro. As órbitas de Ândrêa vão de encontro ao teto. Ela inspira e expira. Considera ignorá-lo, mas muda de idéia.

- E aí, Morena?

Mesmo que Ândrêa tivesse um biotipo praticamente eslavo, Macanudo chamava-a assim. No começo, ela pensava que ele queria lhe imputar alguma característica que ela provavelmente não tinha. Depois de algumas sessões de interrogatório, se convenceu da explicação do noivo, que afirmou te escolhido a palavra somente porque foi a primeira coisa que lhe passou pela cabeça quando combinaram de inventar apelidos carinhosos um para o outro.

O sorriso de Macanudo tem algo de sinistro. Ele aparenta estar mais abatido. E há a camada de suor em sua testa.

Ândrêa pensa em elaborar verbalmente o que estava sentindo, mas consegue resumir tudo que estava represando dentro de si numa única palavra, dita, evidentemente, com a linguagem corporal exata.

- Fala…

Macanudo estende seu smartphone em frente ao rosto de Ândrêa. Todas as mulheres dentro do salão passam, dissimuladamente, a prestar atenção na conversa.

- Não sabe o que é isso?

Ela não faz menção de ler a tela.

- Não e nem sei se quero saber. É mais alguma novidade inclusa no maravilhoso contrato que você fez com a Plex?

- Não, Morena! Olha direito!

O Doktor Fritz definia seu estilo como Espiricore. Beta Cândido era o quinto de uma dinastia de vocalistas que tinham em comum os poderes mediúnicos e as vidas curtas. Apesar da reprovação de uma parte significativa da população, o sucesso da banda crescia dia após dia. Beta e os outros antes dele afirmavam que psicografavam as letras das músicas e recebiam espíritos ilustres, desconhecidos e até dos próprios antecessores durante suas performances.

Ver uma apresentação deles era uma experiência única. Eles nunca eram iguais. Nunca. As músicas sempre eram interrompidas pela chegada das entidades, que faziam suas próprias intervenções, fossem homens santos orientais abençoando a platéia, fossem físicos discursando sobre teorias obscuras, fossem donas de casa falando sobre programas de televisão transmitidos cinquenta anos antes. Tudo, nas maioria das vezes, dito, com pronúncia cristalina, em outros idiomas. Independente do que as entidades fizessem (ou não), o público ficava extasiado, procurando sentido naquilo tudo meses depois.

Se tudo era verdade ou apenas um golpe de marketing muito bem perpetrado, ninguém saberia dizer, mas por essas e por outras as entradas para os shows do Doktor Fritz era disputadíssimas, esgotando-se meses antes dos eventos.

Na tela do smartphone de Macanudo estava a mensagem confirmando a compra de duas entradas para o show mais recente deles.

- Nossa, como você conseguiu?

Macanudo exalava auto-confiança.

- Até que não foi tão difícil assim. Claro, tive que mexer meus pauzinhos, mas agora eu sou uma celebridade, cê esqueceu?

O último comentário teve o efeito de uma bateria anti-aérea alvejando a consciência de Ândrêa, que reassume a expressão carrancuda com a qual havia recebido o ex-noivo.

- Pior é que tinha. E tava melhor assim, viu? Olha, Maca, realmente não sei…

Ela cruza os braços e olha para o lado, distante.

- Me dá uma chance, vai - Macanudo suplica.

- Acho que não. A gente já conversou bastante sobre isso. Você fez a sua escolha, e eu fiz a minha. Dá para entender?

- Mas eu já te expliquei! Eu só fiz isso pra gente ter grana para casar logo!

- Maca, o que há de errado em trabalhar para ganhar dinheiro, como uma pessoa normal? Ia demorar? Talvez. Mas a gente ia conseguir. Você não precisava ter feito isso. E podia ter me avisado…

- Ândrêa, cê sabe que eu te amo.

É possível ver que os olhos de Ândrêa ficam molhados. Macanudo fica esperando que a primeira lágrima escorra, para que possa puxar sua ex-noiva para si e dar-lhe um beijo sôfrego, asfixiante, como nas comédias românticas que costumavam assistir. Tudo ia terminar bem.

Ândrêa dá uma fungada, esfrega as mãos nos olhos e diz:

- Tenho que trabalhar, tá?

- Mas…

Ela apenas balança a cabeça, negativamente, esperando que Macanudo se toque e dê o fora dali.

Ele, por sua vez, não consegue pensar em nada melhor para dizer, então:

- Pô, Morena, sabe quanto custaram essas entradas?

- Quase um mês do meu salário.

- Ué! Como você sabe que elas já tão valendo isso?

- Está escrito na sua testa. Tchau…

Ela fecha a porta, vira as costas, e volta ao trabalho.

Ele se segura, mas as lágrimas que deveriam ter escorrido dos olhos da ex-noiva acabam saindo dos seus. Ândrêa desaparece dentro do salão. Algumas das meninas continuam observando-no, de soslaio, mas nenhuma intervém a seu favor. Ninguém vem em seu socorro. Ficar parado ali não vai adiantar nada. Aquela não era a resposta que Macanudo esperava, mas ele tinha um plano B.

(continua)

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September 23, 2008

A CORNUCÓPIA RUBRA

Filed under: Ficção, Midraxe, Velharia


Marcio Massula Jr.

 

Como perdigueiros treinados, os pezinhos descalços procuravam por algum vestígio de sombra no asfalto escaldante. A quarta-feira certamente tinha algo contra os demais dias da semana para estar assim tão ensolarada. Nem parecia que as ruas vinham sendo bombardeadas pelas ninbostratos nos últimos seis dias.

 

O mais velho seguia na frente, servindo de guia e protetor para as irmãs, que não faziam muita questão de saber onde estavam indo, embora estivessem indo para casa. Apenas iam - confiando cegamente no irmão - distraindo-se aqui e ali com bancos, objetos encontrados no chão, pombas, cachorros e qualquer coisa que suas cabecinhas insistissem em classificar como interessante. Isso, evidente, irritava o irmão, que tinha que intervir verbal e, quando necessário, fisicamente, para que as pequenas não ficassem para trás. E foi num desses rompantes, numa bonita mas mal conservada praça pública, percebendo mais uma vez que não estava sendo acompanhado pelas meninas, que viu o homem pela primeira vez. As meninas caminhavam devagar, em direção ao homem que estava sentado no meio-fio, a cabeça envolvida pelas mãos.

