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	<title>txt - ficção fast food</title>
	<link>http://txt.blogsome.com</link>
	<description>Ficção e Não-ficção</description>
	<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 22:51:21 +0000</pubDate>
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	<language>en</language>

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		<title>LIBRA, UM ESBOÇO</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/12/03/libra-um-esboco/</link>
		<comments>http://txt.blogsome.com/2008/12/03/libra-um-esboco/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 22:50:52 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Não-ficção</category>
	<category>Libra</category>
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		<description><![CDATA[	Já falei de LIBRA por aqui, antes. E esse post é particularmente esclarecedor.
 
	Se voc&ecirc; está com pregui&ccedil;a de ler velharia, recapitulo:
	 
	A idéia surgiu em 2005. LIBRA seria uma série de pequenas hqs de oito páginas, com histórias auto-contidas mas interligadas. Escrevi tr&ecirc;s roteiros (que hoje acho constrangedores), esbocei mais uns, e fiz o [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Já falei de LIBRA <a href="http://urobouro.blogspot.com/search/label/libra">por aqui, antes</a>. E <a href="http://urobouro.blogspot.com/2007/07/caf-libra-e-um-pouco-de-reengenharia.html#links">esse post</a> é particularmente esclarecedor.<br />
<p class="western"> </p>
	<p class="western">Se voc&ecirc; está com pregui&ccedil;a de ler velharia, recapitulo:</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">A idéia surgiu em 2005. LIBRA seria uma série de pequenas hqs de oito páginas, com histórias auto-contidas mas interligadas. Escrevi tr&ecirc;s roteiros (que hoje acho constrangedores), esbocei mais uns, e fiz o outline da série. Os roteiros passaram pelas m&atilde;os de tr&ecirc;s desenhistas, sendo que um deles chegou a fazer uns model sheets dos personagens e esbo&ccedil;ar as primeiras páginas do primeiro capítulo. Como tudo em minha vida que envolve a feitura de quadrinhos - com raras exce&ccedil;&otilde;es - n&atilde;o dá certo, o projeto acabou engavetado.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Depois, num arroubo de empolga&ccedil;&atilde;o, decidi espremer tudo num roteiro de cinema para um filme de uma hora e meia. Escrevi trinta páginas. Ent&atilde;o me dei conta de que, se para (n&atilde;o) produzir uma hq de oito páginas já tinha sido um verdadeiro parto, o que dizer de um filme. Engavetei.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">O problema era que a história falava alto. Ficava cochichando nos meus ouvidos. N&atilde;o me deixava dormir. N&atilde;o me deixava em paz.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">E só havia uma maneira, a meu alcance, de dar vaz&atilde;o a isso: a prosa. Mais uma vez, tentei dar sequ&ecirc;ncia na história de Ramiro, Matilda e companhia. Juntei todo o material e comecei a castigar as teclinhas pretas. Saiu um capítulo. Depois outro. E parou. Por motivos que n&atilde;o v&ecirc;m ao caso, deixei o material de lado.  </p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Mas é aquela história. Recentemente a coceira recome&ccedil;ou e me vi pensando em lugares, cenas, personagens, etc et al.  </p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Decidi TENTAR (notem a caixa-alta), a partir do ano que vem, escrever um capítulo disso por m&ecirc;s. Para um wannabe normal, acho que n&atilde;o seria t&atilde;o difícil assim desovar umas tr&ecirc;s mil palavras a cada trinta dias. Mas, para mim&#8230;</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Obviamente, esse trabalho vai correr em paralelo com as outras coisas que pretendo publicar (com uma periodicidade menor) no TXT.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">A idéia n&atilde;o é postar a história, capítulo a capítulo, mas dar ao leitor um vislumbre da coisa toda. Um capítulo aqui. Um perfil de personagem ali. Um excerto acolá. Uma idéia sendo considerada. Uma notícia. Uma notinha. Um comentário. Um link. Sei lá.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Enfim um, com o perd&atilde;o do trocadilho, livro aberto (<em>pero no mucho</em>).</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><a href="http://txt.blogsome.com/2008/12/03/libra-cap-1-linguas-mortas">LÍNGUAS MORTAS</a>, o primeiro capítulo, está repleto de erros e incongru&ecirc;ncias. Mas é um esbo&ccedil;o , um rascunho, e até o fim da história, muita coisa pode e deve mudar. Como sempre, conto com a opini&atilde;o de voc&ecirc;s.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>[LIBRA] CAP. 1 - LÍNGUAS MORTAS</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/12/03/libra-cap-1-linguas-mortas/</link>
		<comments>http://txt.blogsome.com/2008/12/03/libra-cap-1-linguas-mortas/#comments</comments>
		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 22:44:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Libra</category>
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		<description><![CDATA[	
Márcio Massula Jr. 
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Dona Matilda, n&atilde;o é melhor irmos?
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Calma, Gládio. Calma. Acho que hoje ainda vamos conseguir ouvir alguém. Vamos continuar.
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Sim senhora.
	&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para Ramiro, na hora do almo&ccedil;o, quando o sol bate inclemente e as pessoas&nbsp; inundam as ruas, a cidade parece irreal. Ele está há pelo menos quatro [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><!--[if gte mso 9]><xml>  <w :WordDocument>   </w><w :View>Normal</w>   <w :Zoom>0</w>   <w :HyphenationZone>21</w>   <w :PunctuationKerning/>   <w :ValidateAgainstSchemas/>   <w :SaveIfXMLInvalid>false</w>   <w :IgnoreMixedContent>false</w>   <w :AlwaysShowPlaceholderText>false</w>   <w :Compatibility>    <w :BreakWrappedTables/>    <w :SnapToGridInCell/>    <w :WrapTextWithPunct/>    <w :UseAsianBreakRules/>    <w :DontGrowAutofit/>   </w>   <w :BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4</w>   </xml>< ![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml>  <w :LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156">  </w> </xml>< ![endif]--><!--[if !supportAnnotations]--><!--[if gte mso 10]> <style>  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable 	{mso-style-name:&#8221;Tabela normal&#8221;; 	mso-tstyle-rowband-size:0; 	mso-tstyle-colband-size:0; 	mso-style-noshow:yes; 	mso-style-parent:&#8221;"; 	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; 	mso-para-margin:0cm; 	mso-para-margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:10.0pt; 	font-family:&#8221;Times New Roman&#8221;; 	mso-ansi-language:#0400; 	mso-fareast-language:#0400; 	mso-bidi-language:#0400;} </style> < ![endif]--><br />
<p class="MsoNormal"><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_1" href="#_msocom_1"></a>Márcio Massula Jr. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Dona Matilda, n&atilde;o é melhor irmos?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Calma, Gládio. Calma. Acho que hoje ainda vamos conseguir ouvir alguém. Vamos continuar.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Sim senhora.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para Ramiro, na hora do almo&ccedil;o, quando o sol bate inclemente e as <a>pessoas</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_3" href="#_msocom_3"></a>&nbsp; inundam as ruas, a cidade parece irreal. Ele está há pelo menos quatro horas caminhando atrás de um emprego, de uma oportunidade, de um vislumbre, de pelo menos uma chance de sair do po&ccedil;o que ele mesmo cavou e que fica mais fundo a cada dia. Seus pés doem, sua cabe&ccedil;a lateja, o suor escorre pelo seu corpo, empapando suas roupas, descendo entre os filetes da pasta plástica que contém um punhado de currículos desatualizados e mal-impressos, que provavelmente ter&atilde;o o efeito contrário do esperado por ele, que, aliás, n&atilde;o teve nenhuma participa&ccedil;&atilde;o na elabora&ccedil;&atilde;o dos mesmos, deixando o trabalho duro a cargo da filha mais velha, que ainda n&atilde;o passou dos treze anos de idade e dá os primeiros passos no mundo do processamento de textos.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Quem?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Mulher, casa dos trinta, alian&ccedil;a na m&atilde;o direita, vestida casualmente.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Quando?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Esquece. Entrou numa loja ali na esquina.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Certo. Quem?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <a>Um mar de gente</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_4" href="#_msocom_4"></a>. Era essa a analogia que sua cabe&ccedil;a inflamada evocava para o turbilh&atilde;o de pessoas que pipocava nas ruas, descrevendo movimentos que um dia provavelmente seriam equacionados por matemáticos e físicos, mas que agora só podiam ser explicados como isso, um mar de gente, que ia para lá e para cá, rebentando nas fachadas coloridas dos shoppings, dos centros comerciais, dos bancos, dos restaurantes e das ag&ecirc;ncias de empregos.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Homem, casa dos quarenta, alian&ccedil;a na m&atilde;o esquerda. Carregando uma pasta transparente cheia de papéis.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Quando?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Agora.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seu olhar deteve-se numa bunda particularmente redonda e vistosa, e ele quase n&atilde;o viu o pared&atilde;o formado pelo gigante negro parado &agrave; sua frente, acompanhado por uma mulher já madura, que lhe pareceu uma apresentadora de telejornal.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O homem era, literalmente, do tamanho de um armário. Dos bem grandes. A mulher usava óculos escuros enormes, mas que caíam bem em seu rosto. Era uma mulher pequena, magra, contudo, atraente, e em tempos de vacas gordas, Ramiro certamente dispararia uma cantada chula &agrave; queima-roupa. Mas o momento n&atilde;o era dos melhores. E havia o gigante.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent&atilde;o, a mulher falou.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Senhor, será que podemos nos falar por uns minutos?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mesmo com todo ran&ccedil;o exalado pela cidade, era possível sentir o cheiro da mulher, um aroma t&ecirc;nue de&#8230; rosas. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Olha, dona, agora n&atilde;o vai dar n&atilde;o.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Prometo que n&atilde;o vamos tentar vender nada, nem convert&ecirc;-lo a qualquer religi&atilde;o. É apenas uma pesquisa.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Que tipo de pesquisa. É pro governo?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Digamos que tenha cunho social.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - E a opini&atilde;o do senhor é muito importante para nós. - o gigante pela primeira vez abriu a boca, e disse isso com um trejeito até bonach&atilde;o, o que, curiosamente, dissipou a atmosfera predatória que o <a>envolvia</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_5" href="#_msocom_5"></a>.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ramiro só <a>come&ccedil;ou </a><a name="_msoanchor_6" href="#_msocom_6"></a>a desconfiar quando já tinha passado da terceira cerveja. Os dois estavam bebendo refrigerantes. Os detalhes já tinham ganhado contornos esfuma&ccedil;ados, e até que estava bom. Os dois realmente n&atilde;o tinham, até aquele momento, tentado vender nada, nem convert&ecirc;-lo a qualquer religi&atilde;o. Ramiro, com a garganta lubrificada, disparou a falar sobre amenidades, ao passo que os dois, vez ou outra, se entreolhavam, esbo&ccedil;avam sorrisos e teciam algum comentário vago sobre o que quer que estivesse sendo discutido. Quando terminou seu repertório, Ramiro passou a observar os transeuntes, enquanto pensava qual seria o número de garrafas de cerveja necessário para ultrapassar o limite das boas maneiras.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - É tudo por nossa conta, seu Ramiro. Pode ficar tranquilo, certo? - A mulher, que tinha se apresentado como Matilda, quebrou o sil&ecirc;ncio.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - N&atilde;o leva a mal n&atilde;o, dona. Mas é que t&ocirc; achando essa pesquisa meio estranha.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Bem, na verdade, estamos tentando quebrar o gelo, porque o assunto sobre o qual iremos falar é, um tanto&#8230; como direi? Indigesto.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os p&ecirc;los da nuca dele se eri&ccedil;aram.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Como assim?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Só um momento, Ramiro. Primeiro, vamos &agrave;s formalidades. O Gládio aqui vai cuidar dos detalhes.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O assistente de Matilda, todo sorriso, abriu a valise que carregava consigo e tirou um formulário.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Gládio?&nbsp; - e só ent&atilde;o Ramiro se deu conta de que ainda n&atilde;o sabia o nome do homem - Desculpa a curiosidade, mas é um nome bem diferente.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gládio, que preenchia um dos formulários, respondeu, sem tirar os olhos do papel, mas, mesmo assim, parecendo simpático o suficiente.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Na verdade é sobrenome.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Ah, tá.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Pronto.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gládio olhou para Matilda e em seguida apontou sua arcada dentária imaculadamente branca para Ramiro, que já formulava a hipótese de que, se um homem daquele tamanho n&atilde;o estava quebrando costelas e cabe&ccedil;as num ringue de vale-tudo, só podia ser gay.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Se o senhor n&atilde;o se importar, claro, vamos necessitar de alguns dos seus dados. Mas nenhum deles é obrigatório, entende. O senhor só vai ced&ecirc;-los se assim desejar.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quase dava vontade de rir ouvindo a mulher falar, com seu portugu&ecirc;s empolado.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Escuta dona Matilda. É&#8230; eu vou ganhar alguma coisa com isso?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Gládio se adiantou.</p>
	<p class="MsoNormal">- Pode ser que sim.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Mas n&atilde;o prometemos nada, certo? - Matilda finalizou, encarando Gládio. Parecia n&atilde;o ter gostado da interrup&ccedil;&atilde;o do seu assistente.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Profiss&atilde;o, seu Ramiro?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Metalúrgico.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Casado?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Sim.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Filhos?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Dois. Quer dizer, duas.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Forma&ccedil;&atilde;o?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ramiro ignorou a última quest&atilde;o. Alguma coisa lhe afligia naquela situa&ccedil;&atilde;o toda e ele ainda n&atilde;o sabia muito bem o qu&ecirc;. Virou-se para Matilda.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Escuta dona, n&atilde;o leva a mal, mas essa pesquisa é sobre o qu&ecirc;, afinal? C&ecirc;s me pegaram na rua, me pagaram uma cerva, a gente tava aqui batendo um papo legal. Só que, quando a esmola é muita, o pobre desconfia, né n&atilde;o?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao invés de responder, Matilda esticou o bra&ccedil;o em dire&ccedil;&atilde;o a Gládio e ficou com a m&atilde;o estendida, esperando algo que ele já tirava de dentro de sua valise. Ramiro percebeu que a desenvoltura dela o assustava. Gládio depositou nas m&atilde;os dela uma pasta-arquivo parda, volumosa e meio surrada pelo manuseio constante. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Mas o senhor é curioso mesmo, hein? - para Ramiro, o comentário soou mais como um gracejo do que como uma reprimenda, embora a linguagem corporal de Matilda n&atilde;o tenha feito nada para corroborar isso. - Tudo bem. Vamos ao que interessa.</p>
	<p class="MsoNormal">Matilda coloca a pasta na mesa e pousa as duas m&atilde;os espalmadas sobre ela. </p>
	<p class="MsoNormal">- Como eu havia dito no caminho até aqui, nossa pesquisa é opinativa. Vamos confrontar o senhor a uma situa&ccedil;&atilde;o&#8230; extrema, e, bem, está vendo esta pasta? - Ela deu um tapinha na pasta, para enfatizar a última palavra.</p>
	<p class="MsoNormal">O gar&ccedil;om coloca mais uma garrafa de cerveja na mesa, em frente a Ramiro, que resmunga:</p>
	<p class="MsoNormal">- P&ocirc;, dona, é claro que t&ocirc;! Tá achando que eu sou&#8230; h&atilde;&#8230; desculpa. Desculpa.</p>
	<p class="MsoNormal">Ela esbo&ccedil;ou um sorriso fantasmagórico que durou mais do que Ramiro considerava suficiente.</p>
	<p class="MsoNormal">- Tudo bem. Sem problema. Eu convivo muito bem com a minha cegueira. </p>
	<p class="MsoNormal">Ramiro tratou logo de encher seu copo de cerveja, mais uma vez. Embora n&atilde;o fosse fazer muita diferen&ccedil;a, ele evitou olhar para ela. Gládio, como sempre, parecia estar em outro planeta. </p>
	<p class="MsoNormal">- Nessa pasta existe um dossi&ecirc; completo sobre o caso da pedreira, o senhor se lembra? Passou em todos os jornais&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">Ela empurrou a pasta na dire&ccedil;&atilde;o de Ramiro. </p>
	<p class="MsoNormal">- Daquela menininha?</p>
	<p class="MsoNormal">Ele ficou olhando para a pasta, como se ela estivesse contaminada com todo tipo de praga altamente infecciosa conhecida pelo homem.</p>
	<p class="MsoNormal">- Sim, ela mesma.</p>
	<p class="MsoNormal">Ele come&ccedil;a a abrir a pasta, mas hesita.</p>
	<p class="MsoNormal">- Olha dona, eu n&atilde;o sei se quero ver isso n&atilde;o, hein?</p>
	<p class="MsoNormal">- Se n&atilde;o quiser olhar, n&atilde;o precisa, seu Ramiro. Mas seria importante para o nosso trabalho.</p>
	<p class="MsoNormal">Ramiro engole em seco e abre a primeira página. Seus batimentos cardíacos aceleram. Ele havia se preparado para ver a coisa mais horrível de sua vida, e um boletim de ocorr&ecirc;ncia n&atilde;o era bem o que estava esperando. Sem perceber, ele deixa escapar o ar que tinha prendido devido &agrave; tens&atilde;o, o que arranca uma risadinha de Gládio e um dos outros sorrisos macabros de Matilda.</p>
	<p class="MsoNormal">- Ela ficou em cativeiro por dez dias&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">Ramiro vai examinando a pasta, lentamente, compenetrado, tentando atravessar todo o léxico jurídico daqueles documentos e, subconscientemente, evitando encontrar qualquer descri&ccedil;&atilde;o explícita ao que acontecera com a menina.</p>
	<p class="MsoNormal">- &#8230;quando os animais descobriram que a polícia já tinha uma boa pista sobre o caso&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">- Minha Virgem Santíssima!!!!</p>
	<p class="MsoNormal">- &#8230; fizeram o que presumo que o senhor esteja vendo nesse exato momento.</p>
	<p class="MsoNormal">A foto era bem nítida e estava solta entre as folhas dos relatórios. Havia outras, mas seus olhos se detiveram nessa. Uma menina com n&atilde;o mais de quatro anos jazia sobre um peda&ccedil;o de lona preta, ao lado de um buraco aberto na terra. N&atilde;o era possível ver muito do cenário, mas, pela quantidade de vegeta&ccedil;&atilde;o rasteira, era fácil presumir que a foto foi tirada no matagal onde acharam o corpo. Havia uma cratera no que um dia tinha sido o rostinho da menina. <a>Toda a metade direita do cr&acirc;nio estava afundada.</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_7" href="#_msocom_7"></a> Ela foi morta a marretadas. Ramiro n&atilde;o p&ocirc;de evitar imaginar como os sequestradores tinham feito aquilo. Teriam eles segurado a crian&ccedil;a? Ou simplesmente deram-lhe um golpe, sem que ela percebesse? <em>&ldquo;E na cabecinha dela, meu Deus do Céu!&rdquo;</em> O que teria se passado? O est&ocirc;mago dele manifestou-se e, num gesto de asco, ele empurrou a pasta em dire&ccedil;&atilde;o &agrave; Matilda.</p>
	<p class="MsoNormal">- Como o senhor deve saber, os sequestradores foram pegos, e tiveram vida curta na pris&atilde;o. Mas o que ninguém sabe é que o verdadeiro culpado ainda está &agrave; solta.</p>
	<p class="MsoNormal">- Como assim?</p>
	<p class="MsoNormal">- A foto dele está na última página.</p>
	<p class="MsoNormal"><a>Ramiro </a><a name="_msoanchor_8" href="#_msocom_8"></a>puxa para si a pasta e procura a foto, tomando cuidado para n&atilde;o abrir novamente no laudo da perícia.</p>
	<p class="MsoNormal">- Ele era sócio do pai da crian&ccedil;a. Foi ele quem planejou o sequestro e também foi ele quem avisou a polícia.</p>
	<p class="MsoNormal">- Mas que linguarudo filha-da&#8230; desculpa, dona.</p>
	<p class="MsoNormal">- N&atilde;o há de qu&ecirc;, ele é realmente isso que voc&ecirc; ia falar. Mas agora finalmente chegamos ao ponto, seu Ramiro.</p>
	<p class="MsoNormal">O álcool já lhe embotava o raciocínio, e a única coisa na qual Ramiro conseguia pensar era no que faria se aquilo tivesse acontecido com uma das suas <a>filhas.</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_9" href="#_msocom_9"></a></p>
	<p class="MsoNormal">- Se o senhor tivesse os recursos e a oportunidade de punir este homem, o que voc&ecirc; faria? Esque&ccedil;a as leis. Eu quero saber o que Ramiro, homem e pai, faria.</p>
	<p class="MsoNormal">- Olha dona, na minha terra a gente ia pegar um infeliz desses e ia arrancar a língua dele, só pra come&ccedil;ar. N&atilde;o é assim que fazem lá nas <em>arábia</em>?</p>
	<p class="MsoNormal">- Acho que a idéia é a mesma. Ent&atilde;o era isso o que o senhor faria mesmo? Esta seria a sua decis&atilde;o?</p>
	<p class="MsoNormal">- Seria dona. Seria sim. </p>
	<p class="MsoNormal">- Sabe, me ocorreu uma coisa interessante agora&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">- O qu&ecirc;?</p>
	<p class="MsoNormal">- Só uma curiosidade. A palavra decis&atilde;o vem do latim <em>de-cidere</em>. Significa separar, cortar.</p>
	<p class="MsoNormal">- H&atilde;?</p>
	<p class="MsoNormal">- É latim. Uma língua morta, seu Ramiro.</p>
	<p class="MsoNormal">- P&ocirc;, dona! Eu sei o que é latim. Eu n&atilde;o tinha era entendido o que a senhora tinha falado.</p>
	<p class="MsoNormal">- Bom, ent&atilde;o acho que agora é minha vez de pedir desculpas.</p>
	<p class="MsoNormal">Nesse momento, Gládio desceu da estratosfera e se reintegrou &agrave; conversa. Pediu licen&ccedil;a a Ramiro, puxou a pasta-arquivo e guardou-a em sua valise. Depois, sem se virar para Matilda, disse:</p>
	<p class="MsoNormal">- Vamos?</p>
	<p class="MsoNormal">- Sim. Acho que já acabamos por aqui. Bem, era só isso, seu Ramiro. Agradecemos a sua coopera&ccedil;&atilde;o.</p>
	<p class="MsoNormal">Os dois se levantaram e Ramiro ficou apreensivo com a possibilidade de ter que arcar com as despesas sozinho, mas Gládio se dirigiu ao interior do bar, de carteira em punho, e Ramiro conseguiu perceber a troca de notas entre o gigante e o caixa do bar. Matilda ficou parada ao lado da mesa, como uma estátua, fitando (metaforicamente, é claro) algum ponto oculto no horizonte. Assim que Gládio se aproximou, Matilda, como se tivesse feito um movimento ensaiado, alinhou-se &agrave; ele e come&ccedil;ou a andar, em dire&ccedil;&atilde;o ao centro da cidade. Após dar uns poucos passos, ela se virou, apontando as lentes escuras enormes em dire&ccedil;&atilde;o de Ramiro e disse.</p>
	<p class="MsoNormal">- Obrigada, mais uma vez.</p>
	<p class="MsoNormal">E, mais uma vez, a temperatura do sangue dele ficou abaixo de zero. Depois, quando ela estava de costas, Ramiro finalmente conseguiu divisar os contornos de uma bundinha que ainda deveria estar bem firme. E isso foi suficiente para afastar as impress&otilde;es negativas que veio colecionando ao longo da tarde.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p align="center" class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p align="center" class="MsoNormal">***</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Ramiro n&atilde;o tinha comentado com a esposa a entrevista do dia anterior. Pelo menos, n&atilde;o aquela. Na verdade, o acontecimento já tinha sido quase que totalmente eclipsado por necessidades mais urgentes, a saber, um emprego.</p>
	<p class="MsoNormal">Sobre a mesa da sala, havia várias páginas de jornal. Os classificados, obviamente. Havia anúncios circulados em amarelo, outros marcados com um &quot;x&quot; vermelho, outros cobertos de verde, e várias outras combina&ccedil;&otilde;es possíveis entre as cores e formas, que constituíam a simbologia do desespero desse homem. Com uma caneta pendurada na orelha e alguns pincéis coloridos nas m&atilde;os, ele observava tudo da mesma maneira que um general vislumbra o mapa do terreno onde fará seu próximo ataque.</p>
	<p class="MsoNormal">O fato de n&atilde;o ter que pagar aluguel era uma das poucas coisas que mantinha Ramiro a uma dist&acirc;ncia saudável (mas cada vez menor) de um infarto. Desempregado havia dois anos, ele e Cida viviam dos bicos que ambos faziam. Eles souberam administrar o dinheiro da rescis&atilde;o de Ramiro e atacavam em duas frentes: Cida era confeiteira competente e nunca ficava sem trabalho. Ele tinha comprado uma Kombi usada e a princípio tinha tentado a sorte no ramo dos transportes ilegais, mas a fiscaliza&ccedil;&atilde;o e as máfias foram eficazes em abreviar seu empreendimento. Por fim, ele pregou algumas folhas impressas na velha jato-de-tinta, onde podia-se ler FAZ-SE CARRETO em letras um tanto quanto coloridas, outra das obras de Vivian.&nbsp; Na verdade, as coisas nem estavam t&atilde;o ruins, por assim dizer. As contas estavam sob controle (<em>homem que n&atilde;o tem dívida n&atilde;o é homem</em> era um dos seus mantra pessoais), mas a simples perspectiva de que as tudo pudesse dar para trás de uma hora para outra era demais para ele, o que tornava quase religiosa sua obsess&atilde;o por um emprego <em>fichado</em>.</p>
	<p class="MsoNormal">A casa tinha sido projetada e construída por ele mesmo, o que significava que boa parte dos preceitos básicos da arquitetura tinham sido desconsiderados. A luz costumava vir por &acirc;ngulos estranhos, a chuva se empo&ccedil;ava em locais específicos da laje e as instala&ccedil;&otilde;es elétricas vez ou outra presenteavam os habitantes com choques na válvula do chuveiro e sabe-se lá mais <a>onde</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_10" href="#_msocom_10"></a>. De qualquer maneira, isso era o que menos lhe importava. A casa própria, erguida contra todas probabilidades, funcionava como uma espécie de talism&atilde; auto-afirmativo. Ele costumava pensar que, se p&ocirc;de fazer aquilo, poderia fazer qualquer coisa. </p>
	<p class="MsoNormal">As duas gesta&ccedil;&otilde;es de Cida tinham deixado sua marca e ela n&atilde;o era mais a mulher esbelta que Ramiro conhecera muitos anos antes. Mas, mesmo depois desse tempo todo, ele continuava achando sua mulher muito atraente, embora nunca verbalizasse isso, nem sob tortura</p>
	<p class="MsoNormal">- E aí, c&ecirc; acha que vai conseguir alguma coisa logo?</p>
	<p class="MsoNormal">- Vou sim, minha nega, acho que vou sim. Quem sabe hoje eu n&atilde;o consigo alguma coisa?</p>
	<p class="MsoNormal">A campainha tocou. </p>
	<p class="MsoNormal">- Deixa que eu atendo. - ela se dirigiu &agrave; porta, enxugando as m&atilde;os num peda&ccedil;o de pano velho. Passados alguns minutos, ela retornou, carregando uma caixa embrulhada em papel pardo.</p>
	<p class="MsoNormal">- C&ecirc; encomendou alguma coisa?</p>
	<p class="MsoNormal">- N&atilde;o. Porqu&ecirc;?</p>
	<p class="MsoNormal">- Essa caixa tá com o seu nome.</p>
	<p class="MsoNormal">- Pra mim? Ué?</p>
	<p class="MsoNormal">- Bonita, né? Quem será que mandou?</p>
	<p class="MsoNormal">Fora o nome e endere&ccedil;o de Ramiro, n&atilde;o havia mais nenhuma indica&ccedil;&atilde;o na <a>caixa</a><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msoanchor_11" href="#_msocom_11"></a>. Ele ficou contemplando o embrulho, tentando puxar da memória quem poderia ter mandado aquilo, ou que data especial poderia ser o dia de hoje. Ent&atilde;o lhe ocorreu <a>que poderia ser o </a><a name="_msoanchor_12" href="#_msocom_12"></a>pr&ecirc;mio que Matilda disse que talvez ganhasse. Decidiu que n&atilde;o comentaria nada, por enquanto. Cida era uma mulher pacata, mas seu humor poderia se transformar completamente caso ela soubesse que o marido tinha bebido cerveja com uma mulher. Mesmo que a mulher estivesse acompanhada por um dos maiores homens que ele já tinha visto, mesmo que fosse só uma pesquisa (estranha, é verdade), <a>mesmo que a imagem da </a><a name="_msoanchor_13" href="#_msocom_13"></a>crian&ccedil;a com o rosto esmagado tenha escapado dos rec&ocirc;nditos de sua memória como uma erup&ccedil;&atilde;o vulc&acirc;nica.</p>
	<p class="MsoNormal">- C&ecirc; n&atilde;o vai abrir?</p>
	<p class="MsoNormal">- Vou sim.</p>
	<p class="MsoNormal">Ela trouxe uma faca de manteiga e ele come&ccedil;ou a abrir o embrulho. Abaixo do papel de embrulho, havia o papel&atilde;o em si, muito bem lacrado com fita-adesiva e sem nenhum adere&ccedil;o que indicasse a sua proced&ecirc;ncia. Ramiro ficou intrigado. A caixa era leve. Ele chacoalhou e percebeu que havia alguma coisa solta lá dentro. Aparentemente, seu pr&ecirc;mio n&atilde;o passaria de um brinde. O que seria? Uma agenda? Um conjunto de canetas? Um calculadora? A espera deixava Cida cada vez mais angustiada e ela rodeava o marido num misto de atra&ccedil;&atilde;o e rever&ecirc;ncia, como uma mosca ao redor de uma l&acirc;mpada incandescente.</p>
	<p class="MsoNormal">Ramiro passou a faca pelo adesivo que mantinha a caixa lacrada e viu o que havia lá dentro antes que o cheiro chegasse &agrave;s suas narinas.</p>
	<p class="MsoNormal">- Minha Virgem Santíssima!!!</p>
	<p class="MsoNormal">Ele arremessou a caixa num canto da sala, fazendo com que seu conteúdo ficasse esparramado no ch&atilde;o. Cida, ainda movida pela curiosidade, se aproximou do objeto, mas desviou a rota assim que percebeu do que se tratava, indo vomitar no quintal.</p>
	<p class="MsoNormal">Ramiro ficou estático, tremendo. N&atilde;o sabia o que fazer. Ouvia sua mulher devolver a comida e teve vontade de lhe perguntar o que acontecia, mas nenhuma palavra saiu de sua boca. Ela voltou, meio receosa, como se o que quer que estivesse dentro da caixa fosse criar vida e sair correndo atrás dela. Ambos se aproximaram, bem devagar, <a>protegendo </a><a name="_msoanchor_14" href="#_msocom_14"></a>as narinas.</p>
	<p class="MsoNormal">- Qu&ecirc; que é isso, Miro?</p>
	<p class="MsoNormal">- Acho que é uma&#8230; língua.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">P.S.: Para os curiosos, as palavras em azul marcam os trechos que est&atilde;o com comentários no arquivo original.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<div>
<div><!--[if !supportAnnotations]--><br />
<div class="msocomtxt"><!--[endif]--><!--[if !supportAnnotations]--><a name="_msocom_5"></a><!--[endif]--></div>
</div>
  </div>
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		<item>
		<title>ADSENSELESS - Parte 5</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/12/03/adsenseless-parte-5/</link>
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		<pubDate>Wed, 03 Dec 2008 01:10:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Adsenseless</category>
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		<description><![CDATA[	Márcio Massula Jr.  