 

- Onde cês vão? - disse o mais velho, quase sussurrando no ouvido das duas.

 

- Vamo falá com o Papai Noel! - respondeu a do meio, no mesmo tom de voz, com os olhinhos brilhando.

 

 - Já falei que Papai Noel é mentira! - retrucou o irmão, meio irritado.

 

 - Não é não! - interveio a mais nova.

 

 - Vamo embora as duas! Eu tô mandano! Num tá veno que ele é doido? Olha! Tá até chorano!

 

- Eu vou falá com o Papai Noel e ponto!  - saiu esbaforida a menor, caminhando a passos pesados e com os bracinhos rijos, o que não deixou de arrancar risinhos da do meio.

 

O mais velho correu atrás, mas já era tarde para intervir. A mais nova já estava em frente ao homem, a mãozinha estendida, como já tinha sido estendida milhares de vezes.

 

- Dá um real aí, tio!

 

O homem parou de soluçar e levantou a cabeça na direção da mais nova, observando aqueles olhinhos como se fossem jóias muito valiosas.

 

 - Desculpe criança. Não entendi.

 

- Um real pra eu comprá comida - a mãozinha ainda lá.

 

O homem enxugava rapidamente as lágrimas, se dando conta só naquele momento de que aquilo poderia ser potencialmente constrangedor para alguém na sua posição. Suas bochechas eram vermelhas, um vermelho vivo, intenso, irreal, como que para combinar com o resto da sua indumentária.

 

- Então acho que seria melhor eu lhe dar um prato de comida, não?

 

- Não. Dá um real.

 

Papai Noel balançou a cabeça, decepcionado. Então notou que a menina não estava desacompanhada.

 

- Como se chama, meu doce?

 

- Jéssica - ainda com a mãozinha estendida.

 

- E quem são aqueles ali? Estão com você? - Papai Noel apontava para os irmãos de Jéssica.

 

- É meu irmão e minha irmã.

 

- E quantos anos você tem? Não! Espere! Vou adivinhar…você tem três,  talvez quatro anos (tenho muita experiência nisso), estou certo?

 

A menina lutou bravamente para que seus dedos indicassem que ela tinha cinco.

 

- Nossa, tão pequenininha!?! O que dão pra você comer?

 

- Nada.

 

- Nada?

 

- Nada. A mãe num dá nada.

 

Papai Noel refletiu por instantes. Depois disse, mais para si mesmo:

 

- O Saco sabe… - e de dentro do seu saco vermelho, sacou um sanduíche impressionante, magnânimo, daqueles vistos apenas em comerciais de cadeias de fast-food, e ofereceu-o à menina, que parecia não ter assimilado a idéia.

 

- Tome querida! É pra você!

 

- Pra mim?

 

- É.

 

Ela não se fez de rogada ao atacar o sanduíche à dentadas, e aquilo ajudou a dissipar um pouco a imagem recorrente na cabeça de Papai Noel, sobre o acontecido na noite passada Como um homem que costumava se divertir despistando esquadrilhas inteiras de MIGs sobre o estreito de Vladvostok pôde ter se deixado localizar pelo SIVAM (pelo SIVAM!) e, pior ainda, ter sido abatido por um Tucano?

 

- Quê isso? Tucano? - o rostinho da menina agora fora tomado por uma máscara de condimentos.

 

- Hã! Nada, querida, nada. Eu devia estar pensando alto. Oh, Rudolph…pobre Rudolph…ainda posso sentir o cheiro dos seus pêlos queimando…

 

- Dá um real, tio? - ela não desistiria facilmente.

 

- Chame seus irmãos aqui - Papai Noel apoiava a cabeça numa das mãos enquanto abanava a outra, dando por encerrado o assunto do real.

 

As crianças aproximaram-se. A do meio empolgada, percebendo que poderia ganhar um presente, como a mais nova. O mais velho desconfiado. Já tinham lhe falado sobre pessoas assim antes e, embora não fosse mais criança, ainda estavam gravadas a fogo em sua memória as diversas versões que ouvira da história do Homem do Saco.

 

A cor retornara às faces do Papai Noel, e a presença de mais crianças pareceu alegrá-lo.

 

- Ho-ho-ho! Como se chama, minha jovem?

 

- Daisy

 

- E você, meu caro?

 

O garoto respondeu com a careta mais ameaçadora que conseguiu imaginar.

 

- Vamos lá, garoto! Eu sou amigo! Vamos, me diga o seu nome!

 

- É Ródnei - respondeu a mais nova, conseguindo recapturar um pedaço de hambúrguer que ousara tentar a fuga de sua boquinha. Aquilo despertou a fúria de Ródnei, e ele partiu para cima da pequena, que resolveu não esperar para descobrir a reação do irmão e, entre uma mastigada e outra, correu o mais rápido que pôde até alcançar uma distância que considerou segura.

 

- Ei! Esperem vocês dois! Não precisam brigar por causa disso. Eu só queria saber os nomes de vocês por saber. Venham cá todos - Papai Noel pegou o Saco, deixou-o aberto e enfiou uma das mãos lá dentro.

 

- Venha cá Daisy. Normalmente eu tomaria essa decisão, mas bati a cabeça, sabe? Pensar está difícil, então vou deixar por conta do Saco. Ele sempre foi melhor do que eu. O Saco sabe… - então surgiu uma caixa colorida, algo quase mágico, como se ela não estivesse lá antes. A menina mal pôde se conter.

 

- É pra mim?

 

- Oh, sim! Ho-ho-ho! Claro que esta…”Academia e Centro de Estética da Boneca Babi” é pra você. Veja só! “Com seu próprio cirurgião plástico”!

 

Mesmo Ródnei não conseguiu evitar uma risadinha assistindo a luta de Daysi para localizar seu centro de gravidade agora que tentava caminhar segurando uma caixa quase do seu tamanho.

 

- Agora é sua vez, meu jovem. Vamos ver o que o Saco lhe reserva…

 

Papai Noel conquistou a confiança do garoto, ou uma parte dela. O suficiente para que ele se aproximasse, curioso em saber o que o Saco lhe reservava. Então Papai Noel sacou o conteúdo do Saco e estendeu-lhe ao menino, que deu um salto para trás, certamente assustado.