	(Chegou agora? Ok: Parte 1, Parte 2, Parte 3 e Parte 4)  
	&nbsp;
		Macanudo notou que, ultimamente, Júnior já n&atilde;o demonstrava sua habitual paci&ecirc;ncia. Ou melhor, n&atilde;o demonstrava mais nada, uma vez que n&atilde;o atendia mais as liga&ccedil;&otilde;es de Macanudo, que come&ccedil;ou a desconfiar que insistir na rescis&atilde;o de seu contrato [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Márcio Massula Jr.  </p>
	<p class="western">(Chegou agora? Ok: <a href="http://txt.blogsome.com/2008/02/18/adsenseless-parte-1">Parte 1</a>, <a href="http://txt.blogsome.com/2008/05/20/adsenseless-parte-2">Parte 2</a>, <a href="http://txt.blogsome.com/2008/07/21/adsenseless-parte-3">Parte 3</a> e <a href="http://txt.blogsome.com/2008/09/24/adsenseless-parte-4">Parte 4</a>)  </p>
	<p>&nbsp;</p>
	<p class="western">	Macanudo notou que, ultimamente, Júnior já n&atilde;o demonstrava sua habitual paci&ecirc;ncia. Ou melhor, n&atilde;o demonstrava mais nada, uma vez que n&atilde;o atendia mais as liga&ccedil;&otilde;es de Macanudo, que come&ccedil;ou a desconfiar que insistir na rescis&atilde;o de seu contrato com a Plex n&atilde;o tinha sido uma jogada muito inteligente.</p>
	<p class="western">	Nas primeiras vezes, Junior simplesmente tentava dissuadir Macanudo, dizendo que tudo iria passar e que o contrato era por tempo limitado. Bastava que o primeiro esperasse. Mas, para Macanudo, esperar estava fora de cogita&ccedil;&atilde;o. Ele estava perdendo a mulher que amava, e aquilo poderia deixar sequelas emocionais para o resto da vida.</p>
	<p class="western">	Quando Macanudo ficou muito incisivo, Junior passou a lembrá-lo de várias cláusulas obscuras do contrato, sendo que nas últimas vezes ele chegou mesmo a perder a compostura, algo incomum numa pessoa treinada para lidar com o público.</p>
	<p class="western">	Um dia Macanudo recebe uma liga&ccedil;&atilde;o. É um terapeuta, contratado pela Plex. Ele quer conversar com Macanudo para checar suas condi&ccedil;&otilde;es psicológicas. Macanudo v&ecirc; uma oportunidade naquilo e capricha. N&atilde;o que houvesse muita necessidade. A tens&atilde;o das últimas semanas devastou-o espiritualmente. As sess&otilde;es, sempre na casa de Macanudo, eram compostas por longos bate-papos, onde o psicólogo se limitava a pontuar a conversa assentindo com a cabe&ccedil;a e tomando notas em seu netbook. Em alguns momentos, o psicólogo parecia mais interessando nos anúncios que a Faixa estava gerando do que na conversa em si.</p>
	<p class="western">	Alguns dias depois, as sess&otilde;es terminaram. Macanudo aguardava ansioso pela resposta. Descobriu que teria que passar pelas m&atilde;os de outros especialistas, que analisariam outros aspectos do seu quadro clínico.  </p>
	<p class="western">	Ent&atilde;o veio a resposta. Ele estava apto a dar continuidade nas suas fun&ccedil;&otilde;es para a Googolplex. Aquilo era <em>apenas</em> tens&atilde;o, e poderia ser tratada de outras maneiras. Exercícios, e, porque n&atilde;o, uma nova namorada.</p>
	<p class="western">	Macanudo n&atilde;o concordava, mas quem dizia aquilo eram os médicos, e os médicos eram infalíveis. Só lhe restava derivar pela cidade, trocando sorrisos falsos com pessoas que n&atilde;o estavam mais t&atilde;o interessadas no que se passava em sua cabe&ccedil;a.</p>
	<p class="western">	Macanudo n&atilde;o aproveitou o hype. N&atilde;o tirou vantagem do momento, e agora ele percebia isso vendo que o número de ocorr&ecirc;ncias que remetiam ao nome dele ou &agrave; Faixa de Anúncios caia vertiginosamente. Logo era seria passado, notícia velha, e o peso da sua decis&atilde;o se tornaria muito maior. Ele falou a respeito disso com Chico, que, inexplicavelmente, n&atilde;o deu muita aten&ccedil;&atilde;o ao assunto. Logo ele, a primeira, talvez segunda pessoa na fila dos que achincalhariam Macanudo pelo resto da vida quando ele finalmente se desse por vencido. Na verdade, a última conversa que tiveram foi sobre a Faixa. Chico queria saber se os anúncios contextualizados exibiriam conteúdo pornográfico quando Macanudo estivesse tendo rela&ccedil;&otilde;es com &Acirc;ndr&ecirc;a - ou com qualquer outra pessoa, embora a segunda op&ccedil;&atilde;o estivesse muito longe de ser verdade. Macanudo ficou sem saber  o que responder, mas disse ao amigo que se lembrava de algo sobre um filtro de conteúdo. N&atilde;o sabia exatamente como funcionava.</p>
	<p class="western">	Um dia ele entra em uma loja de sapatos e fica vendo alguns modelos que talvez pudessem agradar &Acirc;ndr&ecirc;a. Existia a chance de que um presente normal, vindo de um cara que queria voltar ao normal, fizesse com que ela reconsiderasse tudo. Ele se aproxima de uma vendedora. Ela dá um sorriso, daqueles que as pessoas costumam soltar quando est&atilde;o frente &agrave; frente com celebridades em declínio vertiginoso. Os alem&atilde;es t&ecirc;m uma palavra para isso. Schadenfreude.</p>
	<p class="western">	- Oi.</p>
	<p class="western">	- Olá! Precisa de ajuda, seu Macanudo?</p>
	<p class="western">	Macanudo já tinha se acostumado com desconhecidos chamando-o pelo nome.</p>
	<p class="western">	- Preciso sim. Quanto é aquele sapado ali?</p>
	<p class="western">	A mo&ccedil;a pensa em consultar o pre&ccedil;o, mas vira-se para ele, sem saber direito o que fazer. Macanudo percebe aquilo. Acha que ela está constrangida.</p>
	<p class="western">	- Algum problema?</p>
	<p class="western">	- Olha, seu Macanudo&#8230; isso é alguma pegadinha?</p>
	<p class="western">	- Pegadinha?</p>
	<p class="western">	- É.</p>
	<p class="western">	Macanudo n&atilde;o sabe o que dizer. A mo&ccedil;a certifica-se que n&atilde;o há ninguém mais ouvindo os dois. Ent&atilde;o volta &agrave; conversa.</p>
	<p class="western">	- Isso mesmo. Seu Macanudo, eu sou nova aqui, sabe? N&atilde;o queria queimar meu filme. Preciso desse emprego. Diz que n&atilde;o é uma pegadinha.</p>
	<p class="western">	- Mas n&atilde;o é mesmo! Mo&ccedil;a, tá tudo bem com voc&ecirc;?</p>
	<p class="western">	- Tá sim. É que sua testa tá mostrando o anúncio de um concorrente. E lá o pre&ccedil;o tá menor.</p>
	<p class="western">	Macanudo pára em frente a uma das vitrines e tenta enxergar o anúncio. Devido ao reflexo, n&atilde;o consegue. Tem que se contentar com a palavra da vendedora, que n&atilde;o teria motivos para mentir. Teria?</p>
	<p class="western">	Ele se desculpa e sai apressado da loja. A mo&ccedil;a, mais confiante, ainda tenta finalizar a venda. Macanudo n&atilde;o dá ouvidos. A situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o foi especialmente constrangedora, mas foi a gota d&#8217;água.	</p>
	<p align="center" class="western">*** </p>
	<p class="western">	Dybbuk Júnior era o executivo que toda empresa sonhava em contratar. Possuía um currículo impecável, um sorriso radiante, quatro por cento de gordura no corpo e a total incapacidade de sentir remorso pelo que quer que fosse.</p>
	<p class="western">	O acr&ocirc;nimo que definia seu cargo tinha oito letras, sendo seis delas consoantes, o que assemelhava tudo a um palavr&atilde;o do leste europeu. Por isso as pessoas costumavam referir-se a ele apenas como &quot;O Diretor&quot;.</p>
	<p class="western">	Quando sua secretária lhe comunica pelo interfone que Macanudo Geist estava amea&ccedil;ando fazer um esc&acirc;ndalo em sua ante-sala caso n&atilde;o fosse atendido, ele, no mesmo tom monocórdio que usava quando pedia um café ou quando, por esporte, obliterava a auto-estima de um funcionário, pede para que ela deixe-o entrar. Enquanto ouve os passos se aproximando da porta construída com uma madeira ilegal em onze países, ele respira fundo, pressiona o topo da pir&acirc;mide nasal como polegar e o indicador e só consegue pensar em uma coisa: <em>puta que o pariu!</em></p>
	<p class="western">(continua) </p>
	<p class="western">
	<p class="western">
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		<title>MIDRAXE</title>
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		<pubDate>Sat, 01 Nov 2008 02:30:55 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Midraxe</category>
	<category>Velharia</category>
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		<description><![CDATA[	
Era mais uma daquelas tardes monótonas de ter&ccedil;a. Meu aparelho de ar-condicionado urrava pedindo clem&ecirc;ncia, mas o calor senegalesco tornava-me um verdadeiro tirano com as utilidades do lar. 
	Embora, claro, eu n&atilde;o estivesse em meu lar. 
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			<content:encoded><![CDATA[	<p><!--[if gte mso 9]><xml>  <w :WordDocument>   </w><w :View>Normal</w>   <w :Zoom>0</w>   <w :HyphenationZone>21</w>   <w :PunctuationKerning/>   <w :ValidateAgainstSchemas/>   <w :SaveIfXMLInvalid>false</w>   <w :IgnoreMixedContent>false</w>   <w :AlwaysShowPlaceholderText>false</w>   <w :Compatibility>    <w :BreakWrappedTables/>    <w :SnapToGridInCell/>    <w :WrapTextWithPunct/>    <w :UseAsianBreakRules/>    <w :DontGrowAutofit/>   </w>   <w :BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4</w>   </xml>< ![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml>  <w :LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156">  </w> </xml>< ![endif]--><!--[if !mso]><object classid="clsid:38481807-CA0E-42D2-BF39-B33AF135CC4D" id=ieooui></object> <style> st1\:*{behavior:url(#ieooui) } </style> < ![endif]--><!--[if gte mso 10]> <style>  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable 	{mso-style-name:&#8221;Tabela normal&#8221;; 	mso-tstyle-rowband-size:0; 	mso-tstyle-colband-size:0; 	mso-style-noshow:yes; 	mso-style-parent:&#8221;"; 	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; 	mso-para-margin:0cm; 	mso-para-margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:10.0pt; 	font-family:&#8221;Times New Roman&#8221;; 	mso-ansi-language:#0400; 	mso-fareast-language:#0400; 	mso-bidi-language:#0400;} </style> < ![endif]--><br />
<p class="MsoPlainText">Era mais uma daquelas tardes monótonas de ter&ccedil;a. Meu aparelho de ar-condicionado urrava pedindo clem&ecirc;ncia, mas o calor senegalesco tornava-me um verdadeiro tirano com as utilidades do lar. </p>
	<p class="MsoPlainText">Embora, claro, eu n&atilde;o estivesse em meu lar. </p>
	<p class="MsoPlainText">Passava a maior parte do dia (e &agrave;s vezes a noite também) ali, mas aquele escritório, de maneira nenhuma, poderia ser chamado de lar.</p>
	<p class="MsoPlainText">Ou poderia?</p>
	<p class="MsoPlainText">Meu escritório nunca foi muito agitado. Sempre tive uma clientela fixa, que compensava seu tamanho reduzido com uma grande fidelidade.</p>
	<p class="MsoPlainText">E pagava bem. </p>
	<p class="MsoPlainText">Eu conhecia meus clientes pelos nomes. N&atilde;o fazia a mínima idéia sobre a idoneidade desses nomes, e nunca tive muito interesse em investigá-los. Outros do meu ramo costumam fazer isso, mas eu n&atilde;o. O simples fato das pessoas perderem alguns minutos elaborando um nome falso me deixava feliz. Queria dizer que elas achavam que eu merecia um pouco de respeito. Só um pouco, acho.</p>
	<p class="MsoPlainText">Ent&atilde;o, alguém bateu &agrave; porta, interrompendo minhas divaga&ccedil;&otilde;es. </p>
	<p class="MsoPlainText">Eu detesto ser interrompido. </p>
	<p class="MsoPlainText">Mesmo assim, fui atender. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">Sim, era verdade.</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Ele era velho. Bem velho. Por volta dos 70 e poucos. Eu nunca gostei de velhos, e a idéia de necessitar da boa-vontade de alguém para limpar a bunda me assombrava. Com sorte, vou antes dos 50. Ficou ali, parado, me encarando, tentando esbo&ccedil;ar um sorriso, ser simpático. Tinha batido na porta certa?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Pois n&atilde;o?</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; - Senhor Romano, presumo. &ndash; disse, estendendo a m&atilde;o enrugada pra mim. N&atilde;o pude deixar de notar o anel. Um grande anel prateado com um emblema que n&atilde;o consegui enxergar direito naquele momento. Devia ser um ma&ccedil;om ou algo assim.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Eu mesmo. Como me encontrou? &ndash; n&atilde;o retribuí a cortesia. Ainda n&atilde;o era hora. Tinha que interpretar meu papel. </p>
	<p class="MsoPlainText">- O senhor me foi indicado. Por esta pessoa. O senhor deve saber de quem se trata. &ndash; com a mesma m&atilde;o que estivera estendida a mim poucos segundos antes, ele pegou um peda&ccedil;o de papel no bolso do terno. Um cart&atilde;o. Muito bem cuidado. Caríssimo. Eu teria que trabalhar muito pra ter um daqueles. N&atilde;o gostei do sarcasmo. Mas dinheiro é dinheiro, sabem como é. E eu conhecia o nome. Sendo verdadeiro ou n&atilde;o.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Conhe&ccedil;o sim. Tenha a bondade. &ndash; saí do caminho, deixando o velho entrar em minha sala.</p>
	<p class="MsoPlainText">Modéstia &agrave; parte, eu cuidava bem do meu ambiente de trabalho. Uma sala simples, discreta, num prédio conhecido, mas n&atilde;o muito frequentado. Agora era minha vez de fingir simpatia. Estendi a m&atilde;o.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Pe&ccedil;o que o senhor me desculpe pelos modos pouco amistosos, mas sabe como é. Nesse ramo nós fazemos muitas inimizades. Temos que nos precaver. Sente-se, por favor.</p>
	<p class="MsoPlainText">Ele sentou-se, ereto, na cadeira semi-nova que eu mantinha em frente &agrave; minha mesa. Quase todos os meus negócios eram tratados fora do escritório. Na verdade eu mantinha minha &ldquo;ag&ecirc;ncia&rdquo; mais por capricho do que por necessidade. </p>
	<p class="MsoPlainText">- O senhor nos foi muito bem recomendado, senhor Romano, e&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">- Pode me chamar apenas de Romano, por favor. &ndash; sempre interrompa os clientes. Isso lhes tira a sensa&ccedil;&atilde;o de poder. Intimida. Além de fazer voc&ecirc; parecer mais esperto. No fundo eles gostam disso. Pensam que será um dinheiro bem investido. O que, no meu caso, n&atilde;o passa da mais pura e simples verdade. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Ah, sim. Pois n&atilde;o, Romano. Como ia dizendo, o senho&#8230;, aham&#8230;desculpe,&nbsp; foi muito bem recomendado. Por isso mesmo vou direto ao ponto. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Que seria?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Diga-me, o senhor costuma acessar muito a internet?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Ocasionalmente. Uso para fazer pesquisas e me considero entendido, mas nunca fui um entusiasta. Sou um dos que trabalha &agrave; moda antiga. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Claro, claro. Como eu. &ndash; riu, talvez imaginando que eu tivesse entendido a piadinha implícita em sua observa&ccedil;&atilde;o. Eu entendi. Mas fingi n&atilde;o entender. N&atilde;o gosto de velhos, já disse. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Bem, mesmo sendo um usuário eventual é provável que já tenha ouvido falar disso aqui. &ndash; e sacou da sua valise um livreto, cuidadosamente encadernado, com pouco mais de 40 páginas. A capa trazia impressa, em letras garrafais, apenas uma exclama&ccedil;&atilde;o: MUDE!</p>
	<p class="MsoPlainText">Folheei desinteressadamente o documento. Pelos tópicos, presumi que se tratasse de algo na linha de auto-ajuda. Nunca gostei desse tipo de literatura. Pelo menos n&atilde;o publicamente. Coloquei a apostila sobre minha mesa, na esperan&ccedil;a de que ele me desse ou esquecesse ali. Fiquei curioso pra saber o que tinha dentro. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Conhece?</p>
	<p class="MsoPlainText">- É a primeira vez que vejo. O que é? Um livro de auto-ajuda?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sim, poderíamos dizer que sim. Esse documento tem sido distribuído pela internet gratuitamente há cerca de cinco semanas. O site original foi tirado do ar, mas algumas centenas de pessoas já tinham copiado e lido, e surgiram várias páginas disponibilizando esse arquivo. O resto foi efeito dominó. Mais pessoas liam, copiavam e disponibilizavam, o que tornou virtualmente (e esbo&ccedil;ou um pequeno sorriso imaginando que talvez eu atentasse para esse trocadilho horrendo) impossível a elimina&ccedil;&atilde;o disso <em>in loco</em>. Ontem saiu o segundo capítulo. Ao que parece, ser&atilde;o cinco.</p>
	<p class="MsoPlainText">- E?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Já tivemos notícias de que o texto foi traduzido para o ingl&ecirc;s, espanhol, alem&atilde;o, italiano, franc&ecirc;s, chin&ecirc;s e árabe. E incrivelmente, parecem n&atilde;o existir incorre&ccedil;&otilde;es ou modifica&ccedil;&otilde;es sobre o original. Ninguém ousou alterar seu conteúdo. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">Eu só queria saber onde estava me metendo. Ele n&atilde;o suava, n&atilde;o tremia, n&atilde;o aparentava medo ou intimida&ccedil;&atilde;o alguma. Só me olhava, com aqueles grandes olhos negros. </p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">- Mas o que tem esse texto de t&atilde;o especial?</p>
	<p class="MsoPlainText">- O senhor deve ser um homem extremamente reservado, estou certo? N&atilde;o deve gostar muito de televis&atilde;o, n&atilde;o é?</p>
	<p class="MsoPlainText">- N&atilde;o gosto mesmo. Mas leio meu jornal todas as manh&atilde;s, se quer saber. &ndash; velho irritante. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Já ouviu falar dos Renascidos? Da Igreja dos Recém-desvelados? Desde que esse manifesto foi publicado, catalogamos aproximadamente 86 novas religi&otilde;es e seitas. Ah!, me esqueci dos Acólitos do Pdf. Isso pra n&atilde;o falar das micro-repúblicas&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">- E esse manifesto tem algo a ver com essa história toda, estou certo?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Certíssimo! &ndash; ele disse. Eu n&atilde;o podia deixar de observar aquele imenso anel em seu dedo anular esquerdo. Consegui entender o que era o tal emblema. Uma cruz, sobreposta a outro símbolo que n&atilde;o consegui identificar. Evitei ficar olhando muito. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Tá, mas onde eu entro nessa história toda?</p>
	<p class="MsoPlainText">- É muito simples, queremos que voc&ecirc; encontre o autor desse texto.</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">O velho tinha me dito para n&atilde;o ler. Mas eu li. Merda. </p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Ao contrário dos meus colegas de profiss&atilde;o, minha experi&ecirc;ncia tinha parcas raízes acad&ecirc;micas, contrastando com o empirismo selvagem presente na esmagadora maioria dos meus conhecidos. N&atilde;o cheguei a me formar, mas n&atilde;o escondo que alimentei a esperan&ccedil;a de ver o meu nome estampado na capa de um livro. Eu era jovem, e tudo o que veio depois em minha vida, inclusive a &ldquo;guinada&rdquo; na escolha da minha futura carreira, só veio a comprovar o qu&atilde;o errado estava. De qualquer forma, eu trouxe comigo coisas boas daquele período. O hábito de pesquisar, por exemplo.</p>