 

- Hã? - Papai Noel olhou para sua mão e viu que empunhava e apontava para Ródnei uma pistola moderníssima, pela aparência, fabricada no leste europeu.

 

- Ah! Agora entendi…não aprovo muito esse tipo de brinquedo, mas se foi isso que o Saco viu, é isso que você quer. Céus, como estão fazendo réplicas perfeitas ultimamente… - Papai Noel aproximou a pistola do rosto para examiná-la melhor, em seguida imitando, à sua maneira, os caubóis americanos, soprando o cano da pistola sucessivas vezes, tentando arrancar um sorriso do garoto e fazê-lo esquecer do susto que tivera há pouco.

 

- Muito boa mesmo. O que dispara? Água? Bolinhas? - Papai Noel apertou o gatilho e sua pergunta foi respondida com uma rajada de catorze projéteis de chumbo, que desapareceram no céu.

 

As crianças se jogaram no chão e o próprio Papai Noel caiu, mais pelo susto do que pelo tranco da arma. Ele olhava estarrecido o cano fumegante da pistola, sem entender o que tinha se passado. O Saco também estaria sofrendo os efeitos da queda? Ou, pior ainda, será que o menino realmente queria a arma? Papai Noel arremessou o objeto longe, com nojo, e o gesto reconquistou a confiança das crianças, que dispararam a rir.

 

- Papai Noel caiu de bunda no chão! - caçoava Daisy

 

- É de verdade mesmo? - Ródnei estava fascinado, quase em transe, olhando em direção ao lugar onde a arma fora lançada. Então Papai Noel se deu conta. Eles não estavam sozinhos na rua e muitas pessoas ainda corriam, assustadas. Mesmo sob o efeito do impacto, não foi difícil Papai Noel ligar os pontos e presumir o que aconteceria em seguida, mas, para sua surpresa, a polícia chegou muito antes do esperado.

 

- Mão na cabeça, vagabundo! - era uma viatura da PM, que teria uma chegada digna dos melhores filmes de ação hollywoodianos, não fosse pelo descuido do motorista, que freou bruscamente, fazendo o veículo derrapar e colidir com outros carros parados na rua, dando o tempo necessário para que Papai Noel e as crianças fugissem, sob o disparo de armas de grosso calibre.

 

Apesar da compleição robusta e da idade muito, muito avançada, décadas e décadas invadindo as residências alheias espremido em chaminés microscópicas, suportando o frio glacial da Lapônia ou o atrito causado por suas viagens hipersônicas deram a Papai Noel o preparo físico de um super-herói. Ele ultrapassou facilmente as crianças e só parou de correr quando se deu conta de que havia abandonado o Saco.

 

Aquilo nunca tinha acontecido antes, e Papai Noel tremia só de pensar no que poderia ocorrer se o poder do Saco caísse em mãos erradas. Tivera um pequeno vislumbre ao ceder às vontades de um garoto confuso. E o mundo estava repleto de pessoas mal-intencionadas. Ele tinha que reaver o Saco, mesmo que tivesse que enfrentar as autoridades. Se tivesse problemas, o Saco o tiraria deles.

 

Fez o caminho inverso a passos largos. Não queria chamar (mais) a atenção das pessoas, que agora já deviam estar precavidas contra o Papai Noel Pistoleiro. Então, cruzando uma travessa da avenida na qual se encontrava, viu. Estava nas mãos de Ródnei, que corria sem se importar com as súplicas das irmãs para que as esperasse. Subiu a escadaria que dava acesso ao morro onde eles moravam como um raio, e Papai Noel ficou tranquilo em saber que o Saco estava com alguém conhecido. E nas crianças se podia confiar.

 

Papai Noel correu atrás deles, acenando.

 

- Crianças! Crianças! Esperem! Sou eu…

 

As meninas olharam para trás e pararam, petrificadas. Jéssica começou a chorar. Papai Noel parou para confortá-la, e segurava delicadamente os bracinhos da menina.

 

- Ho-ho-ho! Não chore, princesa. Vê? Está tudo bem. Ninguém se machucou e tudo não passou de um acidente. Agora, se me dão licença, tenho que pegar o Saco com o irmão de vocês. Acho que ele não me ouviu…continua correndo…se eu não me apressar, vou perdê-lo e tenho muitos compromissos atrasados. Até, meninas!

 

Papai Noel disparou atrás de Ródnei, tentando não perdê-lo de vista, sempre acenando e gritando seu nome. Mas o garoto parecia não ouvir - teriam os disparos afetado sua audição? - e corria cada vez mais, certamente evitando ter que dar explicações à polícia, pensava Papai Noel.

 

O problema que o Bom Velhinho enfrentava agora era a geografia labiríntica do local, uma sucessão de becos, muros, ruelas sem-saída e escadarias que não davam em lugar nenhum, e ele apenas não perdeu o garoto de vista por conseguir compensar sua desorientação com uma velocidade superior.

Ele serpenteava pelos corredores estreitos, vez por outra recebendo o olhar atônito dos moradores, que retribuía com um largo sorriso, até que, em uma das muitas áreas abertas pelas quais passou, foi barrado por um homem. Ele estava armado. Papai Noel deu alguns passos para trás, e percebeu que o homem estava acompanhado por outros, também armados. E não eram autoridades. Ou eram?

 

- Olha só que comédia. Tá doido, velho? Comé que cê sobe o morro assim, sem pedí pra ninguém?

 

Eram quatro. O mais velho devia ter pouco mais de vinte, e todos apontavam suas armas para ele. Sempre que podia, Papai Noel evitava o conflito direto, e, no caso, achou que dialogar seria a melhor solução. Levantou as mãos, em sinal claro de rendição.

 

- Ho-ho-ho! Vejam rapazes, eu não sou ameaça para ninguém e…

 

- Ah, é? Ah, é? Então, quê que cê tá fazeno aqui, ô velho comédia?

 

- Papai Comédia - emendou outro dos rapazes, fazendo todos caírem na gargalhada.

 

- E então, Papai Comédia? Num vai falá não? Hã? Num vai falá?

 

- Eu só…Papai Noel interrompeu-se, tentando soar o mais natural possível. Embora fosse fluente em todos os idiomas criados pela imaginação humana, algumas expressões idiomáticas (principalmente as que não faziam parte do seu contexto) lhe eram difíceis, e ele tentava lembrar a expressão utilizada por um dos rapazes há pouco - …subi o morro pra pegar uma coisa que é minha e que um garoto, talvez vocês conheçam, Ródnei, está guardando para mim.

 

Os rapazes entreolharam-se.

 

- Que Ródnei? O filho do seu Madruga? -inquiriu o líder.

 

- Acho que não. Esse aí mora lá embaixo - respondeu um dos companheiros.

 

- Ah, é…tem aquele lá da dona Zilda…

 

- Quê isso, Boca?!? Já esqueceu que cê passou o cara?

 

- Ah, é! Só!

 

Papai Noel observava, aflito, o Saco subindo cada vez mais, ora desaparecendo atrás de uma daquelas construções rústicas, ora surgindo em outra escada ou rampa, subindo e subindo.

 

- Aquele Ródnei - apontou Papai Noel, tentando evitar movimentos bruscos.

 

Os quatros viraram-se de uma vez para o local indicado por Papai Noel, cobrindo a parte superior dos olhos com as mãos, tentando definir quem estava por trás do ponto vermelho que ziguezagueava morro acima.

 

- Tá veno quem é, Sinistro?

 

- Tô não, Boca…peraí! Parece o Rodinho.

 

- O Rodinho do seu Roque?

 

- É.

 

- Aê, Papai Comédia, o menino é do nosso conceito. Se tá mecheno com ele, tá mecheno com a gente.

 

Os quatro começaram a se virar ao mesmo tempo. Papai Noel nunca fora entusiasta dos combates, mas naquela situação não via alternativa a não ser optar pelo caminho da espada. Poucos sabiam, mas ele era versado no P’ong-P’o-Chi, uma variante letal do T’ai Chi, conhecida por apenas onze homens na face da Terra.

 

Foi tudo muito rápido. Os garotos eram jovens e rápidos. Mas estavam próximos e isso deu a vantagem que o velho guerreiro precisava. O que estava à direita chegou a puxar o gatilho, mas Papai Noel antecipou-se, dando um tapa no cano do seu fuzil e a rajada atingiu o peito daquele que eles chamavam de Sinistro. Ao mesmo tempo, sua bota foi de encontro aos genitais do que aparentava ser o mais jovem, que foi ao chão urrando de dor. Numa fração de segundos, um dos punhos de Papai Noel já deslocara o maxilar do líder, Boca, mas o último deles, aquele que tinha atirado no próprio amigo, recobrou-se do choque e preparava outra saraivada de balas, agora com endereço certo.

 

Mas o Bom Velhinho foi mais rápido e o meliante não conseguiu se esquivar das mãos dele, que era benevolente o bastante para manter pressionada sua carótida e mais um punhado de vasos sanguíneos apenas o tempo suficiente para que a interrupção do fornecimento de oxigênio ao cérebro comprometesse permanentemente apenas as regiões cerebrais responsáveis pela fala e pela locomoção. Era Natal e não havia motivo para tirar injustamente mais uma vida.

 

Haveria tempo para lamentar o incidente depois. Afinal de contas, eles também tinham sido crianças. Mas sua atitude enérgica tinha um bom motivo. Sabia o que podia sair do Saco, e já tinha visto armas demais naquele dia.

 

Ele deu tudo de si, desta vez não se preocupando com o que as pessoas pudessem imaginar. Afinal de contas, quem saberia que ele era O Papai Noel? O ponto vermelho continuava sua escalada frenética, mas Papai Noel estava reduzindo a distância entre eles rapidamente. O garoto devia estar perdendo o fôlego. Papai Noel resolveu não gritar, para não atrair mais problemas. Ele teve a impressão de que o garoto olhara de relance e o vira, mas se isso fosse verdade, certamente ele teria parado e entregaria de bom grado o Saco à Papai Noel. Ródnei agora caminhava e virou num corredor que surgiu repentino. Papai Noel diminuiu a velocidade e entrou no corredor, que terminava numa praça microscópica, construída artesanalmente, com certeza pelos próprios moradores que habitavam os quatro barracos - lembrara-se do nome - que a circundavam, e não acreditou no que viu.

 

Ródnei puxava mais uma arma do Saco, dessa vez uma submetralhadora israelense de última geração. Papai Noel não se conteve e tomou de uma vez a arma e o Saco do garoto, que encolheu-se num canto, esforçando-se para não demonstrar medo.

 

- Será que não percebe, garoto? Não vê o mal que essas coisas podem fazer? Não viu o que aconteceu hoje? Não viu o que aconteceu ao mundo?

O garoto, ainda encolhido, olhava para baixo, sem dizer nada.

 

- E então? Não vai dizer nada? Não vai dizer que está arrependido e que no próximo ano vai ser um bom garoto??

 

- Por quê? - balbuciou o garoto.

 

- Como assim por quê? Será que aqui os garotos são diferentes até nisso? Não quer ganhar presentes, não?

 

- Eu nunca ganhei presente e nunca te vi! Cê não existe!

 

A afirmação teve o efeito de um tiro. Papai Noel ponderou um pouco.

 

- Tente entender, garoto. Estamos ampliando nossas operações ano-a-ano. Quando comecei, eu mal podia cobrir a área de uma vila, e veja só, hoje já atendo boa parte do Hemisfério Norte ocidental. O que você acha que eu estava fazendo no espaço aéreo do seu país? - Papai Noel interrompeu o discurso, na esperança de que o menino respondesse sua pergunta, mas diante do silêncio dele, não havia opção senão continuar de onde havia parado.

 

- Estava analisando novas rotas, percebe? O problema hoje é uma questão puramente logística, sabe o que é isso?. Com meus meios de locomoção atuais, é inviável atender a todas as casas do mundo, mas, ho-ho-ho!, isso vai mudar em breve! - Papai Noel abriu um largo sorriso e deu uma piscadela para o garoto. - Estamos desenvolvendo um novo tipo de propulsão. Fica pronta em, segundo os prognósticos dos duendes, em trinta anos. Não é incrível?