	<p class="MsoPlainText">O autor do texto assinava como Y.H. E completava &ldquo;um homem como todos&rdquo;. Seu estilo era leve, simples. Nada de palavras rebuscadas nem de arabescos verbais. Nenhuma novidade, pra ser sincero. Nada que os livros de auto-ajuda já n&atilde;o viessem borrifando nas mentes das pessoas durante anos e anos. O que notei, que talvez fizesse a diferen&ccedil;a, era a disposi&ccedil;&atilde;o dessas informa&ccedil;&otilde;es. Tudo parecia fácil e possível. O texto era quase uma obra de engenharia. Todas as palavras e idéias pareciam ter sido calculadas para surtir o efeito máximo. A mensagem era clara, objetiva, direta. E muito eficaz, pelo visto. Come&ccedil;ou no país, se alastrando pelo mundo logo em seguida. O opúsculo, apenas um volume de uma obra maior, fora responsável pela mudan&ccedil;a na vida de pessoas por todo o planeta. Executivos bem sucedidos simplesmente desligavam-se de suas empresas em busca de um maior conhecimento de &ldquo;si próprios&rdquo;. Programadores abandonavam seus códigos em troca do cultivo de alimentos hidrop&ocirc;nicos em pequenos peda&ccedil;os de terra nos rinc&otilde;es do país. Generais renunciavam &agrave; pátria e &agrave; farda para aproveitarem suas tardes compondo haiku. Operários deixavam as máquinas de lado e se dedicavam aos animais sem dono. A sociedade capitalista estava a tr&ecirc;s passos do colapso, embora ainda n&atilde;o tivesse se dado conta disso. </p>
	<p class="MsoPlainText">Funcionava mais rápido com alguns. Com outros, a transforma&ccedil;&atilde;o ocorria paulatinamente, mas ninguém ficava indiferente ao seu conteúdo. Ninguém. </p>
	<p class="MsoPlainText">Contudo, chegava a ser engra&ccedil;ado. A mídia e os governos encaravam a situa&ccedil;&atilde;o como um surto coletivo de excentricidade. Nada mais. </p>
	<p class="MsoPlainText">A quest&atilde;o agora era: como encontrar um homem sem rosto e sem nome? Isso, partindo do princípio que ele realmente existisse. Uma dupla de iniciais era algo muito vago para me basear, e em tempos de coletivos artísticos, a possibilidade de que aquilo pudesse ter sido escrito por mais de uma pessoa era muito grande. De qualquer maneira, alguém escreveu, e era meu trabalho encontrá-lo.</p>
	<p class="MsoPlainText">Embora a internet n&atilde;o fosse o lugar (se é que fosse um lugar) mais apropriado para encontrar informa&ccedil;&otilde;es precisas sobre algo, decidi come&ccedil;ar por lá. Quest&atilde;o de comodidade. Cada vez que eu apontava meu buscador para alguma das combina&ccedil;&otilde;es possíveis das palavras MUDE, Y.H., auto-ajuda e felicidade, o número de ocorr&ecirc;ncias aumentava. Exponencialmente. Na última vez que olhei, estava ultrapassando a casa dos milh&otilde;es. Confesso que fiquei surpreso (medo seria a palavra certa, mas eu n&atilde;o diria assim de jeito nenhum. Tenho uma reputa&ccedil;&atilde;o a zelar, sabem como é). Ficava cada vez mais difícil separar o joio do trigo. Tudo o que estava acontecendo era um típico fen&ocirc;meno do século 21. Informa&ccedil;&atilde;o espalhada &agrave; revelia, com penetra&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a. Mas aquela informa&ccedil;&atilde;o era diferente. Era capaz de quebrar convic&ccedil;&otilde;es sedimentadas durante anos como se fossem gravetos. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">N&atilde;o havia medo em seus olhos. N&atilde;o havia rancor. N&atilde;o havia desespero. N&atilde;o havia confus&atilde;o. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Só havia - e sei que parece engra&ccedil;ado dito assim &ndash; amor.</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">A dificuldade em encontrar alguém é diretamente proporcional ao pre&ccedil;o do servi&ccedil;o. Eu n&atilde;o contava com todo esse trabalho na hora de fazer meu or&ccedil;amento. Obviamente, o velho teria que reavaliar os meus dividendos. </p>
	<p class="MsoPlainText">A procura pelo sujeito, depois de algumas horas em frente ao computador, mostrou-se infrutífera. Decidi que talvez fosse melhor come&ccedil;ar devagar, comendo as beiradas, como diriam na minha terra. No país já havia dezenas de seitas, igrejas, grupos de estudos, f&atilde;-clubes e quejandos, fundadas em rever&ecirc;ncia a Y.H. A coisa ia do anarquismo homeopático da Igreja do N&atilde;o-Trabalho - que pregava o ócio construtivo, através do uso extensivo de conex&atilde;o, assim como provis&otilde;es e demais recursos pagos pelos empregadores, na busca da ilumina&ccedil;&atilde;o pessoal - ao non-sense total dos Pequenos Schopenhauers. Nunca entendi quem realmente queria dominar o mundo. Separei alguns que me pareceram mais objetivos e iniciei minha busca. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">No seu pesco&ccedil;o há uma tatuagem de uma cobra mordendo o próprio rabo. Já vi isso em algum lugar, embora o significado exato n&atilde;o me ocorra agora.</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Infrutíferas, todas as tentativas. Sempre que perguntava sobre o autor daquelas palavras, eu via o abanar de apostilas e encaderna&ccedil;&otilde;es mal feitas do primeiro capítulo de MUDE! &ldquo;Ele está aqui&rdquo;, diziam alguns. </p>
	<p class="MsoPlainText">Passei duas semanas freq&uuml;entando os cultos escalafobéticos da Panspermia Metempsicótica para descobrir que o grande segredo revelado apenas aos iniciados &ndash; e nem precisei me tornar um deles - era a teoria de que todos somos esporos alienígenas que chegaram &agrave; Terra em um meteoro e desde ent&atilde;o entraram num ciclo infinito de reencarna&ccedil;&otilde;es que só será quebrado com a publica&ccedil;&atilde;o do quinto volume de MUDE! Sem falar na tortuosa correspond&ecirc;ncia eletr&ocirc;nica que mantive com o fundador (e único membro, desconfio) do Reverso da Fortuna, um grupo de estudos que afirma que o real objetivo do livro era que as pessoas n&atilde;o mudassem. Enfim, loucura para todos os gostos.</p>
	<p class="MsoPlainText">Algo que notei em minhas investiga&ccedil;&otilde;es era a dissolu&ccedil;&atilde;o da idéia original, conforme o tempo ia passando. (Mas n&atilde;o é assim com todas as idéias?). No princípio todas as pessoas pareciam ter entendido a mensagem do livro de maneira relativamente parecida. Mas foi quest&atilde;o de semanas até que come&ccedil;assem a surgir dissid&ecirc;ncias e interpreta&ccedil;&otilde;es menos ortodoxas. Nem preciso dizer que isso só dificultou minha vida. </p>
	<p class="MsoPlainText">Meses se passaram sem que eu tivesse conseguido arranhar ao menos a superfície de toda aquela história. As pessoas, as lendas, os fatos, os boatos, tudo se multiplicava numa velocidade assustadora. Era como nadar em areia movedi&ccedil;a. Sem saber nadar. Gastei uma pequena fortuna viajando a todos os cantos do país &agrave; cata de alguma informa&ccedil;&atilde;o, nome, dica ou o que fosse. Felizmente, meus empregadores eram pessoas de recursos, muitos recursos. Eu continuava minha busca movido pela inércia. N&atilde;o fazia sentido. De qualquer maneira, o dinheiro continuava entrando em minha conta. </p>
	<p class="MsoPlainText">Em todo esse tempo, eu já havia me tornado um verdadeiro especialista no assunto. Cadastrei-me em várias listas de discuss&atilde;o, afiliei-me a várias congrega&ccedil;&otilde;es que aceitavam inscri&ccedil;&otilde;es por correspond&ecirc;ncia, frequentei reuni&otilde;es e cheguei mesmo a cogitar a cria&ccedil;&atilde;o de um site, blog (depois de todo esse tempo fiquei íntimo o suficiente da internet para me permitir tal fa&ccedil;anha) ou algo semelhante sobre o assunto. Acho que isso criou algum tipo de imunidade &agrave; palavra. Quanto mais o tempo passava, mais ridícula eu achava aquela situa&ccedil;&atilde;o.</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Até que um dia, a sorte sorriu pra mim. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">Ou n&atilde;o, dependendo do ponto de vista.</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Estava me barbeando quando o telefone tocou. Poucas pessoas tinham o meu número e eu n&atilde;o costumava receber liga&ccedil;&otilde;es sociais. Atendi, a contragosto.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Al&ocirc;?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Romano?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Quem fala?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sou eu. Y.H. Aquele a quem procura.</p>
	<p class="MsoPlainText">Titubeei, n&atilde;o escondo. Meu cérebro funcionava &agrave; toda na tentativa de optar entre a descren&ccedil;a ou o crédito &agrave;quela identifica&ccedil;&atilde;o. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Que história é essa? N&atilde;o sei do que está falando.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sabe sim. Sabia que voc&ecirc; é um péssimo mentiroso? A entona&ccedil;&atilde;o em sua voz, o tempo que demorou para responder. A pausa entre as palavras&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">O número já estava no meu identificador de chamadas. Era da cidade. Além de mim, apenas meu(s) empregador(es) sabia(m) do trabalho. N&atilde;o poderia ser uma piada ou armadilha. Ou poderia? Paranóia é um pré-requisito nesse ramo.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Acredite no que digo. Sei da história toda, do velho com anel esquisito e da sua busca fracassada. Creio que voc&ecirc; deva ter um identificador de chamadas aí. Mas n&atilde;o se preocupe em encontrar o número. Vou lhe dar meu endere&ccedil;o atual. Fica mais fácil e assim acabamos com essa história de uma vez por todas. Ou, pelo menos, dessa vez.</p>
	<p class="MsoPlainText">Era uma voz melódica. De alguma maneira fazia com que eu me sentisse confuso. Tenso. Péssimo pra minha profiss&atilde;o. </p>
	<p class="MsoPlainText">Anotei o endere&ccedil;o. Era uma chácara na regi&atilde;o metropolitana da cidade. Eu já conhecia o lugar. Um amigo também tinha uma chácara ali. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">Nunca me faltou tanta convic&ccedil;&atilde;o quanto agora. E ele ali, apontando para as costelas&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Marcamos para o outro dia, na hora do almo&ccedil;o. </p>
	<p class="MsoPlainText">Cheguei na chácara duas horas antes. Poderia, e provavelmente seria, uma armadilha. Porque, eu n&atilde;o saberia dizer. Da mesma maneira como eu n&atilde;o conseguiria responder com certeza porque eu estava ali. Era tudo muito óbvio, muito clich&ecirc;, se querem saber. Parei o carro bem antes e segui os últimos quinhentos metros a pé. Estava me arriscando ao deixar o carro assim t&atilde;o longe, mas toda aquela vegeta&ccedil;&atilde;o ajudaria no caso de uma fuga. Minha maior preocupa&ccedil;&atilde;o era toda aquela poeira em minha roupa. Fui beirando a estradinha de terra que levava até a casa. Quando cheguei ao port&atilde;o, avaliei o terreno. Nenhum carro, nenhum cachorro, ninguém. Entrei devagar. Tirei a arma do coldre e deixei-a presa na minha cintura, na parte de trás da cal&ccedil;a. O sil&ecirc;ncio ali chegava a ser lúgubre. A casa em si era humilde. Nova, mas humilde. Uma varanda com uma rede pendurada, uma mesa e algumas cadeiras de jardim que há muito n&atilde;o deveriam ser usadas. N&atilde;o havia rastros recentes de carros ou motos. Se houvesse alguém ali, teria que ter vindo a pé. Como eu. Uma piscina mal-feita ao lado da casa aparentava n&atilde;o ter sido limpa nos últimos meses. Mais próximo do lugar, eu reparei, a própria casa n&atilde;o recebia qualquer tipo de manuten&ccedil;&atilde;o há tempos. Folhas secas criavam um tapete natural em frente &agrave; porta principal. O termo &ldquo;natureza morta&rdquo; me veio &agrave; mente. Contornei a casa em busca de uma entrada alternativa. Encontrei.</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">Agora eu come&ccedil;ava a compreender tudo. Talvez, a cren&ccedil;a no livro - e apenas nele - fosse apenas um mecanismo de auto-defesa, de prote&ccedil;&atilde;o. Num nível subconsciente, as pessoas deviam perceber a verdade. Mas descartavam-na. Era melhor. E n&atilde;o fazia diferen&ccedil;a. </p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">O som das teclas era frenético. Ele digitava sem olhar para o teclado, era como se tivesse feito aquilo a vida toda. Só parava para ajustar os óculos que insistiam em escorregar para a ponta do nariz. Estava curvado sobre o velho monitor. Havia manchas de suor em sua camiseta desbotada, e seus pés estavam cruzados embaixo da cadeira. Relaxado. Concentrado. N&atilde;o tinha percebido minha presen&ccedil;a. E parecia inofensivo.</p>
	<p class="MsoPlainText">Entrei no pequeno quarto, com a arma em punho. Ele me viu, e n&atilde;o pareceu nem um pouco surpreso. Com certeza, esse n&atilde;o era meu estado de espírito. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Ah! Voc&ecirc; veio. Um pouco adiantado, n&atilde;o? &ndash; disse, enquanto consultava seu relógio de pulso barato.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Só uma pergunta: voc&ecirc; sabe quem eu sou? &ndash; a verdade é que n&atilde;o consegui pensar em nada melhor pra dizer.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Espero que seja uma pergunta retórica &ndash; disse, dando uma piscadela. - Claro que sei quem é voc&ecirc;. Eu te liguei, n&atilde;o liguei?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Ent&atilde;o, pela ordem natural das coisas, essa conversa n&atilde;o deveria estar acontecendo, n&atilde;o é verdade? Voc&ecirc; deveria estar fugindo ou se escondendo.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Hmmmm&#8230;faz sentido, faz sentido. Mas já devo lhe avisar (algo que seus empregadores n&atilde;o devem ter feito, certamente) que a ordem natural das coisas n&atilde;o seria o termo mais correto a se aplicar aqui.</p>
	<p class="MsoPlainText">- E por qu&ecirc;?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Veja Romano&#8230; &ndash; ele se moveu na cadeira, cruzando as pernas como quem vai dar uma entrevista. Um pequeno movimento com minha arma foi claro o suficiente para ele entender que eu n&atilde;o gostava dos <em>seus</em> movimentos. Ele levantou as m&atilde;os, pedindo calma. Achei seguro continuar mantendo dist&acirc;ncia. - &#8230;voc&ecirc; sabe quem realmente está pagando o seu salário? </p>
	<p class="MsoPlainText">- Espero que seja uma pergunta retórica &ndash; eu disse, dando uma piscadela.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Touché! Perguntas n&atilde;o s&atilde;o algo muito bem-vindo no seu ramo, acredito. De qualquer maneira, vou continuar meu raciocínio. A pessoa que lhe procurou usava um anel como esse? &ndash; e mostrou a m&atilde;o esquerda, com um anel semelhante ao do velho. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Tinha, e daí?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sabe o que significa esse símbolo?</p>
	<p class="MsoPlainText">- N&atilde;o, e n&atilde;o quero saber. Nem sei o que estou fazendo aqui, conversando com voc&ecirc;. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Calma, calma! &ndash; disse, ainda com as m&atilde;os para cima.&nbsp; &ndash; Precisamos conversar mais um pouco. Depois, voc&ecirc; faz o que tem que fazer. N&atilde;o vou fugir, me entreguei, lembra? Sei do meu destino. Mas talvez voc&ecirc; n&atilde;o saiba do seu&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">- &#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">- Deixe eu lhe contar uma história. Tudo come&ccedil;ou há muito tempo atrás. Sabe o que é midraxe?</p>
	<p class="MsoPlainText">- &#8230;n&atilde;o..</p>
	<p class="MsoPlainText">- Esse termo &ndash; que acho maravilhoso, se me permite fazer esse aparte &ndash; vem do hebraico. É o nome que os teólogos deram a um artifício narrativo utilizado há muito tempo. Eles dizem que é uma narra&ccedil;&atilde;o de fundo histórico, ornamentada pelo autor sagrado para servir &agrave; instru&ccedil;&atilde;o teológica. O autor conta o fato de modo a destacar o valor ou o significado religioso deste fato. Sua inten&ccedil;&atilde;o n&atilde;o é a de um cronista, mas a de um catequista ou teólogo. Vi essa defini&ccedil;&atilde;o num site um dia desses. Embora seja deliciosa em seu cinismo, o termo também pode ser entendido como uma história baseada num modelo anterior. Um eufemismo para plágio, se assim preferir. </p>
	<p class="MsoPlainText">- E?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Histórias superpostas sobre camadas de outras histórias, por sua vez superpostas sobre camadas de outras histórias. Qual terá sido a primeira mensagem? Qual terá sido a primeira informa&ccedil;&atilde;o? Isso n&atilde;o te lembra nada?</p>
	<p class="MsoPlainText">- N&atilde;o.</p>
	<p class="MsoPlainText">O desgra&ccedil;ado era bom. Eu estava prestando aten&ccedil;&atilde;o. Em cada palavra. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Eu fui um garoto normal. Ao contrário de tudo o que disseram até hoje. Curioso, mas normal. A coisa toda descambou mesmo quando resolvi fazer uma viagem. Uma longa viagem. Está me acompanhando?</p>
	<p class="MsoPlainText">Preferi n&atilde;o responder, mas minha express&atilde;o era óbvia.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Ent&atilde;o, digamos que nessa viagem eu tenha aprendido alguns&#8230;truques. Mas o que eu considero ter sido realmente valioso foi um princípio. Um ideal.&nbsp; </p>
	<p class="MsoPlainText">- Que seria?</p>