 

- Papai Noel féladaputa - disse o garoto, baixinho.

 

O rosto do homem transfigurou-se.

 

- O quê? O quê você disse? - Papai Noel deu três passos em direção ao menino, e esse assumiu uma posição defensiva, já esperando tomar algum tipo de safanão do Espírito Natalino, que percebeu o temor do garoto e, tentando não complicar mais ainda a situação, virou-se e foi embora, nem mesmo se despedindo, apenas imaginando qual seria a maneira mais discreta para retornar ao Pólo Norte.

 

Assim que percebeu que Papai Noel não oferecia mais risco, Ródnei parou de tremer e soluçar. Era um garoto esperto, esperto demais para sua idade. Sabia que Papai Noel o encontraria e tomaria o Saco de volta. Correra como um louco na tentativa de ganhar alguma distância para que pudesse tirar o que precisava do Saco. Viu como utilizar e achou que seria fácil, como realmente foi. Mas o velho era muito rápido e o alcançou rapidinho. Ele queria tirar uns presentes para si próprio e para seus amigos, mas não deu tempo e Papai Noel tomou a UZI que Sinistro tanto queria e cuja foto ele vira tantas vezes nas várias revistas especializadas que o pessoal da boca deixava espalhadas por lá. Paciência. Pelo menos o dele ele conseguiu tirar. Tirar e esconder num monte de mato próximo, antes que Papai Noel visse.

 

Foi até lá e, com dificuldade, puxou o fuzil - igualzinho ao de Sinistro - com o qual ele sempre sonhou. Armou o bipé, destravou a arma e ajustou a mira, exatamente como o amigo agora falecido havia ensinado. Uma vez, durante uma troca de tiros com a polícia, Sinistro deixara o garoto efetuar alguns disparos, afirmando, inclusive, que Rodnei tinha conseguido acertar um verme, mas o garoto era modesto e achava que o amigo disse aquilo apenas para agradá-lo.

 

De qualquer maneira, se lembrava de como fazer tudo direitinho. E ainda dava pra ver o Papai Noel.

 

Será que conseguiria acertá-lo dali?

 

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CURIOSIDADE MÉDICA - UM ROTEIRO DE HQ

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(N.A.: tinha postado isso no outro blog, e, sei lá porque, não pensei em disponibilizar aqui, que, teoricamente, seria o espaço para ficção)

De dias pra cá meu interesse pela narrativa e pela narração de histórias em quadrinhos vem voltando gradativamente, talvez pelo fato de ter feito a leitura consecutiva de vários livros sobre o assunto, talvez por ter botado as mãos num pacotinho de edições nas quais estava de olho fazia tempo.

Ano passado, se não me falha a memória, o Leonardo Santana enviou um email para várias pessoas - eu incluso - onde solicitava hqs curtas para publicar numa edição temática da Prismarte, que ele ajuda a editar. O tema, aliás, era o terror, e essa edição acabou sendo a de número 45.

Bem, eu tinha uma pequena idéia que tinha começado a desenvolver anteriormente e achei que ela caberia numa edição assim. Fiz meus cálculos e concluí que três páginas seriam o suficiente. Não me lembro exatamente qual foi o estopim da coisa toda, mas eu queria misturar alguns elementos que me interessavam na época. Então me propus a escrever e entregar essa história, que batizei de CURIOSIDADE MÉDICA.

Resumindo a ópera: logo eu, o (pretenso) roteirista metódico e pontual, que sempre reclamou dos desenhistas furões, furei. A vida no mundo real começou a cobrar mais atenção, e, paralelamente, meu interesse pela feitura de hqs começou a declinar vertiginosamente. Deixei esse e outros roteiros de lado e fui cuidar de outros assuntos. Até semana passada.

Mais uma vez, minha vontade de escrever para quadrinhos voltou. Tive algumas idéias e reencontrei outras que me agradavam. Acabei desenterrando, entre outras coisas, esse roteiro.

Reescrevi praticamente tudo, e talvez ainda falte alguma coisa, mas é um roteiro que eu gostaria de ver desenhado.

O roteiro, aliás, pode ser baixado aqui (lá embaixo, em “Attachment”) ou lido no Scribd (o widget deles não funcionou aqui).

Alguém se habilita?

P.S.: Em tempos recentes, desenvolvi um procedimento terapêutico contra a angústia provocada por desenhistas furões: inscrevo os emails deles nas newsletters de tudo quanto é site de zoofilia que encontro internet afora. Podem chamar isso de “compensação”.

P.S.2: Brincadeirinha!!!!

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July 21, 2008

ADSENSELESS - Parte 3

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1 e Parte 2)

O naco dentro da boca de Chico tem calorias suficientes para sustentar uma criança por uma semana. Mesmo assim, a maçaroca de pão, carne sintética, legumes transgênicos e condimentos desaparece garganta abaixo antes que suas papilas gustativas tenham notícia do sabor daquilo tudo. Ao que parece, para Chico mastigar a comida é apenas uma formalidade, que ele não faz muita questão de cumprir.

Apesar de já se terem passado alguns dias, Macanudo ainda chama atenção. Vez ou outra algum dos clientes da lanchonete pára e pergunta: “Ei, você não é aquele cara da Googolplex?”. Nas primeiras vezes, ele respondia com convicção, fazia valer o treinamento, mas esse não era um momento. Tratava de um assunto importante, e quando uma menina pediu para tirar uma foto ao seu lado, o máximo que consegui produzir foi um esgar com o cantos dos lábios. Um arremedo de sorriso. Ele está preocupado.

- Chico, ela disse que não quer falar comigo!

Chico ainda está concentrado em sua comida. Ele vasculha o interior do sanduíche com a ponta do dedo indicador, como se procurasse encontrar algo que não deveria estar lá.

- Cara, ela abriu uma comunidade no TRUKO, sabia? “Eu odeio a Googolplex!”. E eu, como fico nessa, cara?

O indicador de Chico continua a prospectar o sanduíche.

- Maca, não acredito que você fez isso. Sério mesmo. Seu pai era um lóki, sua avô também, e, cá pra nós, sempre te achei meio esquisitinho. Mas gosto de você assim mesmo, cê sabe, né? Eu até me empolguei quando um carinha lá da Plex comentou sobre o programa comigo, mas nunca ia imaginar que meu melhor amigo ia se meter nessa. Não mesmo.