	<p class="MsoPlainText">- A implos&atilde;o, embora esse termo n&atilde;o existisse na época, de um conceito. Simples.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Que conceito?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Autoridade.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Como assim?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Autoridade. Nunca gostei dela. Ninguém precisa disso. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Amigo, pouco me importa o que voc&ecirc; acha ou deixou de achar sobre esse assunto. Voc&ecirc; sabe muito bem o que eu vim fazer aqui, n&atilde;o sabe?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sei. Claro. Mas o assunto te interessa sim. Se n&atilde;o voc&ecirc; já teria puxado o gatilho. Deixe-me terminar minha história, está bem? Depois voc&ecirc; faz o que veio fazer e nós dois ficamos felizes. Como eu estava dizendo antes de voc&ecirc; me interromper, voltei do Oriente disposto a realizar aquilo que antes só passava pela minha cabe&ccedil;a. Banir totalmente o conceito. E que laboratório melhor para testar isso do que um território sob o julgo de um império estrangeiro? Mas aí a coisa toda tomou propor&ccedil;&otilde;es inesperadas, e a mensagem se deturpou. É por isso que estou fazendo esse livro. Já tive muito tempo para estudar PNL, memética, e cá pra nós, a palavra impressa tende a se conservar mais do que a falada. Escreveram coisas que disseram que eu disse, e eu n&atilde;o disse. Agora eu mesmo digo o que quero através do que escrevo. Sem intermediários, sem atravessadores. Na verdade houve certa neglig&ecirc;ncia da minha parte. Se eu tivesse me empenhado mais, as coisas n&atilde;o teriam tomado esse rumo, teria sido apenas um fen&ocirc;meno localizado, de curta dura&ccedil;&atilde;o, uma curiosidade histórica, apenas isso. Só que fiquei curioso pra ver onde ia dar aquilo tudo, e simplesmente me afastei. Deixei rolar, como dizem. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Mas se deturpou como? &ndash; eu já tinha me perdido na metade da sua história e n&atilde;o consegui pensar em nada melhor para dizer. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Saulo.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Quem?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Saulo. Eles acreditaram que tinham me matado, mas eu, como já disse antes, dominava alguns truques e consegui enganá-los. Algum tempo depois, Saulo me viu &ndash; ele, ao contrário do que a história diz, presenciou minha suposta morte &ndash; e achou tratar-se de um milagre. E a confus&atilde;o só aumentou quando ele conseguiu localizar meus antigos seguidores. Converteu-se &agrave; doutrina supostamente fundada por mim. Mudou de nome, inclusive, e tornou-se um dos maiores divulgadores dos meus &ldquo;ideais&rdquo;. Tentei abrir seus olhos e atentá-lo para o engano que cometia, mas já era tarde demais. Estava cego pela história que sua própria mente criou. Ele me tomou pelo dem&ocirc;nio e fundou uma ordem, só para me ca&ccedil;ar. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Ordem?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sim. Hoje em dia n&atilde;o passa de uma agremia&ccedil;&atilde;o de idosos exc&ecirc;ntricos e abastados tentando conquistar algum tipo de respeito através de conhecimentos ocultos. &ndash; fez um gesto caricato, imitando um monstro, um bicho-pap&atilde;o. - Mas alguns ainda acreditam. E tem os registros. Costumam usar indefectíveis anéis de prata. Viu algum nos últimos dias?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Ent&atilde;o o velho&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sim, o velho. E eu também. &ldquo;Mantenha seus inimigos por perto&rdquo;. Conseguiram colocar as m&atilde;os em mim uma vez. Na idade média. Claro, consegui escapar. Do meu jeito. O engra&ccedil;ado é que, contei esse episódio a um escritor certa vez, quando estávamos presos em um gulag, assim, como se fosse uma piada, e isso acabou virando o trecho mais famoso de um dos seus livros mais famosos. Quase uma anedota. </p>
	<p class="MsoPlainText">N&atilde;o entendi. Talvez ele tenha percebido. Talvez n&atilde;o. Fantasia demais. Ou, talvez n&atilde;o. O que poderia acontecer comigo se eu perguntasse?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Peraí, se entendi bem, voc&ecirc; afirma ser bem mais velho do que aparenta, certo?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Certo.</p>
	<p class="MsoPlainText">- E estaria fugindo dessa ordem há quanto tempo, exatamente?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Há longos dois mil anos&#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">- O qu&ecirc;? Tudo bem, voc&ecirc; é escritor, mas n&atilde;o acha que está for&ccedil;ando a barra n&atilde;o?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Bem, acreditar é um problema único e exclusivo seu. A palavra é: metempsicose. Também gosto dela. Sabe o que é?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Voc&ecirc; vai me contar de qualquer jeito, n&atilde;o é?</p>
	<p class="MsoPlainText">- É.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Ent&atilde;o vamos lá. Eu tenho tempo e sou curioso. E voc&ecirc; realmente n&atilde;o vai me dar trabalho.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Metempsicose, Romano, a perpetua&ccedil;&atilde;o da alma em corpos diferentes. Ou melhor, a conserva&ccedil;&atilde;o da alma. </p>
	<p class="MsoPlainText">- ???</p>
	<p class="MsoPlainText">- Minha&#8230;alma&#8230;vem pulando de corpos todos esses anos&#8230;sim, é verdade. Existem complicadores. Nós conseguimos vagas, mas temos que nos contentar com o corpo que recebemos. Acredite, é difícil fazer qualquer tipo de protesto enquanto se está sendo polinizado por uma abelha ou perseguido por uma matilha de lobos. Antigamente era mais fácil, eu dominava algumas técnicas que prolongavam a&#8230;hmmm&#8230;vida útil de um corpo. Infelizmente a memória torna-se trai&ccedil;oeira com a idade e temo que se tentasse algo do tipo hoje os efeitos seriam bem diferentes. Melhor ser uma roseira do que n&atilde;o ser nada. Mas até que dei sorte. No c&ocirc;mputo geral, consegui habitar um corpo humano um número satisfatório de vezes. </p>
	<p class="MsoPlainText">- &#8230;</p>
	<p class="MsoPlainText">- O que significa que, mesmo crivando meu corpo com as balas dessa arma, dentro em breve voc&ecirc; poderá ter notícias minhas. Ou n&atilde;o. Sei lá&#8230;estou cansado, de saco cheio. Preciso, sair de cena, de novas férias. Por isso te chamei.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Muito interessante essa história toda, mas chega de conversa. Acho melhor voc&ecirc; fazer suas preces, se é que me entende.</p>
	<p class="MsoPlainText">- Rá! Essa foi boa! Um minuto, sim?</p>
	<p class="MsoPlainText">Como se eu n&atilde;o estivesse ali, prestes a matá-lo, ele se vira e faz algo que me parece ser salvar o arquivo no qual estava trabalhando. Continua teclando mais alguns momentos e ent&atilde;o me dou conta de que posso ter caído numa armadilha, de que ele está me confundindo para que eu seja surpreendido aqui. Mesmo com meu tiro explodindo o monitor em sua face, ele, ainda assim, parece n&atilde;o se surpreender. Lentamente coloca as m&atilde;os para o alto. Tinha uma cara de desapontamento, mas n&atilde;o a de alguém prestes a morrer. Parecia mais uma crian&ccedil;a que foi obrigada a interromper uma brincadeira porque estava na hora de tomar banho. </p>
	<p class="MsoPlainText">- Certo, certo. Vamos lá ent&atilde;o. Voc&ecirc; podia pelo menos ter esperado eu terminar, né?</p>
	<p class="MsoPlainText">- Um último desejo?</p>
	<p class="MsoPlainText">Eu era um profissional, e n&atilde;o podia deixar a peteca cair. Tinha que mostrar que estava no controle, que ainda era capaz de uma simples ironia, que n&atilde;o ia me deixar levar pela conversa de um maluco. Mesmo prestes a apagar a única testemunha daquele breve momento de credulidade pelo qual passei. </p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">- Sim. Os disquetes contendo as minhas anota&ccedil;&otilde;es para os outros fascículos est&atilde;o ali. Cuide bem deles.</p>
	<p class="MsoPlainText">Minhas m&atilde;os tremiam e eu suava como um porco. Ele girou a cadeira, ficando de frente para mim. Apontava o indicador esquerdo para as costelas, logo abaixo do cora&ccedil;&atilde;o. Pediu que eu atirasse ali. For&ccedil;a do hábito, disse. Dei um tiro no meio da testa. Só pra garantir.</p>
	<p class="MsoPlainText">Eu precisava sair dali rápido, mas minhas pernas tinham virado geléia, e só recobraram a consist&ecirc;ncia original quando eu olhei para os tais disquetes. Uma pilha deles, uns cinco ou seis, estavam numa outra mesa, repleta de livros e revistas, no canto oposto do aposento. Coloquei-os em meu bolso e parti. Queria dar uma olhada neles. Que mal poderia haver?</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">*****</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">Já faz dois dias que n&atilde;o durmo. Comi apenas o suficiente para n&atilde;o parar. N&atilde;o posso sair. Tenho muito trabalho. Li todos os textos dele, várias vezes. Como pude ignorar aquilo? Como pude ficar alheio &agrave; Mensagem? Tremo só de pensar nas possibilidades, no que ele poderia ter feito. Nas várias faces do mundo que poderiam ter sido esculpidas por esse homem. As pessoas t&ecirc;m que saber. Preparei os textos e estou enviando a Palavra agora, ao maior número possível de pessoas. Fico me perguntando por que eu? Por que fui escolhido? Por que tive essa honra? E a resposta é sempre a mesma: eu fui escolhido porque estava lá. Só isso. O velho está atrás de mim e vai me encontrar a qualquer momento. Tenho muito trabalho. Tenho que espalhar as Boas Novas.</p>
	<p class="MsoPlainText">&nbsp;</p>
	<p class="MsoPlainText">===================</p>
	<p class="MsoPlainText">MARCIO MASSULA JR. tem grande apre&ccedil;o por palavras estranhas das quais ele geralmente desconhece o significado. Mas isso n&atilde;o importa. O que importa é que os outros n&atilde;o saibam.</p>
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	</item>
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		<title>ESCAMBO</title>
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		<pubDate>Thu, 02 Oct 2008 22:32:23 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
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		<description><![CDATA[	Márcio Massula Jr.
 
		Soares conseguiu uma pechincha das boas no Escambo.com: uma c&acirc;mera digital cujo zoom ótico n&atilde;o ficava devendo nada ao de uma luneta das boas; que tinha uma capacidade de armazenamento de dados de fazer inveja a muito laptop; que possuía mais de 15 modos de opera&ccedil;&atilde;o e, além de tudo, roubava almas.
		Notou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Márcio Massula Jr.<br />
<p class="western"> </p>
	<p class="western">	Soares conseguiu uma pechincha das boas no Escambo.com: uma c&acirc;mera digital cujo zoom ótico n&atilde;o ficava devendo nada ao de uma luneta das boas; que tinha uma capacidade de armazenamento de dados de fazer inveja a muito laptop; que possuía mais de 15 modos de opera&ccedil;&atilde;o e, além de tudo, roubava almas.</p>
	<p class="western">	Notou ent&atilde;o que, uma a uma, as pessoas que fotografou come&ccedil;aram a se comportar de maneira estranha. Paulatinamente, esqueciam das coisas mais elementares, como cumprimentar os outros, responder e-mails, pagar as contas ou articular melhor as idéias. Por fim, esqueciam-se também de respirar, e morriam.</p>
	<p class="western">Quando ligou os pontos, Soares queria avisar a todos, destruir a máquina, denunciar o vendedor e acabar com tudo aquilo, contudo as for&ccedil;as lhe faltavam e ficava cada vez mais difícil pensar, t&atilde;o difícil que o último resquício de atividade cerebral que teve foi a lembran&ccedil;a da última foto que tirou com a máquina. 	</p>
	<p class="western">	Uma foto de si mesmo.</p>
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	</item>
		<item>
		<title>ADSENSELESS - Parte 4</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/09/24/adsenseless-parte-4/</link>
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		<pubDate>Wed, 24 Sep 2008 02:12:57 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Adsenseless</category>
		<guid>http://txt.blogsome.com/2008/09/24/adsenseless-parte-4/</guid>
		<description><![CDATA[	Márcio Massula Jr.
 
	(Chegou agora? Ok: Parte 1, Parte 2 e Parte 3)
	 
		Todos se esqueceram de avisar a Macanudo que ter a cabe&ccedil;a bombardeada por microondas o dia inteiro faria ela esquentar. E muito. Quando ele estava na Googolplex, isso n&atilde;o acontecia. Mas a Faixa de Anúncios também n&atilde;o ficava ligada o dia inteiro.
		O [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Márcio Massula Jr.<br />
<p class="western"> </p>
	<p class="western">(Chegou agora? Ok: <a href="http://txt.blogsome.com/2008/02/18/adsenseless-parte-1">Parte 1</a>, <a href="http://txt.blogsome.com/2008/05/20/adsenseless-parte-2">Parte 2</a> e <a href="http://txt.blogsome.com/2008/07/21/adsenseless-parte-3">Parte 3</a>)</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">	Todos se esqueceram de avisar a Macanudo que ter a cabe&ccedil;a bombardeada por microondas o dia inteiro faria ela esquentar. E muito. Quando ele estava na Googolplex, isso n&atilde;o acontecia. Mas a Faixa de Anúncios também n&atilde;o ficava ligada o dia inteiro.</p>
	<p class="western">	O resultado disso era uma película de suor, fina, mas perpétua, ao redor do seu rosto. A solu&ccedil;&atilde;o - paliativa - foi providenciar um estoque de toalhinhas de papel e deixá-las sempre &agrave; m&atilde;o.  </p>
	<p class="western">	Devido &agrave; temperatura, a cabe&ccedil;a doía. E a dor de cabe&ccedil;a incessante mexia com seu humor.  </p>
	<p class="western">	Os rendimentos n&atilde;o estavam sendo fantásticos, devido, em parte, ao próprio estado melancólico no qual ele se encontrava. Ele n&atilde;o saía muito, e quando saía, n&atilde;o era um dos interlocutores mais simpáticos da face da terra. E, como diz o ditado, <em>se n&atilde;o sabe sorrir, n&atilde;o abra uma loja</em>. Macanudo tinha se tornado uma celebridade menor na cidade. As pessoas ainda vinham em sua dire&ccedil;&atilde;o, pediam para tirar fotos, experimentar a faixa e todas essas coisas, mas ele n&atilde;o fazia a mínima quest&atilde;o de agradar os clientes, atividade para a qual estava sendo pago, aliás. Ele precisava resolver a quest&atilde;o com &Acirc;ndr&ecirc;a.</p>
	<p class="western">	Ela, por sua vez, continuava tocando sua vidinha trabalho-casa-trabalho.  &Acirc;ndr&ecirc;a era <em>designer de superfícies queratinosas</em>, uma profiss&atilde;o que já teve um nome menor e um salário maior. Vez ou outra ouvia alguma piadinha de uma das colegas de sal&atilde;o, mas o mau-humor com que recebia os gracejos deixou claro &agrave;s demais que aquele assunto n&atilde;o tinha nenhuma gra&ccedil;a. Pelo menos para ela.</p>
	<p class="western">	Macanudo tinha passado dos limites. Ela n&atilde;o sabia como tratar aquilo. Realmente n&atilde;o sabia. Quando se conheceram, ela até via um certo charme na obsess&atilde;o de Macanudo por tecnologia. Um qu&ecirc; de excentricidade que ela n&atilde;o tinha encontrado em outros relacionamentos. Macanudo nunca tinha lhe dado uma jóia ou um buqu&ecirc; de flores. Ao invés disso, nas datas comemorativas, era normal ela ser presenteada com alguma traquitana eletr&ocirc;nica que tinha acabado de chegar nas prateleiras de Xangai, Seul ou Nova Deli e que ninguém além dele mesmo sabia para que servia. No come&ccedil;o era bonito. Rom&acirc;ntico. Diferente. Um tempero. Mas aquele implante na testa tinha ido além de todos os limites. Ela precisava de um tempo e tentou explicar algumas vezes &agrave; Macanudo, que continuava se fazendo de desentendido.</p>
	<p class="western">	Ela acabou com a última cliente da tarde. Teria algum tempo livre, que gastava, invariavelmente, jogando conversa fora com as outras colegas que ainda estavam trabalhando. Ela sentou-se ao lado da porta. Aproveitou para observar o movimento na rua, enquanto o assunto gravita ao redor da websérie mais nova. Algo a ver com baratas inteligentes, mudan&ccedil;a de sexo e sorvete. &Acirc;ndr&ecirc;a até se entretia com esse tipo de história, mas sua cabe&ccedil;a estava em outro lugar. Era um belo dia e ela tinha vontade de sair do trabalho e dar uma caminhada. Talvez pegar um trem-bala  e ir até o estado vizinho, em alguma est&acirc;ncia turística. Respirar um pouco de ar puro, comprar algumas bugigangas, esfregar os pés num gramado, essas coisas.</p>
	<p class="western">	Ent&atilde;o ela v&ecirc; Macanudo parado em frente &agrave; porta, como uma estátua. Ele lhe mostra seu smartphone novo. Depois aponta para a ma&ccedil;aneta e gesticula com o indicador, pedindo permiss&atilde;o para entrar. Como um vampiro. As órbitas de &Acirc;ndr&ecirc;a v&atilde;o de encontro ao teto. Ela inspira e expira. Considera ignorá-lo, mas muda de idéia.</p>
	<p class="western">	- E aí, Morena?</p>
	<p class="western">	Mesmo que &Acirc;ndr&ecirc;a tivesse um biotipo praticamente eslavo, Macanudo chamava-a assim. No come&ccedil;o, ela pensava que ele queria lhe imputar alguma característica que ela provavelmente n&atilde;o tinha. Depois de algumas sess&otilde;es de interrogatório, se convenceu da explica&ccedil;&atilde;o do noivo, que afirmou te escolhido a palavra somente porque foi a primeira coisa que lhe passou pela cabe&ccedil;a quando combinaram de inventar apelidos carinhosos um para o outro.  </p>
	<p class="western">	O sorriso de Macanudo tem algo de sinistro. Ele aparenta estar mais abatido. E há a camada de suor em sua testa.</p>
	<p class="western">	&Acirc;ndr&ecirc;a pensa em elaborar verbalmente o que estava sentindo, mas consegue resumir tudo que estava represando dentro de si numa única palavra, dita, evidentemente, com a linguagem corporal exata.</p>
	<p class="western">	- Fala&#8230;</p>
	<p class="western">	Macanudo estende seu smartphone em frente ao rosto de &Acirc;ndr&ecirc;a. Todas as mulheres dentro do sal&atilde;o passam, dissimuladamente, a prestar aten&ccedil;&atilde;o na conversa.</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o sabe o que é isso?</p>
	<p class="western">	Ela n&atilde;o faz men&ccedil;&atilde;o de ler a tela.</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o e nem sei se quero saber. É mais alguma novidade inclusa no maravilhoso contrato que voc&ecirc; fez com a Plex?</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o, Morena! Olha direito!</p>
	<p class="western">	O Doktor Fritz definia seu estilo como Espiricore. Beta C&acirc;ndido era o quinto de uma dinastia de vocalistas que tinham em comum os poderes mediúnicos e as vidas curtas. Apesar da reprova&ccedil;&atilde;o de uma parte significativa da popula&ccedil;&atilde;o, o sucesso da banda crescia dia após dia. Beta e os outros antes dele afirmavam que psicografavam as letras das músicas e recebiam espíritos ilustres, desconhecidos e até dos próprios antecessores durante suas performances.</p>
	<p class="western">	Ver uma apresenta&ccedil;&atilde;o deles era uma experi&ecirc;ncia única. Eles nunca eram iguais. Nunca. As músicas sempre eram interrompidas pela chegada das entidades, que faziam suas próprias interven&ccedil;&otilde;es, fossem homens santos orientais aben&ccedil;oando a platéia, fossem físicos discursando sobre teorias obscuras, fossem donas de casa falando sobre programas de televis&atilde;o transmitidos cinquenta anos antes. Tudo, nas maioria das vezes, dito, com pronúncia cristalina, em outros idiomas. Independente do que as entidades fizessem (ou n&atilde;o), o público ficava extasiado, procurando sentido naquilo tudo meses depois.  </p>
	<p class="western">	Se tudo era verdade ou apenas um golpe de marketing muito bem perpetrado, ninguém saberia dizer, mas por essas e por outras as entradas para os shows do Doktor Fritz era disputadíssimas, esgotando-se meses antes dos eventos.</p>
	<p class="western">	Na tela do smartphone de Macanudo estava a mensagem confirmando a compra de duas entradas para o show mais recente deles.</p>
	<p class="western">	- Nossa, como voc&ecirc; conseguiu?</p>
	<p class="western">	Macanudo exalava auto-confian&ccedil;a.</p>
	<p class="western">	- Até que n&atilde;o foi t&atilde;o difícil assim. Claro, tive que mexer meus pauzinhos, mas agora eu sou uma celebridade, c&ecirc; esqueceu?</p>
	<p class="western">	O último comentário teve o efeito de uma bateria anti-aérea alvejando a consci&ecirc;ncia de &Acirc;ndr&ecirc;a, que reassume a express&atilde;o carrancuda com a qual havia recebido o ex-noivo.</p>
	<p class="western">	- Pior é que tinha. E tava melhor assim, viu? Olha, Maca, realmente n&atilde;o sei&#8230;</p>
	<p class="western">	Ela cruza os bra&ccedil;os e olha para o lado, distante.</p>
	<p class="western">	- Me dá uma chance, vai - Macanudo suplica.</p>
	<p class="western">	- Acho que n&atilde;o. A gente já conversou bastante sobre isso. Voc&ecirc; fez a sua escolha, e eu fiz a minha. Dá para entender?</p>
	<p class="western">	- Mas eu já te expliquei! Eu só fiz isso pra gente ter grana para casar logo!</p>
	<p class="western">	- Maca, o que há de errado em <em>trabalhar</em> para ganhar dinheiro, como uma pessoa normal? Ia demorar? Talvez. Mas a gente ia conseguir. Voc&ecirc; n&atilde;o precisava ter feito isso. E podia ter me avisado&#8230;</p>
	<p class="western">	- &Acirc;ndr&ecirc;a, c&ecirc; sabe que eu te amo.</p>
	<p class="western">	É possível ver que os olhos de &Acirc;ndr&ecirc;a ficam molhados. Macanudo fica esperando que a primeira lágrima escorra, para que possa puxar sua ex-noiva para si e dar-lhe um beijo s&ocirc;frego, asfixiante, como nas comédias rom&acirc;nticas que costumavam assistir. Tudo ia terminar bem.</p>
	<p class="western">	&Acirc;ndr&ecirc;a dá uma fungada, esfrega as m&atilde;os nos olhos e diz:</p>
	<p class="western">	- Tenho que trabalhar, tá?</p>
	<p class="western">	- Mas&#8230;</p>
	<p class="western">	Ela apenas balan&ccedil;a a cabe&ccedil;a, negativamente, esperando que Macanudo se toque e d&ecirc; o fora dali.</p>
	<p class="western">	Ele, por sua vez, n&atilde;o consegue pensar em nada melhor para dizer, ent&atilde;o:</p>
	<p class="western">	- P&ocirc;, Morena, sabe quanto custaram essas entradas?</p>
	<p class="western">	- Quase um m&ecirc;s do meu salário.</p>
	<p class="western">	- Ué! Como voc&ecirc; sabe que elas já t&atilde;o valendo isso?</p>
	<p class="western">	- Está escrito na sua testa. Tchau&#8230;</p>
	<p class="western">	Ela fecha a porta, vira as costas, e volta ao trabalho.</p>
	<p class="western">	Ele se segura, mas as lágrimas que deveriam ter escorrido dos olhos da ex-noiva acabam saindo dos seus. &Acirc;ndr&ecirc;a desaparece dentro do sal&atilde;o. Algumas das meninas continuam observando-no, de soslaio, mas nenhuma intervém a seu favor. Ninguém vem em seu socorro. Ficar parado ali n&atilde;o vai adiantar nada. Aquela n&atilde;o era a resposta que Macanudo esperava, mas ele tinha um plano B.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">(<a href="http://txt.blogsome.com/2008/12/03/adsenseless-parte-5/" target="_blank">continua</a>)</p>
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	</item>
		<item>
		<title>A CORNUCÓPIA RUBRA</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/09/23/a-cornucopia-rubra/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Sep 2008 02:35:11 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Midraxe</category>
	<category>Velharia</category>
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		<description><![CDATA[	
Marcio Massula Jr.
	&nbsp;
	Como perdigueiros treinados, os pezinhos descal&ccedil;os procuravam por algum vestígio de sombra no asfalto escaldante. A quarta-feira certamente tinha algo contra os demais dias da semana para estar assim t&atilde;o ensolarada. Nem parecia que as ruas vinham sendo bombardeadas pelas ninbostratos nos últimos seis dias. 
	&nbsp;
	O mais velho seguia na frente, servindo de [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p><!--[if gte mso 9]><xml>  <w :WordDocument>   </w><w :View>Normal</w>   <w :Zoom>0</w>   <w :HyphenationZone>21</w>   <w :PunctuationKerning/>   <w :ValidateAgainstSchemas/>   <w :SaveIfXMLInvalid>false</w>   <w :IgnoreMixedContent>false</w>   <w :AlwaysShowPlaceholderText>false</w>   <w :Compatibility>    <w :BreakWrappedTables/>    <w :SnapToGridInCell/>    <w :WrapTextWithPunct/>    <w :UseAsianBreakRules/>    <w :DontGrowAutofit/>   </w>   <w :BrowserLevel>MicrosoftInternetExplorer4</w>   </xml>< ![endif]--><!--[if gte mso 9]><xml>  <w :LatentStyles DefLockedState="false" LatentStyleCount="156">  </w> </xml>< ![endif]--><!--[if gte mso 10]> <style>  /* Style Definitions */  table.MsoNormalTable 	{mso-style-name:&#8221;Tabela normal&#8221;; 	mso-tstyle-rowband-size:0; 	mso-tstyle-colband-size:0; 	mso-style-noshow:yes; 	mso-style-parent:&#8221;"; 	mso-padding-alt:0cm 5.4pt 0cm 5.4pt; 	mso-para-margin:0cm; 	mso-para-margin-bottom:.0001pt; 	mso-pagination:widow-orphan; 	font-size:10.0pt; 	font-family:&#8221;Times New Roman&#8221;; 	mso-ansi-language:#0400; 	mso-fareast-language:#0400; 	mso-bidi-language:#0400;} </style> < ![endif]--><br />
<p align="center" class="MsoNormal">Marcio Massula Jr.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Como perdigueiros treinados, os pezinhos descal&ccedil;os procuravam por algum vestígio de sombra no asfalto escaldante. A quarta-feira certamente tinha algo contra os demais dias da semana para estar assim t&atilde;o ensolarada. Nem parecia que as ruas vinham sendo bombardeadas pelas <em>ninbostratos</em> nos últimos seis dias. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O mais velho seguia na frente, servindo de guia e protetor para as irm&atilde;s, que n&atilde;o faziam muita quest&atilde;o de saber onde estavam indo, embora estivessem indo para casa. Apenas iam - confiando cegamente no irm&atilde;o - distraindo-se aqui e ali com bancos, objetos encontrados no ch&atilde;o, pombas, cachorros e qualquer coisa que suas cabecinhas insistissem em classificar como interessante. Isso, evidente, irritava o irm&atilde;o, que tinha que intervir verbal e, quando necessário, fisicamente, para que as pequenas n&atilde;o ficassem para trás. E foi num desses rompantes, numa bonita mas mal conservada pra&ccedil;a pública, percebendo mais uma vez que n&atilde;o estava sendo acompanhado pelas meninas, que viu o homem pela primeira vez. As meninas caminhavam devagar, em dire&ccedil;&atilde;o ao homem que estava sentado no meio-fio, a cabe&ccedil;a envolvida pelas m&atilde;os.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Onde c&ecirc;s v&atilde;o? - disse o mais velho, quase sussurrando no ouvido das duas.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Vamo falá com o Papai Noel! - respondeu a do meio, no mesmo tom de voz, com os olhinhos brilhando.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;- Já falei que Papai Noel é mentira! - retrucou o irm&atilde;o, meio irritado.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;- N&atilde;o é n&atilde;o! - interveio a mais nova.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;- Vamo embora as duas! Eu t&ocirc; mandano! Num tá veno que ele é doido? Olha! Tá até chorano!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Eu vou falá com o Papai Noel e ponto!&nbsp; - saiu esbaforida a menor, caminhando a passos pesados e com os bracinhos rijos, o que n&atilde;o deixou de arrancar risinhos da do meio.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O mais velho correu atrás, mas já era tarde para intervir. A mais nova já estava em frente ao homem, a m&atilde;ozinha estendida, como já tinha sido estendida milhares de vezes.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Dá um real aí, tio!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O homem parou de solu&ccedil;ar e levantou a cabe&ccedil;a na dire&ccedil;&atilde;o da mais nova, observando aqueles olhinhos como se fossem jóias muito valiosas.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;- Desculpe crian&ccedil;a. N&atilde;o entendi.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Um real pra eu comprá comida - a m&atilde;ozinha ainda lá.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O homem enxugava rapidamente as lágrimas, se dando conta só naquele momento de que aquilo poderia ser potencialmente constrangedor para alguém na sua posi&ccedil;&atilde;o. Suas bochechas eram vermelhas, um vermelho vivo, intenso, irreal, como que para combinar com o resto da sua indumentária. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ent&atilde;o acho que seria melhor eu lhe dar um prato de comida, n&atilde;o?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- N&atilde;o. Dá um real.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Papai Noel balan&ccedil;ou a cabe&ccedil;a, decepcionado. Ent&atilde;o notou que a menina n&atilde;o estava desacompanhada.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Como se chama, meu doce?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Jéssica - ainda com a m&atilde;ozinha estendida.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- E quem s&atilde;o aqueles ali? Est&atilde;o com voc&ecirc;? - Papai Noel apontava para os irm&atilde;os de Jéssica.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- É meu irm&atilde;o e minha irm&atilde;.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- E quantos anos voc&ecirc; tem? N&atilde;o! Espere! Vou adivinhar&#8230;voc&ecirc; tem tr&ecirc;s,&nbsp; talvez quatro anos (tenho muita experi&ecirc;ncia nisso), estou certo?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">A menina lutou bravamente para que seus dedos indicassem que ela tinha cinco.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Nossa, t&atilde;o pequenininha!?! O que d&atilde;o pra voc&ecirc; comer?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Nada.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Nada?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Nada. A m&atilde;e num dá nada. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Papai Noel refletiu por instantes. Depois disse, mais para si mesmo:</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- O Saco sabe&#8230; - e de dentro do seu saco vermelho, sacou um sanduíche impressionante, magn&acirc;nimo, daqueles vistos apenas em comerciais de cadeias de fast-food, e ofereceu-o &agrave; menina, que parecia n&atilde;o ter assimilado a idéia.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Tome querida! É pra voc&ecirc;!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Pra mim?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- É. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Ela n&atilde;o se fez de rogada ao atacar o sanduíche &agrave; dentadas, e aquilo ajudou a dissipar um pouco a imagem recorrente na cabe&ccedil;a de Papai Noel, sobre o acontecido na noite passada Como um homem que costumava se divertir despistando esquadrilhas inteiras de MIGs sobre o estreito de Vladvostok p&ocirc;de ter se deixado localizar pelo SIVAM (pelo SIVAM!) e, pior ainda, ter sido abatido por um Tucano?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Qu&ecirc; isso? Tucano? - o rostinho da menina agora fora tomado por uma máscara de condimentos.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- H&atilde;! Nada, querida, nada. Eu devia estar pensando alto. Oh, Rudolph&#8230;pobre Rudolph&#8230;ainda posso sentir o cheiro dos seus p&ecirc;los queimando&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Dá um real, tio? - ela n&atilde;o desistiria facilmente.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Chame seus irm&atilde;os aqui - Papai Noel apoiava a cabe&ccedil;a numa das m&atilde;os enquanto abanava a outra, dando por encerrado o assunto do real.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">As crian&ccedil;as aproximaram-se. A do meio empolgada, percebendo que poderia ganhar um presente, como a mais nova. O mais velho desconfiado. Já tinham lhe falado sobre pessoas assim antes e, embora n&atilde;o fosse mais crian&ccedil;a, ainda estavam gravadas a fogo em sua memória as diversas vers&otilde;es que ouvira da história do Homem do Saco.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">A cor retornara &agrave;s faces do Papai Noel, e a presen&ccedil;a de mais crian&ccedil;as pareceu alegrá-lo.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ho-ho-ho! Como se chama, minha jovem?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Daisy</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- E voc&ecirc;, meu caro?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O garoto respondeu com a careta mais amea&ccedil;adora que conseguiu imaginar.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Vamos lá, garoto! Eu sou amigo! Vamos, me diga o seu nome!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- É Ródnei - respondeu a mais nova, conseguindo recapturar um peda&ccedil;o de hambúrguer que ousara tentar a fuga de sua boquinha. Aquilo despertou a fúria de Ródnei, e ele partiu para cima da pequena, que resolveu n&atilde;o esperar para descobrir a rea&ccedil;&atilde;o do irm&atilde;o e, entre uma mastigada e outra, correu o mais rápido que p&ocirc;de até alcan&ccedil;ar uma dist&acirc;ncia que considerou segura.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ei! Esperem voc&ecirc;s dois! N&atilde;o precisam brigar por causa disso. Eu só queria saber os nomes de voc&ecirc;s por saber. Venham cá todos - Papai Noel pegou o Saco, deixou-o aberto e enfiou uma das m&atilde;os lá dentro.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Venha cá Daisy. Normalmente eu tomaria essa decis&atilde;o, mas bati a cabe&ccedil;a, sabe? Pensar está difícil, ent&atilde;o vou deixar por conta do Saco. Ele sempre foi melhor do que eu. O Saco sabe&#8230; - ent&atilde;o surgiu uma caixa colorida, algo quase mágico, como se ela n&atilde;o estivesse lá antes. A menina mal p&ocirc;de se conter.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- É pra mim?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Oh, sim! Ho-ho-ho! Claro que esta&#8230;&rdquo;Academia e Centro de Estética da Boneca Babi&rdquo; é pra voc&ecirc;. Veja só! &ldquo;Com seu próprio cirurgi&atilde;o plástico&rdquo;!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Mesmo Ródnei n&atilde;o conseguiu evitar uma risadinha assistindo a luta de Daysi para localizar seu centro de gravidade agora que tentava caminhar segurando uma caixa quase do seu tamanho.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Agora é sua vez, meu jovem. Vamos ver o que o Saco lhe reserva&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Papai Noel conquistou a confian&ccedil;a do garoto, ou uma parte dela. O suficiente para que ele se aproximasse, curioso em saber o que o Saco lhe reservava. Ent&atilde;o Papai Noel sacou o conteúdo do Saco e estendeu-lhe ao menino, que deu um salto para trás, certamente assustado.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- H&atilde;? - Papai Noel olhou para sua m&atilde;o e viu que empunhava e apontava para Ródnei uma pistola moderníssima, pela apar&ecirc;ncia, fabricada no leste europeu. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ah! Agora entendi&#8230;n&atilde;o aprovo muito esse tipo de brinquedo, mas se foi isso que o Saco viu, é isso que voc&ecirc; quer. Céus, como est&atilde;o fazendo réplicas perfeitas ultimamente&#8230; - Papai Noel aproximou a pistola do rosto para examiná-la melhor, em seguida imitando, &agrave; sua maneira, os caubóis americanos, soprando o cano da pistola sucessivas vezes, tentando arrancar um sorriso do garoto e faz&ecirc;-lo esquecer do susto que tivera há pouco.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Muito boa mesmo. O que dispara? Água? Bolinhas? - Papai Noel apertou o gatilho e sua pergunta foi respondida com uma rajada de catorze projéteis de chumbo, que desapareceram no céu.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">As crian&ccedil;as se jogaram no ch&atilde;o e o próprio Papai Noel caiu, mais pelo susto do que pelo tranco da arma. Ele olhava estarrecido o cano fumegante da pistola, sem entender o que tinha se passado. O Saco também estaria sofrendo os efeitos da queda? Ou, pior ainda, será que o menino realmente queria a arma? Papai Noel arremessou o objeto longe, com nojo, e o gesto reconquistou a confian&ccedil;a das crian&ccedil;as, que dispararam a rir.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Papai Noel caiu de bunda no ch&atilde;o! - ca&ccedil;oava Daisy</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- É de verdade mesmo? - Ródnei estava fascinado, quase em transe, olhando em dire&ccedil;&atilde;o ao lugar onde a arma fora lan&ccedil;ada. Ent&atilde;o Papai Noel se deu conta. Eles n&atilde;o estavam sozinhos na rua e muitas pessoas ainda corriam, assustadas. Mesmo sob o efeito do impacto, n&atilde;o foi difícil Papai Noel ligar os pontos e presumir o que aconteceria em seguida, mas, para sua surpresa, a polícia chegou muito antes do esperado.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- M&atilde;o na cabe&ccedil;a, vagabundo! - era uma viatura da PM, que teria uma chegada digna dos melhores filmes de a&ccedil;&atilde;o hollywoodianos, n&atilde;o fosse pelo descuido do motorista, que freou bruscamente, fazendo o veículo derrapar e colidir com outros carros parados na rua, dando o tempo necessário para que Papai Noel e as crian&ccedil;as fugissem, sob o disparo de armas de grosso calibre.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Apesar da complei&ccedil;&atilde;o robusta e da idade muito, muito avan&ccedil;ada, décadas e décadas invadindo as resid&ecirc;ncias alheias espremido em chaminés microscópicas, suportando o frio glacial da Lap&ocirc;nia ou o atrito causado por suas viagens hipers&ocirc;nicas deram a Papai Noel o preparo físico de um super-herói. Ele ultrapassou facilmente as crian&ccedil;as e só parou de correr quando se deu conta de que havia abandonado o Saco.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Aquilo nunca tinha acontecido antes, e Papai Noel tremia só de pensar no que poderia ocorrer se o poder do Saco caísse em m&atilde;os erradas. Tivera um pequeno vislumbre ao ceder &agrave;s vontades de um garoto confuso. E o mundo estava repleto de pessoas mal-intencionadas. Ele tinha que reaver o Saco, mesmo que tivesse que enfrentar as autoridades. Se tivesse problemas, o Saco o tiraria deles.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Fez o caminho inverso a passos largos. N&atilde;o queria chamar (mais) a aten&ccedil;&atilde;o das pessoas, que agora já deviam estar precavidas contra o Papai Noel Pistoleiro. Ent&atilde;o, cruzando uma travessa da avenida na qual se encontrava, viu. Estava nas m&atilde;os de Ródnei, que corria sem se importar com as súplicas das irm&atilde;s para que as esperasse. Subiu a escadaria que dava acesso ao morro onde eles moravam como um raio, e Papai Noel ficou tranquilo em saber que o Saco estava com alguém conhecido. E nas crian&ccedil;as se podia confiar.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Papai Noel correu atrás deles, acenando.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Crian&ccedil;as! Crian&ccedil;as! Esperem! Sou eu&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">As meninas olharam para trás e pararam, petrificadas. Jéssica come&ccedil;ou a chorar. Papai Noel parou para confortá-la, e segurava delicadamente os bracinhos da menina.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ho-ho-ho! N&atilde;o chore, princesa. V&ecirc;? Está tudo bem. Ninguém se machucou e tudo n&atilde;o passou de um acidente. Agora, se me d&atilde;o licen&ccedil;a, tenho que pegar o Saco com o irm&atilde;o de voc&ecirc;s. Acho que ele n&atilde;o me ouviu&#8230;continua correndo&#8230;se eu n&atilde;o me apressar, vou perd&ecirc;-lo e tenho muitos compromissos atrasados. Até, meninas!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Papai Noel disparou atrás de Ródnei, tentando n&atilde;o perd&ecirc;-lo de vista, sempre acenando e gritando seu nome. Mas o garoto parecia n&atilde;o ouvir - teriam os disparos afetado sua audi&ccedil;&atilde;o? - e corria cada vez mais, certamente evitando ter que dar explica&ccedil;&otilde;es &agrave; polícia, pensava Papai Noel. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O problema que o Bom Velhinho enfrentava agora era a geografia labiríntica do local, uma sucess&atilde;o de becos, muros, ruelas sem-saída e escadarias que n&atilde;o davam em lugar nenhum, e ele apenas n&atilde;o perdeu o garoto de vista por conseguir compensar sua desorienta&ccedil;&atilde;o com uma velocidade superior.</p>