Chico tira uma fatia de picles e coloca sobre a mesa. Em seguida abocanha mais uma parte do sanduíche.

- Ué! Mas, de todo mundo, você é o que mais deveria estar feliz com o que eu fiz!

- Maca, eu sou um Tecnólogo, não um tecnófilo pervertido como você. E feliz não é exatamente a palavra. Curioso, talvez. Mas uma coisa é o fato de eu gostar de tecnologia. Outra é o fato de gostar de você estar servindo de cobaia pra testar tecnologia, percebe?

- Ok. Mas isso ainda não resolve meu problema. Eu fiz isso para me casar com ela. E ela nem quer me ver!

- Bom, talvez as coisas estivessem melhores se você tivesse avisado que ia implantar um dispositivo de publicidade semântica na testa ao invés de ter dito que ia pescar. E comigo!

- Foi mal, cara. Mas eu tinha que fazer isso. Se dissesse que ia participar do programa, ela ia protestar, com certeza.

- E você achou que aparecer com a testa cintilando preços de panelas e cursos de pós-graduação ia mudar a opinião dela, né?

- Achei que ela fosse entender…

- Não entendeu.

- Pois é…

- Isso aí é por tempo limitado, né?

- É.

- Quanto?

- Não posso comentar. Está no contrato.

- Presumo que seja muito tempo, então…

- Em virtude das circunstâncias, acho que agora é. Temos que resolver isso, Chico?

- Você e a Ândrêa, né?

- Não, cara! Eu e você!

- Fala baixo, viado! Tá querendo me comprometer? E que história é essa de eu e você?

- Ué? Você não vai me ajudar a resolver essa parada?

- Eu?

- Pô, Chico! Você é meu melhor amigo. Pra quem eu posso pedir ajuda?

- Pro seu bom-senso, talvez?

- Tá bom. Pode pisar em cima. Mas pense aí num jeito de me dar uma força, vai.

Uma jovem com feições asiáticas, na casa dos vinte e poucos, senta-se ao lado de Macanudo, sem ao menos ter a preocupação de se apresentar. Ela tem os cabelos pintados num tom de vermelho que é uma declaração de guerra à visão de qualquer pessoa dentro do recinto. Suas roupas são volumosas, e de cores tão berrantes quanto a do cabelo. Ela parece saída de algum anime. Macanudo fica surpreso, enquanto Chico tenta divisar alguma das curvas do seu corpo, bem escondidas sobre toda aquela quantidade de tecido.

Do outro lado do restaurante, outra moça, com roupas igualmente exóticas, bate uma sequência de fotos com um smartphone, enquanto a menina dos cabelos vermelhos estica o indicador e o dedo-médio em V. Antes que Macanudo possa formular algum protesto, ela agradece, se levanta, cruza o restaurante, pega o celular que estava na mão de uma amiga, confere as fotos, dá umas risadinhas, pressiona algumas teclas e ambas saem pela porta.

Chico começa a rir.

- Se acostume, cara. Agora você é uma celebridade.

- Pior é que não vou receber nenhum centavo por essa publicidade.

As risadas de Chico se transformam em gargalhadas.

- Maca, só você mesmo pra pensar numa coisa dessas. Cê é um figura mesmo.

- Não sei porque, mas algo me diz que cometi uma burrada ao entrar nessa.

- Só agora você percebeu?

- Valeu mesmo, Chico.

Chico ameaça fazer mais um comentário espirituoso, mas detém a fala. Ele olha fixamente para Macanudo, que estranha a fixação súbita do amigo.

- Maca, essa parada tá gravando a nossa conversa?

- Sim.

- E tá filmando meu rosto?

- Também.

- Ou seja, como se eles já não tivessem bastante informação, a Plex está coletando mais dados a meu respeito. E sem a minha permissão.

Macanudo assume um ar grave.

- Não! Nada disso! Esses dados são coletados apenas para filtrar os anúncios. Eles nunca vão usar isso. Os dados são apagados após 30 segundos após o fim da conversa. Está no manul.

Chico se aproxima mais. Chama Macanudo com o indicador. Olha para os lados e certifica-se que ninguém está prestando atenção.

- Isso é o que eles querem que você pense - diz, num sussurro.

- Sério mesmo?

Chico dá um tapa de leve no queixo de Macanudo, que não esperava por essa reação do amigo e reage de maneira desproporcional, atirando-se para trás e derrubando seu copo de refrigerante.

- Claro que não, seu mané! Tava parafraseando um filme das antigas que gosto muito. Cê não sabe o quanto eu esperei pra poder dizer isso.

- Olha a bagunça que você fez.

- Que você fez, Maca. Mas, peraí…

Chico levanta-se e segura a cabeça do amigo com as duas mãos. Seu olhar é severo. Não parece estar brincando agora. Analisa a tarja por alguns segundos. Resolve falar, por fim.

- Caralho, olhas os preços disso!

(continua)

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May 20, 2008

ADSENSELESS - Parte 2

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Márcio Massula Jr.

(Chegou agora? Ok: Parte 1)

Idosos são, em sua grande maioria, neoludditas.

Mas sempre existem as exceções à regra. E, neste caso, a exceção era bem simpática, contudo, devido a sua estatura, obrigava Macanudo a se curvar num ângulo que dentro em breve faria com que caísse e cravasse a cabeça no concreto.

***

Você vai chamar atenção por onde for. Esse é o objetivo. Nunca desvie os olhos de quem estiver olhando para você. Seja simpático. Sorria. Cative as pessoas.

Macanudo não se lembrava em qual momento do treinamento este tópico tinha vindo à tona, mas as palavras do instrutor ribombavam em seu crânio exatamente como no dia em que ele as ouviu.

Após uma semana entre os odores anódinos do Centro de Recuperação da Googolplex, ter as narinas incendiadas pela mistura quase alquímica de sudorese e gás carbônico do mundo real era como tomar um murro no meio do rosto. E foi assim que Macanudo iniciou sua jornada pelo centro da cidade. Desorientado, com medo e sentindo dores em lugares bem estranhos.