	<p class="MsoNormal">Ele serpenteava pelos corredores estreitos, vez por outra recebendo o olhar at&ocirc;nito dos moradores, que retribuía com um largo sorriso, até que, em uma das muitas áreas abertas pelas quais passou, foi barrado por um homem. Ele estava armado. Papai Noel deu alguns passos para trás, e percebeu que o homem estava acompanhado por outros, também armados. E n&atilde;o eram autoridades. Ou eram?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Olha só que comédia. Tá doido, velho? Comé que c&ecirc; sobe o morro assim, sem pedí pra ninguém?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Eram quatro. O mais velho devia ter pouco mais de vinte, e todos apontavam suas armas para ele. Sempre que podia, Papai Noel evitava o conflito direto, e, no caso, achou que dialogar seria a melhor solu&ccedil;&atilde;o. Levantou as m&atilde;os, em sinal claro de rendi&ccedil;&atilde;o.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ho-ho-ho! Vejam rapazes, eu n&atilde;o sou amea&ccedil;a para ninguém e&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ah, é? Ah, é? Ent&atilde;o, qu&ecirc; que c&ecirc; tá fazeno aqui, &ocirc; velho comédia?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Papai Comédia - emendou outro dos rapazes, fazendo todos caírem na gargalhada.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- E ent&atilde;o, Papai Comédia? Num vai falá n&atilde;o? H&atilde;? Num vai falá?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Eu só&#8230;Papai Noel interrompeu-se, tentando soar o mais natural possível. Embora fosse fluente em todos os idiomas criados pela imagina&ccedil;&atilde;o humana, algumas express&otilde;es idiomáticas (principalmente as que n&atilde;o faziam parte do seu contexto) lhe eram difíceis, e ele tentava lembrar a express&atilde;o utilizada por um dos rapazes há pouco - &#8230;subi o morro pra pegar uma coisa que é minha e que um garoto, talvez voc&ecirc;s conhe&ccedil;am, Ródnei, está guardando para mim.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Os rapazes entreolharam-se.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Que Ródnei? O filho do seu Madruga? -inquiriu o líder.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Acho que n&atilde;o. Esse aí mora lá embaixo - respondeu um dos companheiros.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ah, é&#8230;tem aquele lá da dona Zilda&#8230;</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Qu&ecirc; isso, Boca?!? Já esqueceu que c&ecirc; passou o cara?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Ah, é! Só! </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Papai Noel observava, aflito, o Saco subindo cada vez mais, ora desaparecendo atrás de uma daquelas constru&ccedil;&otilde;es rústicas, ora surgindo em outra escada ou rampa, subindo e subindo.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Aquele Ródnei - apontou Papai Noel, tentando evitar movimentos bruscos.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Os quatros viraram-se de uma vez para o local indicado por Papai Noel, cobrindo a parte superior dos olhos com as m&atilde;os, tentando definir quem estava por trás do ponto vermelho que ziguezagueava morro acima.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Tá veno quem é, Sinistro?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- T&ocirc; n&atilde;o, Boca&#8230;peraí! Parece o Rodinho.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- O Rodinho do seu Roque?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- É.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- A&ecirc;, Papai Comédia, o menino é do nosso conceito. Se tá mecheno com ele, tá mecheno com a gente.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Os quatro come&ccedil;aram a se virar ao mesmo tempo. Papai Noel nunca fora entusiasta dos combates, mas naquela situa&ccedil;&atilde;o n&atilde;o via alternativa a n&atilde;o ser optar pelo caminho da espada. Poucos sabiam, mas ele era versado no P&rsquo;ong-P&rsquo;o-Chi, uma variante letal do T&rsquo;ai Chi, conhecida por apenas onze homens na face da Terra.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Foi tudo muito rápido. Os garotos eram jovens e rápidos. Mas estavam próximos e isso deu a vantagem que o velho guerreiro precisava. O que estava &agrave; direita chegou a puxar o gatilho, mas Papai Noel antecipou-se, dando um tapa no cano do seu fuzil e a rajada atingiu o peito daquele que eles chamavam de Sinistro. Ao mesmo tempo, sua bota foi de encontro aos genitais do que aparentava ser o mais jovem, que foi ao ch&atilde;o urrando de dor. Numa fra&ccedil;&atilde;o de segundos, um dos punhos de Papai Noel já deslocara o maxilar do líder, Boca, mas o último deles, aquele que tinha atirado no próprio amigo, recobrou-se do choque e preparava outra saraivada de balas, agora com endere&ccedil;o certo.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Mas o Bom Velhinho foi mais rápido e o meliante n&atilde;o conseguiu se esquivar das m&atilde;os dele, que era benevolente o bastante para manter pressionada sua carótida e mais um punhado de vasos sanguíneos apenas o tempo suficiente para que a interrup&ccedil;&atilde;o do fornecimento de oxig&ecirc;nio ao cérebro comprometesse permanentemente apenas as regi&otilde;es cerebrais responsáveis pela fala e pela locomo&ccedil;&atilde;o. Era Natal e n&atilde;o havia motivo para tirar injustamente mais uma vida.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Haveria tempo para lamentar o incidente depois. Afinal de contas, eles também tinham sido crian&ccedil;as. Mas sua atitude enérgica tinha um bom motivo. Sabia o que podia sair do Saco, e já tinha visto armas demais naquele dia.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Ele deu tudo de si, desta vez n&atilde;o se preocupando com o que as pessoas pudessem imaginar. Afinal de contas, quem saberia que ele era <strong>O</strong> Papai Noel? O ponto vermelho continuava sua escalada frenética, mas Papai Noel estava reduzindo a dist&acirc;ncia entre eles rapidamente. O garoto devia estar perdendo o f&ocirc;lego. Papai Noel resolveu n&atilde;o gritar, para n&atilde;o atrair mais problemas. Ele teve a impress&atilde;o de que o garoto olhara de relance e o vira, mas se isso fosse verdade, certamente ele teria parado e entregaria de bom grado o Saco &agrave; Papai Noel. Ródnei agora caminhava e virou num corredor que surgiu repentino. Papai Noel diminuiu a velocidade e entrou no corredor, que terminava numa pra&ccedil;a microscópica, construída artesanalmente, com certeza pelos próprios moradores que habitavam os quatro barracos - lembrara-se do nome - que a circundavam, e n&atilde;o acreditou no que viu.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Ródnei puxava mais uma arma do Saco, dessa vez uma submetralhadora israelense de última gera&ccedil;&atilde;o. Papai Noel n&atilde;o se conteve e tomou de uma vez a arma e o Saco do garoto, que encolheu-se num canto, esfor&ccedil;ando-se para n&atilde;o demonstrar medo.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Será que n&atilde;o percebe, garoto? N&atilde;o v&ecirc; o mal que essas coisas podem fazer? N&atilde;o viu o que aconteceu hoje? N&atilde;o viu o que aconteceu ao mundo?<br /> <!--[if !supportLineBreakNewLine]--><br /> <!--[endif]--></p>
	<p class="MsoNormal">O garoto, ainda encolhido, olhava para baixo, sem dizer nada.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- E ent&atilde;o? N&atilde;o vai dizer nada? N&atilde;o vai dizer que está arrependido e que no próximo ano vai ser um bom garoto??</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Por qu&ecirc;? - balbuciou o garoto.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Como assim por qu&ecirc;? Será que aqui os garotos s&atilde;o diferentes até nisso? N&atilde;o quer ganhar presentes, n&atilde;o?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Eu nunca ganhei presente e nunca te vi! C&ecirc; n&atilde;o existe!</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">A afirma&ccedil;&atilde;o teve o efeito de um tiro. Papai Noel ponderou um pouco.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Tente entender, garoto. Estamos ampliando nossas opera&ccedil;&otilde;es ano-a-ano. Quando comecei, eu mal podia cobrir a área de uma vila, e veja só, hoje já atendo boa parte do Hemisfério Norte ocidental. O que voc&ecirc; acha que eu estava fazendo no espa&ccedil;o aéreo do seu país? - Papai Noel interrompeu o discurso, na esperan&ccedil;a de que o menino respondesse sua pergunta, mas diante do sil&ecirc;ncio dele, n&atilde;o havia op&ccedil;&atilde;o sen&atilde;o continuar de onde havia parado.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Estava analisando novas rotas, percebe? O problema hoje é uma quest&atilde;o puramente logística, sabe o que é isso?. Com meus meios de locomo&ccedil;&atilde;o atuais, é inviável atender a todas as casas do mundo, mas, ho-ho-ho!, isso vai mudar em breve! - Papai Noel abriu um largo sorriso e deu uma piscadela para o garoto. - Estamos desenvolvendo um novo tipo de propuls&atilde;o. Fica pronta em, segundo os prognósticos dos duendes, em trinta anos. N&atilde;o é incrível?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- Papai Noel féladaputa - disse o garoto, baixinho.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">O rosto do homem transfigurou-se.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">- O qu&ecirc;? O qu&ecirc; voc&ecirc; disse? - Papai Noel deu tr&ecirc;s passos em dire&ccedil;&atilde;o ao menino, e esse assumiu uma posi&ccedil;&atilde;o defensiva, já esperando tomar algum tipo de safan&atilde;o do Espírito Natalino, que percebeu o temor do garoto e, tentando n&atilde;o complicar mais ainda a situa&ccedil;&atilde;o, virou-se e foi embora, nem mesmo se despedindo, apenas imaginando qual seria a maneira mais discreta para retornar ao Pólo Norte.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Assim que percebeu que Papai Noel n&atilde;o oferecia mais risco, Ródnei parou de tremer e solu&ccedil;ar. Era um garoto esperto, esperto demais para sua idade. Sabia que Papai Noel o encontraria e tomaria o Saco de volta. Correra como um louco na tentativa de ganhar alguma dist&acirc;ncia para que pudesse tirar o que precisava do Saco. Viu como utilizar e achou que seria fácil, como realmente foi. Mas o velho era muito rápido e o alcan&ccedil;ou rapidinho. Ele queria tirar uns presentes para si próprio e para seus amigos, mas n&atilde;o deu tempo e Papai Noel tomou a UZI que Sinistro tanto queria e cuja foto ele vira tantas vezes nas várias revistas especializadas que o pessoal da boca deixava espalhadas por lá. Paci&ecirc;ncia. Pelo menos o dele ele conseguiu tirar. Tirar e esconder num monte de mato próximo, antes que Papai Noel visse. </p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Foi até lá e, com dificuldade, puxou o fuzil - igualzinho ao de Sinistro - com o qual ele sempre sonhou. Armou o bipé, destravou a arma e ajustou a mira, exatamente como o amigo agora falecido havia ensinado. Uma vez, durante uma troca de tiros com a polícia, Sinistro deixara o garoto efetuar alguns disparos, afirmando, inclusive, que Rodnei tinha conseguido acertar um <em>verme</em>, mas o garoto era modesto e achava que o amigo disse aquilo apenas para agradá-lo.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">De qualquer maneira, se lembrava de como fazer tudo direitinho. E ainda dava pra ver o Papai Noel.</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
	<p class="MsoNormal">Será que conseguiria acertá-lo dali?</p>
	<p class="MsoNormal">&nbsp;</p>
]]></content:encoded>
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	</item>
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		<title>CURIOSIDADE MÉDICA - UM ROTEIRO DE HQ</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/09/23/curiosidade-medica-um-roteiro-de-hq/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Sep 2008 02:25:43 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Roteiros</category>
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		<description><![CDATA[	(N.A.: tinha postado isso no outro blog, e, sei lá porque, n&atilde;o pensei em disponibilizar aqui, que, teoricamente, seria o espa&ccedil;o para fic&ccedil;&atilde;o)
	De dias pra cá meu interesse pela narrativa e pela narra&ccedil;&atilde;o de histórias em quadrinhos vem voltando gradativamente, talvez pelo fato de ter feito a leitura consecutiva de vários livros sobre o assunto, [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>(N.A.: tinha <a target="_blank" href="http://urobouro.blogspot.com/2008/06/curiosidade-mdica-um-roteiro-de-hq-de.html">postado isso no outro blog</a>, e, sei lá porque, n&atilde;o pensei em disponibilizar aqui, que, teoricamente, seria o espa&ccedil;o para fic&ccedil;&atilde;o)</p>
	<p class="western">De dias pra cá meu interesse pela narrativa e pela narra&ccedil;&atilde;o de histórias em quadrinhos vem voltando gradativamente, talvez pelo fato de ter feito a leitura consecutiva de vários livros sobre o assunto, talvez por ter botado as m&atilde;os num pacotinho de edi&ccedil;&otilde;es nas quais estava de olho fazia tempo.</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">Ano passado, se n&atilde;o me falha a memória, o <a href="http://leonardosantana.com.br/">Leonardo Santana</a> enviou um email para várias pessoas - eu incluso - onde solicitava hqs curtas para publicar numa edi&ccedil;&atilde;o temática da <a href="http://prismarte.com.br/">Prismarte</a>, que ele ajuda a editar. O tema, aliás, era o terror, e essa edi&ccedil;&atilde;o acabou sendo a de número 45.</p>
	<p class="western"></p>
	<p align="left" class="western">Bem, eu tinha uma pequena idéia que tinha come&ccedil;ado a desenvolver anteriormente e achei que ela caberia numa edi&ccedil;&atilde;o assim. Fiz meus cálculos e concluí que tr&ecirc;s páginas seriam o suficiente. N&atilde;o me lembro exatamente qual foi o estopim da coisa toda, mas eu queria misturar alguns elementos que me interessavam na época. Ent&atilde;o me propus a escrever e entregar essa história, que batizei de CURIOSIDADE MÉDICA.</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">Resumindo a ópera: logo eu, o (pretenso) roteirista metódico e pontual, que sempre reclamou dos desenhistas fur&otilde;es, furei. A vida no mundo real come&ccedil;ou a cobrar mais aten&ccedil;&atilde;o, e, paralelamente, meu interesse pela feitura de hqs come&ccedil;ou a declinar vertiginosamente. Deixei esse e outros roteiros de lado e fui cuidar de outros assuntos. Até semana passada.</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">Mais uma vez, minha vontade de escrever para quadrinhos voltou. Tive algumas idéias e reencontrei outras que me agradavam. Acabei desenterrando, entre outras coisas, esse roteiro.</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">Reescrevi praticamente tudo, e talvez ainda falte alguma coisa, mas é um roteiro que eu gostaria de ver desenhado.</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">O roteiro, aliás, pode ser baixado <a href="http://oroboro.multiply.com/journal/item/123">aqui</a> (lá embaixo, em &ldquo;Attachment&rdquo;) ou lido no <a href="http://www.scribd.com/doc/3477510/CURIOSIDADE-MEDICA" target="_blank">Scribd </a>(o widget deles n&atilde;o funcionou aqui).</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">Alguém se habilita?</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">P.S.: Em tempos recentes, desenvolvi um procedimento terap&ecirc;utico contra a angústia provocada por desenhistas fur&otilde;es: inscrevo os emails deles nas newsletters de tudo quanto é site de zoofilia que encontro internet afora. Podem chamar isso de &ldquo;compensa&ccedil;&atilde;o&rdquo;.</p>
	<p class="western"></p>
	<p class="western">P.S.2: Brincadeirinha!!!!</p>
]]></content:encoded>
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		<item>
		<title>MIDRAXE (2004-2006)</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/09/23/midraxe-2004-2006/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Sep 2008 02:14:49 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Não-ficção</category>
	<category>Midraxe</category>
	<category>Velharia</category>
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		<description><![CDATA[	O Midraxe foi um e-zine que editei entre 2004 e 2006. Por editar voc&ecirc; pode entender &quot; formatar os textos, azucrinar periodicamente os colaboradores e escrever um editorial engra&ccedil;adinho&quot;.
 
	Os zines eram arquivos .rtf enviados através de uma lista do Yahoo. N&atilde;o era um formato lá muito brilhante, mas até que era legal.
	 
	Foram sete [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>O Midraxe foi um e-zine que editei entre 2004 e 2006. Por editar voc&ecirc; pode entender &quot; formatar os textos, azucrinar periodicamente os colaboradores e escrever um editorial engra&ccedil;adinho&quot;.<br />
<p class="western"> </p>
	<p class="western">Os zines eram arquivos .rtf enviados através de uma lista do Yahoo. N&atilde;o era um formato lá muito brilhante, mas até que era legal.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Foram sete edi&ccedil;&otilde;es, que contaram com textos meus e dos escritores <a href="http://malprg.blogs.com/francoatirador">Lúcio Manfredi</a>, <a href="http://poppillsaddiction.blogspot.com/">Rafael Monteiro</a>, Airton Marinho e <a href="http://amoraes.wordpress.com/">A. Moraes</a>. Algumas das edi&ccedil;&otilde;es  foram temáticas, como a de Sexo (onde saiu <a href="http://txt.blogsome.com/2006/07/03/styricom">S@TYRI.COM</a>) e a de Natal.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Por raz&otilde;es que n&atilde;o v&ecirc;m ao caso, o e-zine acabou (e esse blog nasceu).</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Desenterrei esse material hoje e tava dando umas risadas. Soltar os zines por aí tá fora de cogita&ccedil;&atilde;o, mas vou (re)publicar mais dois contos meus daquela época: MIDRAXE, que deu nome ao zine, e A CORNUCÓPIA RUBRA, que saiu no especial de Natal.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">E até o fim da semana posto a parte 4 de <a href="http://txt.blogsome.com/category/adsenseless">ADSENSELESS</a>.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Abaixo vai o &quot;editorial&quot; da edi&ccedil;&atilde;o 2. E daqui a pouco, segue A CORNUCÓPIA.</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">Divirtam-se (ou n&atilde;o&#8230;).</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">=======================================================================</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>MIDRAXE - Em terra de cego, quem l&ecirc; Midraxe é Rei.</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>EDI&Ccedil;&Atilde;O 2 - NOVEMBRO DE 2004</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Tudo certo aí, pessoal?</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Os retorno dado pelo público &agrave; primeira edi&ccedil;&atilde;o foi melhor do que o esperado. O zine rodou o mundo e alguns escribas ilustres dedicaram singelas linhas &agrave; nossa publica&ccedil;&atilde;o. Vejam só:</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Uau! Mal posso esperar pra tirar uma foto com esses garotos!</font></p>
	<p class="western"><font><em>- Thomas Pynchon</em></font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Um primor! Enviei algumas coisas ao Márcio e espero sinceramente poder fazer parte desse empreendimento!</font></p>
	<p class="western"><font><em>- Alan Moore</em></font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Eles t&ecirc;m futuro. Prevejo um número de edi&ccedil;&otilde;es semelhante &agrave;s minhas tiragens. É só perseverar.</font></p>
	<p class="western"><font><em>- Paulo Coelho</em></font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Caralho! É um verdadeiro cataclisma sináptico metafictício!</font></p>
	<p class="western"><font>- Grant Morrison</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Tivesse sido lan&ccedil;ado 30 anos antes, eu estaria lendo, com certeza.</font></p>
	<p class="western"><font><em>- Philip K. Dick</em> (com a ajuda de alguns copos d&rsquo;água, de um velho rádio valvulado e de um exemplar surrado do <em>The complete idiot&rsquo;s guide to Instrumental Transcomunication</em>)</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Na próxima entrevista que der, citarei os piás como uma das minhas novas refer&ecirc;ncias.</font></p>
	<p class="western"><font>- Dalton Trevisan</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Gostei muito e escreverei algo sobre eles. Um romance, imagino. A história vai se passar em Nova York. E algum deles vai desaparecer. Acho que é só, por enquanto.</font></p>
	<p class="western"><font><em>- Paul Auster</em></font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Essa molecada é de matar!</font></p>
	<p class="western"><font>- Stephen King</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Nessa edi&ccedil;&atilde;o, Lúcio Manfredi (<a href="http://malprg.blogs.com/francoatirador">http://malprg.blogs.com/francoatirador</a>), que - presumo - deve ter chorado de emo&ccedil;&atilde;o com o diálogo final de Waking Life; A. Moraes (<a href="http://artificios.blogspot.com/">http://artificios.blogspot.com</a>), que - presumo - também deve ter chorado de emo&ccedil;&atilde;o com o diálogo final de Waking Life e eu (<a href="http://urobouro.blogspot.com/">http://urobouro.blogspot.com</a>), que chorei de emo&ccedil;&atilde;o com o diálogo final de Waking Life. </font> </p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Esse m&ecirc;s teremos uma edi&ccedil;&atilde;o diet, com menos caracteres (acho. N&atilde;o contei. Se algum de voc&ecirc;s tiver a pachorra de fazer isso, me informe, <em>per favore</em>), mas com o mesmo valor nutritivo. </font> </p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Divirtam-se.</font></p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western"><font>Marcio Massula Jr.</font></p>
]]></content:encoded>
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		<title>ADSENSELESS - Parte 3</title>
		<link>http://txt.blogsome.com/2008/07/21/adsenseless-parte-3/</link>
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		<pubDate>Mon, 21 Jul 2008 14:36:28 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Administrator</dc:creator>
		
	<category>Ficção</category>
	<category>Adsenseless</category>
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		<description><![CDATA[	Márcio Massula Jr.
	(Chegou agora? Ok: Parte 1 e Parte 2)
	 
		O naco dentro da boca de Chico tem calorias suficientes para sustentar uma crian&ccedil;a por uma semana. Mesmo assim, a ma&ccedil;aroca de p&atilde;o, carne sintética, legumes transg&ecirc;nicos e condimentos desaparece garganta abaixo antes que suas papilas gustativas tenham notícia do sabor daquilo tudo. Ao que [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[	<p>Márcio Massula Jr.</p>
	<p class="western">(Chegou agora? Ok: <a href="http://txt.blogsome.com/2008/02/18/adsenseless-parte-1">Parte 1</a> e <a href="http://txt.blogsome.com/2008/05/20/adsenseless-parte-2">Parte 2</a>)</p>
	<p class="western"> </p>
	<p class="western">	O naco dentro da boca de Chico tem calorias suficientes para sustentar uma crian&ccedil;a por uma semana. Mesmo assim, a ma&ccedil;aroca de p&atilde;o, carne sintética, legumes transg&ecirc;nicos e condimentos desaparece garganta abaixo antes que suas papilas gustativas tenham notícia do sabor daquilo tudo. Ao que parece, para Chico mastigar a comida é apenas uma formalidade, que ele n&atilde;o faz muita quest&atilde;o de cumprir.  </p>
	<p class="western">	Apesar de já se terem passado alguns dias, Macanudo ainda chama aten&ccedil;&atilde;o. Vez ou outra algum dos clientes da lanchonete pára e pergunta: &ldquo;Ei, voc&ecirc; n&atilde;o é aquele cara da Googolplex?&rdquo;. Nas primeiras vezes, ele respondia com convic&ccedil;&atilde;o, fazia valer o treinamento, mas esse n&atilde;o era um momento. Tratava de um assunto importante, e quando uma menina pediu para tirar uma foto ao seu lado, o máximo que consegui produzir foi um esgar com o cantos dos lábios. Um arremedo de sorriso. Ele está preocupado.</p>
	<p class="western">	- Chico, ela disse que n&atilde;o quer falar comigo!</p>
	<p class="western">	Chico ainda está concentrado em sua comida. Ele vasculha o interior do sanduíche com a ponta do dedo indicador, como se procurasse encontrar algo que n&atilde;o deveria estar lá.</p>
	<p class="western">	- Cara, ela abriu uma comunidade no <a href="http://www.comicspace.com/massula/comics.php?action=read&#038;file_id=10993">TRUKO</a>, sabia? &ldquo;Eu odeio a Googolplex!&rdquo;. E eu, como fico nessa, cara?</p>
	<p class="western">	O indicador de Chico continua a prospectar o sanduíche.</p>
	<p class="western">	- Maca, n&atilde;o acredito que voc&ecirc; fez isso. Sério mesmo. Seu pai era um lóki, sua av&ocirc; também,  e, cá pra nós, sempre te achei meio esquisitinho. Mas gosto de voc&ecirc; assim mesmo, c&ecirc; sabe, né? Eu até me empolguei quando um carinha lá da Plex comentou sobre o programa comigo, mas nunca ia imaginar que meu melhor amigo ia se meter nessa. N&atilde;o mesmo.</p>
	<p class="western">	Chico tira uma fatia de picles e coloca sobre a mesa. Em seguida abocanha mais uma parte do sanduíche.</p>
	<p class="western">	- Ué! Mas, de todo mundo, voc&ecirc; é o que mais deveria estar feliz com o que eu fiz!</p>
	<p class="western">	- Maca, eu sou um <em>Tecnólogo</em>, n&atilde;o um tecnófilo pervertido como voc&ecirc;. E feliz n&atilde;o é exatamente a palavra. Curioso, talvez. Mas uma coisa é o fato de eu gostar de tecnologia. Outra é o fato de gostar de voc&ecirc; estar servindo de cobaia pra <em>testar</em> tecnologia, percebe?</p>
	<p class="western">	- Ok. Mas isso ainda n&atilde;o resolve meu problema. Eu fiz isso para me casar com ela. E ela nem quer me ver!</p>
	<p class="western">	- Bom, talvez as coisas estivessem melhores se voc&ecirc; tivesse avisado que ia implantar um dispositivo de publicidade sem&acirc;ntica na testa ao invés de ter dito que ia pescar. E comigo!  </p>
	<p class="western">	- Foi mal, cara. Mas eu tinha que fazer isso. Se dissesse que ia participar do programa, ela ia protestar, com certeza.</p>
	<p class="western">	- E voc&ecirc; achou que aparecer com a testa cintilando pre&ccedil;os de panelas e cursos de pós-gradua&ccedil;&atilde;o ia mudar a opini&atilde;o dela, né?</p>
	<p class="western">	- Achei que ela fosse entender&#8230;</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o entendeu.</p>
	<p class="western">	- Pois é&#8230;</p>
	<p class="western">	- Isso aí é por tempo limitado, né?</p>
	<p class="western">	- É.</p>
	<p class="western">	- Quanto?</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o posso comentar. Está no contrato.</p>
	<p class="western">	- Presumo que seja muito tempo, ent&atilde;o&#8230;</p>
	<p class="western">	- Em virtude das circunst&acirc;ncias, acho que agora é. Temos que resolver isso, Chico?</p>
	<p class="western">	- Voc&ecirc; e a &Acirc;ndr&ecirc;a, né?</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o, cara! Eu e voc&ecirc;!</p>
	<p class="western">	- Fala baixo, viado! Tá querendo me comprometer? E que história é essa de eu e voc&ecirc;?</p>
	<p class="western">	- Ué? Voc&ecirc; n&atilde;o vai me ajudar a resolver essa parada?</p>
	<p class="western">	- Eu?</p>
	<p class="western">	- P&ocirc;, Chico! Voc&ecirc; é meu melhor amigo. Pra quem eu posso pedir ajuda?</p>
	<p class="western">	- Pro seu bom-senso, talvez?</p>
	<p class="western">	- Tá bom. Pode pisar em cima. Mas pense aí num jeito de me dar uma for&ccedil;a, vai.</p>
	<p class="western">	Uma jovem com fei&ccedil;&otilde;es asiáticas, na casa dos vinte e poucos, senta-se ao lado de Macanudo, sem ao menos ter a preocupa&ccedil;&atilde;o de se apresentar. Ela tem os cabelos pintados num tom de vermelho que é uma declara&ccedil;&atilde;o de guerra &agrave; vis&atilde;o de qualquer pessoa dentro do recinto. Suas roupas s&atilde;o volumosas, e de cores t&atilde;o berrantes quanto a do cabelo. Ela parece saída de algum anime. Macanudo fica surpreso, enquanto Chico tenta divisar alguma das curvas do seu corpo, bem escondidas sobre toda aquela quantidade de tecido.</p>
	<p class="western">	Do outro lado do restaurante, outra mo&ccedil;a, com roupas igualmente exóticas, bate uma sequ&ecirc;ncia de fotos com um smartphone, enquanto a menina dos cabelos vermelhos estica o indicador e o dedo-médio em V. Antes que Macanudo possa formular algum protesto, ela agradece, se levanta, cruza o restaurante, pega o celular que estava na m&atilde;o de uma amiga, confere as fotos, dá umas risadinhas, pressiona algumas teclas e ambas saem pela porta.</p>
	<p class="western">	Chico come&ccedil;a a rir.</p>
	<p class="western">	- Se acostume, cara. Agora voc&ecirc; é uma celebridade.</p>
	<p class="western">	- Pior é que n&atilde;o vou receber nenhum centavo por essa publicidade.</p>
	<p class="western">	As risadas de Chico se transformam em gargalhadas.</p>
	<p class="western">	- Maca, só voc&ecirc; mesmo pra pensar numa coisa dessas. C&ecirc; é um figura mesmo.</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o sei porque, mas algo me diz que cometi uma burrada ao entrar nessa.</p>
	<p class="western">	- Só agora voc&ecirc; percebeu?</p>
	<p class="western">	- Valeu mesmo, Chico.</p>
	<p class="western">	Chico amea&ccedil;a fazer mais um comentário espirituoso, mas detém a fala. Ele olha fixamente para Macanudo, que estranha a fixa&ccedil;&atilde;o súbita do amigo.</p>
	<p class="western">	- Maca, essa parada tá gravando a nossa conversa?</p>
	<p class="western">	- Sim.</p>
	<p class="western">	- E tá filmando meu rosto?</p>
	<p class="western">	- Também.</p>
	<p class="western">	- Ou seja, como se eles já n&atilde;o tivessem bastante informa&ccedil;&atilde;o, a Plex está coletando mais dados a meu respeito. E sem a minha permiss&atilde;o.</p>
	<p class="western">	Macanudo assume um ar grave.</p>
	<p class="western">	- N&atilde;o! Nada disso! Esses dados s&atilde;o coletados apenas para filtrar os anúncios. Eles nunca v&atilde;o usar isso. Os dados s&atilde;o apagados após 30 segundos após o fim da conversa. Está no manul.</p>
	<p class="western">	Chico se aproxima mais. Chama Macanudo com o indicador. Olha para os lados e certifica-se que ninguém está prestando aten&ccedil;&atilde;o.</p>
	<p class="western">	- Isso é o que eles querem que voc&ecirc; pense - diz, num sussurro.</p>
	<p class="western">	- Sério mesmo?</p>
	<p class="western">	Chico dá um tapa de leve no queixo de Macanudo, que n&atilde;o esperava por essa rea&ccedil;&atilde;o do amigo e reage de maneira desproporcional, atirando-se para trás e derrubando seu copo de refrigerante.</p>
	<p class="western">	- Claro que n&atilde;o, seu mané! Tava parafraseando um filme das antigas que gosto muito. C&ecirc; n&atilde;o sabe o quanto eu esperei pra poder dizer isso.</p>
	<p class="western">	- Olha a bagun&ccedil;a que voc&ecirc; fez.</p>
	<p class="western">	- Que voc&ecirc; fez, Maca. Mas, peraí&#8230;</p>
	<p class="western">	Chico levanta-se e segura a cabe&ccedil;a do amigo com as duas m&atilde;os. Seu olhar é severo. N&atilde;o parece estar brincando agora. Analisa a tarja por alguns segundos. Resolve falar, por fim.</p>
	<p class="western">	- Caralho, olhas os pre&ccedil;os disso! </p>
	<p class="western">(<a href="http://txt.blogsome.com/2008/09/24/adsenseless-parte-4/" target="_blank">continua</a>)</p>
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