Era estranho ser o centro das atenções. Ele tentava, na medida em que podia, dar um sorriso bem grande, daqueles capazes de buscar a reciprocidade dos cafundós das personalidades apressadas dos transeuntes. Mesmo assim, a maioria das pessoas simplesmente virava o rosto. O desejo de chegar logo em casa aumentava a cada pedestre que passava direto – o que não era bom para os negócios – até que a exceção estacou-se em sua frente, tombou a cabeça um pouco de lado num gesto de curiosidade, e deixou escapar o mais bonito – e único – sorriso que Macanudo vira naquela manhã.

A exceção, uma senhora que já tinha passado há muito dos sessenta, fez um pequeno sinal com o indicador minúsculo, na direção da testa de Macanudo.

- O que é isto?

Era a deixa. E Macanudo praticamente vomitou o texto que havia decorado durante o curso de preparação na Googolplex.

***

- Olha só os preços disso!

- Disso o quê?

- Meu Deus do céu!

A mulher estende o dedo em direção à tarja de Macanudo, que, sem saber exatamente o que fazer, permanece parado. Ela detém a falange a poucos centímetros da testa de Macanudo.

- Posso?

- Bem…acho que pode sim.

- Você pode se abaixar só um pouco?

Macanudo não sabe o que pensar. Por que a mulher quer tocar sua testa? Ele até entende que há uma curiosidade natural pela novidade, e até esperava esse comportamento de uma criança, mas, bem, isso era estranho. A velha deslizava os dedos por sua testa, talvez experimentando a textura. Inclinado daquela maneira, Macanudo, para amenizar um pouco o constrangimento, fixou os olhos nos sapatos da mulher, duas pecinhas muito delicadas que já haviam saído de moda havia um bom tempo, e, mesmo assim, continuavam impecavelmente bonitos. A mulher dava pequenos toques em sua testa, como se estivesse manipulando um dispositivo touch-screen. E, até onde Macanudo sabia, a tarja não era touch-screen.

- Você não tem um teclado?

- Como?

- Um teclado virtual.

- Hã…presumo que não, senhora.

- Ah!

- O quê?

- Tem sim!

- Tenho?

- Tem. Ele apareceu aqui. Espere só um pouco.

E seguiu-se mais uma sequência de toques na testa. Às vezes a mulher parecia esquecer que atrás daquela tela havia uma cabeça e pressionava tão forte que Macanudo ficava a ponto de perder o equilíbrio. Depois ele se preocuparia com a funcionalidade que desconhecia. O que importava agora era agradar a cliente. Momentos depois, a mulher se deu por satisfeita.

- Obrigado.

- A senhora, hããã…encontrou todos os dados que procurava?

- Bem, na verdade eu estava verificando meus e-mails. Esqueci meu smartphone no escritório. Sabe como é…

- A senhora viu seus emails na minha testa?

- Vi sim. Você não sabia que fazia isso?

- Ah, claro! Sabia sim. É que, bem, os usuários não costumam dar muita bola para esse recurso, sabe? - Macanudo tentou disfarçar com um sorrisinho cambeta.

- Certo, certo. Muito obrigado, então. Tchau!

O mulher dá alguns passos e depois vira-se.

- Gostei da novidade!

Esse episódio foi como uma injeção de ânimo. Macanudo passou a sentir-se mais seguro, o que, de certa forma, passou a mesmerizar as pessoas. No restante do caminho - que incluiu uma viagem de metrô - ele seguiu à risca os procedimentos indicados no manual. As pessoas olhavam umas para as outras, paravam e sempre havia aquele mais extrovertido, que acabava tomando a frente da situação e perguntava:

- Mas que porra é essa na sua testa?

***

Obviamente, a primeira coisa que Macanudo fez ao chegar em casa foi ver sua página pessoal na Googolplex para checar quanto tinham lhe rendido as conversas que tivera rua afora. Os créditos ainda não constavam, mas ele sabia que poderia haver um período de vinte e quatro horas até que o saldo do Vetor estivesse devidamente atualizado. Estava no manual. Então ele se lembrou das funcionalidades que desconhecia e ligou para o número que lhe deram.

- Centro de Atendimento ao Vetor. Em que posso ajudá-lo, senhor…Macanudo?

- Como você sabe que sou eu?

- Bom, nós somos o Centro de Atendimento ao Vetor. Este número só é dado aos Vetores. E o senhor é único Vetor, sabe?

- Ahhhh…

- Em que posso ajudá-lo?

- Bom, é meio constrangedor falar isso, mas, bem, me aconteceu uma coisa meio estranha hoje na rua, em minha primeira empreitada, e, bem, vamos lá: eu tenho um browser na minha tarja?

- Tem sim senhor. Assim como um pacote de escritório completo e todo o restante do nosso portfólio. Tudo acessado pelo seu browser, na verdade.

- E porque ninguém me avisou disso?

- É que essa tecnologia foi desenvolvida após sua alta do nosso Centro de Recuperação.

- Mas eu saí de lá faz três horas!

Silêncio no outro lado da linha. Macanudo tem a impressão de ouvir o leve matraquear de um teclado.

- Desculpe, senhor. Isso foi uma coincidência, devo dizer. O senhor não foi notificado?

- Notificado? Como?

- Via email.

- Não, não fui não. Estou com minha caixa de entrada aberta e não há nenhuma mensagem de…

Macanudo se viu obrigado a interromper o comentário quando, repentinamente, surge uma mensagem da Googolplex em seu computador, indicando ter sido enviada quase quatro horas antes.

- Ei, recebi sua mensagem só agora!

- Veja só o senhor. Hoje é mesmo o dia das coincidências, não? Deve ter sido algum problema nos nossos servidores.

- É, deve ter sido mesmo. Tudo bem. Obrigado então. Como é seu nome?

- Pode me chamar de Junior.

- Tá bom, Junior. Acho que ainda vamos nos falar muitas vezes.

- Vamos sim, senhor.

(continua)

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February 18, 2008

ADSENSELESS - Parte 1

Filed under: Ficção, Adsenseless

Márcio Massula Jr.

        Macanudo Geist vinha de uma tradicional linhagem de tecnófilos, - o bom-senso do escrivão foi a única coisa a impedir que seu nome do meio fosse Playstation 2 - e todos acharam perfeitamente natural sua decisão de se filiar ao programa de Marketing CorporAltivo da Googolplex.

        Esse nome, aliás, um trocadilho pouco brilhante com palavras de ordem da empresa em questão, foi execrado num dos vários brainstormings feitos pelo filial regional, responsável pela criação e desenvolvimento do programa. Mas um executivo comentou com um subalterno, que comentou com outro, que enviou um email a uma publicação especializada em tecnologia, que lançou o termo no mercado antes mesmo que o serviço fosse anunciado oficialmente.

        O funcionário que deu a idéia não recebeu os créditos, aliás.

        O princípio era muito simples: a Googolplex colocaria anúncios nos corpos das pessoas, mediante um pagamento justo, evidentemente.

        Merchandising em peças de vestuário era algo que vinha sendo feito desde o século passado, portanto essa opção foi a primeira a ser descartada. As primeiras tentativas foram com a utilização de tatuagens UV. O problema era que os anúncios estavam restritos a um nicho muito específico de clientes potenciais – os frequentadores de casas noturnas. Uma evolução foram os pigmentos fotorreativos, que eram ativados de acordo com espectros de luz ambiente pré-programados. Mas, novamente, houve o problema de penetração dos anúncios, uma vez que eles eram definidos de acordo com o perfil do Vetor (o termo que a empresa utilizava para se referir às pessoas que se dignavam a gravar os anúncios em suas peles), e mudanças repentinas de religião, estado civil ou político costumavam por tudo a perder. Havia ainda os Vetores arrependidos - que não eram poucos. Eles renderem muita dor de cabeça aos advogados da empresa, já calejados em enfrentar nos tribunais pessoas que queriam que as tatuagens fossem retiradas antes do término do contrato. Mesmo que houvesse uma cláusula bem definida a respeito da quebra de contrato por parte dos contratados, no caso, os Vetores. Os contratos, aliás, eram verdadeiros labirintos jurídicos, redigidos em estilo quase barroco, expandindo o jargão legal para limites que iam além das capacidades cognitivas de uma pessoa normal. Os candidatos simplesmente desistiam na terceira ou quarta página, pulavam para o final - onde estavam grafados os valores que receberiam - e assinavam. Afinal, qual o problema de se andar com um anúncio estampado em seu próprio corpo por um período determinado de tempo?

        O próximo passo foi o que os técnicos da Googolplex chamaram de "Faixa de Anúncios", um dispositivo composto por uma tela de espessura microscópica, ligada a outros periféricos, que deveriam, por sua vez, ser implantados na caixa craniana dos Vetores. Essa mudança de processo acarretou, como era de se esperar, um aumento substancial nos pagamentos dos Vetores assim como no número de cláusulas e letras pequenas dos contratos de adesão.

        O funcionamento da Faixa de Anúncios, é tecnicamente complexo, mas funcionalmente simples: o dispositivo consiste de uma tarja de papel eletrônico, ultrafina, implantada na testa do usuário. A tarja é alimentada por uma bateria recarregada por movimento pendular ou por luz ambiente. Ela também conta com uma antena que pode captar sinais em qualquer localidade onde haja uma conexão Wi-Max disponível, o que significa - com exceção de umas poucas dezenas de comunidades com restrições religiosas - no mundo inteiro. Há também uma micro-câmera, de definição muito pequena, mas suficiente para captar trejeitos e expressões corporais de qualquer pessoa que conversasse com um Vetor. Ela ainda conta com microfones que captam as palavras-chave trocadas numa conversa e contextualizam os anúncios de acordo com as mesmas. Há ainda a ferramenta de condução, que são dois micromotores nos quais, nas pontas dos eixos, eram soldados pesos excêntricos que, assim como em smartphones e joysticks, ao girarem, provocam vibrações pequenas mas incômodas nas têmporas do Vetor, onde são implantadas. E, por fim, há um complexo sistema de biometria que monitora o estado físico do usuário, e, por exemplo, desliga a tarja ou ainda deixa-a em modo stand-by caso o Vetor não esteja conversando com alguém.

        Pelas cláusulas do contrato, os Vetores receberiam por produção. Isso significava que não era necessário cumprir horários ou metas, mas ficar em casa o dia inteiro não seria nada lucrativo. O contrato também não imputava qualquer tipo de restrição às ocupações pregressas dos Vetores, que poderiam continuar trabalhando e executando quaisquer outras atividades que lhe eram familiares. O sistema de crédito era um tanto obscuro, mas basicamente dependia do Vetor travar uma conversa que desse margem a todo tipo de assunto possível, que, por sua vez, daria margem a todo tipo de anúncio possível. O sistema da Faixa de Anúncios faria uma varredura no interlocutor do Vetor e mediria o interesse deste pelas mensagens e propagandas exibidas na tarja. Quanto maior o interesse, fosse demonstrado verbal ou gestualmente, maior o pagamento.

        A grande questão era que um Vetor, além de ter que ser extremamente desinibido - afinal, andar com uma tela implantada na testa não era tarefa para os mais comedidos - tinha também que ter muita, mas muita lábia. Porque, se para a maioria das pessoas, a oportunidade de entabular conversa com um desconhecido no meio da rua já não gerava boas expectativas, o que dizer de um desconhecido cuja testa cintilava anúncios diferentes a cada segundo? O trabalho do Vetor era prender a atenção de uma pessoa o maior tempo possível, sem se tornar um estorvo. A conversa deveria variar, ir de um lado ao outro, sem que o interlocutor percebesse. Embora houvesse um intenso treinamento, as capacidades inatas dos candidatos contavam muito, e tipos acanhados já eram eliminados logo nos primeiros estágios do processo seletivo. O Vetor deveria ter a capacidade de mudar o tema da conversa sem que o cliente percebesse. Tinha que ser dialético, de um jeito hegeliano. Ou heinsenbergiano. Enfim, tinha que vender o peixe. E bem.

        Ainda sob efeito de sedativos e analgésicos, ofuscado pela luz do sol e com a cabeça prestes a explodir de tanta dor, Macanudo passa pelas portas do centro médico da Googolplex.

        Ele tem que chegar em casa. Mas antes, tem que falar com uma pessoa. Qualquer uma.

        (continua)

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